quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Mossad – As marcas da decepção

Victor Ostrovsky

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O MOSSAD (Ha-Mōśād le-Mōdī`īn ū-le-Tafqīdīm Meyūhadīm - O Instituto para Inteligência e Operações Especiais, hebraico: המוסד למודיעין ולתפקידים מיוחדים)
    
O texto abaixo é um extrato de matéria escrita por CLAIRE HOY, transcrito do livro de sua autoria – juntamente com VICTOR OSTROVSKY – “As Marcas da Decepção – Memórias de um Agente do Serviço Secreto Israelense”.
   
VICTOR OSTROVSKY nasceu no Canadá, de mãe israelense e pai judeu canadense, mas foi criado em Israel. Tornou-se, aos 18 anos, o mais jovem Oficial militar de Israel. Foi recrutado e treinado pelo MOSSAD, tornando-se um katsa – nome que o MOSSAD dá a seus oficiais de Inteligência. Hoje, não mais pertence aos quadros da Organização.
    
CLAIRE HOY é jornalista e um dos mais importantes escritores; autor de quatro livros, inclusive o famoso Friends in High Places – Amigos em Altos Cargos -, uma denuncia do favorecimento político no governo do Primeiro-Ministro Brian Mulroney.  
     
O livro foi editado no Brasil em 1992 pela Scritta Editorial.

“É melhor receber críticas do que condolências” (ex-Primeira Ministra GOLDA MEIR)

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Em 1 de setembro de 1951, o Primeiro-Ministro David Bem Gurion decretou a criação do MOSSAD, organização de Inteligência independente do Ministério das Relações Exteriores israelense. Até hoje, embora todo mundo saiba que ele existe – os políticos, muitas vezes, chegam a vangloriarem-se de seus sucessos -, o MOSSAD permanece, sob todos os aspectos, uma organização clandestina. Você não encontra referência a ela nos orçamentos de Israel, por exemplo. E o nome do seu chefe, enquanto está no cargo, nunca é tornado público.
    
Um dos principais temas deste livro é a crença de Victor Ostrovsky de que o MOSSAD está fora de controle, e que até mesmo o Primeiro-Ministro, embora ostensivamente encarregado dele, não tem autoridade real sobre suas ações e é, muitas vezes, manipulado por ele, para aprovar ou para pôr em prática linhas de ação que podem ser do maior interesse dos dirigentes do MOSSAD, mas não necessariamente do maior interesse de Israel.
    
Apesar da natureza das atividades de Inteligência envolver, por definição, um segredo considerável, certos elementos dela são abertos em outros países democráticos. Nos EUA, por exemplo, o presidente e os diretores da CIA são primeiramente designados pelo presidente, submetidos a audiências públicas pela Comissão seleta do Senado para Inteligência e, finalmente, têm de ser confirmados pela maioria do Senado.   
    
Em 28 de fevereiro de 1989, por exemplo, a Comissão presidida por David I. Boren reuniu-se na sala SH-216 do Hart Senate Office Bullding, em Wasington, para avaliar a indicação do veterano Oficial da CIA Richard J.Kerr, para uma das diretorias da Central de Inteligência. Antes mesmo de passar pelas audiências públicas, Kerr teve que responder a um exaustivo questionário de 45 itens, discorrendo sobre tudo, desde as suas experiências biográficas, acadêmicas e profissionais, até às suas finanças, inclusive as terras que possuía, o salário dos últimos cindo anos e o valor de sua hipoteca, além de questões sobre as organizações a que pertencia, a sua filosofia geral d vida e o Serviço de Inteligência.
    
Na abertura da audiência, o senador Boren mencionou o fato de que era uma ocasião rara a Comissão conduzir em público suas atividades: “Enquanto outros países mantêm o ramo legislativo desinformado a respeito de suas atividades de Inteligência, a natureza abrangente do processo em nosso país é verdadeiramente única”.
    
Entre outras coisas, a cada quatro meses a Comissão analisa todos os programas de ação secreta por ordem presidencial, realizando audiências especiais sempre que o presidente dá início a uma nova ação secreta.
    
“Embora não tenhamos o poder de vetar as ações secretas propostas, os presidentes, no passado, têm seguido os nossos conselhos, agindo no sentido de modificar ou cancelar atividades que a Comissão considerou mal concebidas, ou que achássemos que traziam riscos desnecessários em termos de segurança”.
    
