quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Movimentos de Massa e Forças Armadas


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo foi transcrito do livro “Fanatismo e Movimentos de Massa”, escrito por ERIC HOFFER, e editado em dezembro de 1968 pela Editora Lidador Ltda. Guardadas as devidas proporções, esse livro ombrea-se com “O Príncipe”, de Maquiavel. Eric Hoffer (25 de julho de 1902, em Nova YorkEUA – 21 de maio de 1983CalifórniaEUA) foi um escritorestadunidense. Escreveu dez livros e recebeu aPresidential Medal of Freedom em Fevereiro de 1983. Seu primeiro livro, "The True Believer", publicado em 1951, foi reconhecido como um clássico.
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É conveniente darmos uma olhada nas semelhanças e diferenças entre os movimentos de massas e as FF AA.
    
As semelhanças são muitas: tanto os movimentos de massas como as FF AA são corpos coletivos. Ambos tiram ao indivíduo sua distinção e entidade separada; ambos exigem auto-sacrifício, obediência cega e dedicação absoluta; ambos fazem extenso uso da ilusão para promover a ousadia e a ação conjunta, e ambos podem servir de refúgio aos frustrados que não podem suportar uma existência autônoma. Um corpo militar como a Legião Estrangeira atrai muitos tipos, que geralmente acorrem a juntar-se a um novo movimento. E é igualmente verdadeiro que o recruta e o agitador comunista muitas vezes pescam nas águas turvas da desordem.
    
Mas diferenças são fundamentais: o Exército não preenche as necessidades de uma nova maneira de vida; não é uma estrada da salvação. Pode ser usado como um bastão nas mãos de um ditador, para impor uma nova maneira de vida e forçar os outros a engoli-lo. Mas as FF AA são, principalmente, um instrumento para a preservação ou expansão de uma ordem estabelecida – velha ou nova. É um instrumento temporário que pode ser montado e desmontado à vontade. 

O movimento de massas, pelo contrário, parece ser um instrumento de eternidade, e aqueles que o adotam fazem-no para toda a vida. O ex-soldado é um veterano, um herói, até; o ex-crente convicto é um renegado. O Exercito é um instrumento para fomentar, proteger e ampliar o presente. O movimento de massas vem para destruir o presente. Sua preocupação é com o futuro, e dessa preocupação extrai seu vigor e seu impulso. Quando um movimento de massas começa a se preocupar com o presente, isso significa que ele já se firmou. Deixa, então, de ser um movimento e passa a ser uma organização institucional – uma Igreja estabelecida, um governo ou um Exército (de soldados ou de trabalhadores) -.

O Exército popular, que é, muitas vezes, subproduto do movimento de massas, retém muitas das armadilhas do movimento: eloqüência, slogans, símbolos, mas como qualquer outro Exército é unido menos pela fé e entusiasmo do que pelo apaixonado mecanismo do esprit de corps e da coesão. Logo perde o ascetismo e unção de uma congregação sagrada e apresenta o entusiasmo e gosto pelas alegrias do presente, que são as características de todos os exércitos.
    
Sendo um instrumento do presente, o Exército trata principalmente do possível. Seus líderes não confiam em milagres. Mesmo quando animados por uma fé ardente, são abertos à transigência. Enfrentam a possibilidade de derrota e sabem render-se. O líder do movimento de massas, pelo contrário, tem um absoluto desprezo pelo presente, por todos os seus teimosos fatos e perplexidades, mesmo os de geografia e clima. Confia em milagres. Seu ódio pelo presente (seu niilismo) vem a tona quando a situação se torna desesperada. Prefere destruir sua Pátria e seu povo a render-se.
    
O espírito de auto-sacrifício dentro das FF AA é fomentado pela devoção ao dever, pela ilusão, esprit de corps, fé num líder, esportividade, espírito de aventura e desejo de glória. Esses fatores, ao contrário dos empregados pelos movimentos de massa, não provêm da depreciação do presente e a revolta contra um ego indesejável. Podem desenvolver-se, portanto, numa atmosfera sóbria. O soldado fanático é, geralmente, um fanático transformado em soldado e não o contrário.

O espírito de auto-sacrifício do Exército está expresso nobremente nas palavras que Serpedon disse a Glauco, ao atacarem as muralhas gregas: “Ó, meu amigo, se nós, deixando esta guerra, pudéssemos fugir à idade e à morte, eu não estria aqui lutando. Mas agora, como são muitos os modos de morte pendentes sobre nós, à  qual nenhum homem pode escapar, vamos agir e dar fama a outros homens, ou conquistá-la para nós mesmos”.
    
A diferença mais notável entre os movimentos de massa e as FF AA é sua atitude r com a multidão e a população.  Observa De Tocqueville que “os soldados são os homens que mais facilmente perdem a cabeça e que geralmente se mostram mais fracos nos dias de revolução”.Para o general típico, a massa é algo que seu Exército se transformaria se tivesse que separar-se. Ele tem mais consciência da inconstância da massa e de sua disposição para a anarquia do que sua tendência para o auto-sacrifício. Considera-a mais o subproduto de um corpo coletivo em desintegração do que a matéria-prima de um novo mundo. Sua atitude é um misto de receio e desprezo. Ele sabe como suprimir a massa, mas não como conquistá-la.

O líder de um movimento de massa, pelo contrário – de Moisés a Hitler – tira sua inspiração do mar de rostos levantados, e o rugido das massas é como se fosse a voz de Deus em seus ouvidos. Ele vê uma força irresistível ao seu alcance – uma força que só ele pode domar. E com essa força ele varre impérios e exércitos, e todo o poderoso presente. O rosto da massa é como “o rosto das profundezas”, de onde, como Deus no dia da criação, ele extrairá um novo mundo.  


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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