Em Israel, mesmo o Primeiro-Ministro, apesar de supostamente responsável pelo Serviço de Inteligência, muitas vezes ignora as ações secretas até que sejam consumadas. Quanto ao público em geral, raramente vem a ter conhecimento. E não existe uma comissão de escrutínio das atividades do pessoal do MOSSAD.
    
A importância de uma tutela política apropriada para os Serviços de Inteligência foi resumida por sir William Stephenson no prefácio de “Um Homem chamado Intrépido”, onde disse que a Inteligência é uma condição necessária para que as democracias possam evitar desastres e, possivelmente, a destruição total.
    
“Em meio a arsenais cada vez mais intrincados em todo o mundo, os Serviços de Inteligência são uma arma essencial, talvez a mais importante”, escreveu ele. “Mas, sendo secreta, é a mais perigosa. É preciso criar, rever e aplicar rigorosamente salvaguardas que impeçam seu abuso. Mas, como em qualquer empreendimento, serão decisivos o caráter e a sabedoria daqueles a quem for confiada. Na integridade dessa tutela se deposita a esperança dos povos livres na sobrevivência e crescimento”.  
    
Outra questão legítima que se coloca em relação à história de Ostrovsky, é a de que como um funcionário relativamente secundário doInstituto, como era chamado o MOSSAD, teria condições de saber tanto sobre ele. É uma pergunta justa e a resposta é supreendentemente fácil.
    
Em primeiro lugar, enquanto Organização, o MOSSAD é mínimo. Em seu livro “Jogos de Inteligência”, Nigel West – pseudônimo do parlamentar tory britânico Rupert Allason, escreve que o quartel-general da CIA, em Langley, Virgínia, “indicado por placas desde a estrada George Washington, fora de Washington DC, tem cerca de 25 mil empregados, sendo que a esmagadora maioria deles não faz nenhum esforço para esconder a natureza do seu trabalho”.
    
Todo o MOSSAD não chega a ter 1.200 empregados, incluindo secretárias e pessoal de limpeza, sendo todos instruídos a dizer que trabalham para o Ministério da Defesa.
    
Weste escreveu também que “evidência acumulada com base nos desertores mostrou que o principal organismo de direção da KGB empregava cerca de 15 mil agentes pelo mundo afora e em torno de 3 mil baseados no quartel-general, em Teplyystan, um pouco além do anel rodoviário que circunda Moscou, na direção sudoeste da capital”.Isso na década de 50. Dados mais recentes citam o número de empregados da KGB, em todo o mundo, como sendo mais de 250 mil. Mesmo o Serviço de Inteligência cubano, DGI, tem cerca de 2 mil agentes localizados, através do mundo, nas missões diplomáticas cubanas.
    
O MOSSAD, acredite-se ou não, em apenas de 30 a 35 agentes secretos – ou katsas – em operação pelo mundo, em qualquer momento dado. A principal razão desse total extraordinariamente baixo, é que, ao contrário de outros países, Israel conta com o significativo e fiel conjunto da comunidade judia mundial fora de Israel. Isso através de um sistema único de sayamim –auxiliares judeus voluntários -.
    
Victor Ostrovsky escreveu um diário com as próprias experiências e muitas relatadas por outros. Ele é péssimo na caligrafia, mas possui uma memória fotográfica para mapas, plantas e outros dados visuais, crucial para operações bem sucedidas do Serviço de Inteligência. E pelo fato do MOSSAD ser uma organização tão pequena, integrada, ele tinha acesso a arquivos classificados de computador e a histórias orais que um membro novato da CIA ou da KGB jamais obteriam. Mesmo enquanto estudantes, ele e seus colegas tinham acesso ao computador principal do MOSSAD e horas incontáveis se passaram em aulas no estudo detalhado, repetido, de dúzias de operações do MOSSAD, sendo o objetivo, aí, ensinar aos novos recrutas como abordar uma operação e como evitar erros passados.
    
Além disso, embora possa ser difícil quantificar, a singular coesão da comunidade judaica, sua convicção d que, independentemente de diferenças políticas, eles têm de se unir para se proteger dos inimigos, leva a uma franqueza entre eles que não seria possível encontrar entre os empregados da CIA ou da KGB, por exemplo. Em suma, entre si,eles se sentem à vontade para conversar sobre detalhes. E conversam.
    
Claire Hoy, julho de 1990.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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