segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O Processo em três etapas

Stalin, um OVNI ainda presente em espírito

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é o resumo de um dos capítulos do livro "A Nomenklatura -Como Vivem as Classes Privilegiadas na União Soviética", de autoria de MICHAEL S. VOSLENSKY, considerado no Ocidente um dos mais eminentes especialistas em política soviética. Foi professor de História na Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba, em Moscou, e membro da Academia de Ciências Sociais junto ao Comitê Central do PCUS. O livro foi editado no Brasil pela Editora Record.
    
NOMENKLATURA, uma palavra praticamente desconhecida pela maioria dos brasileiros, exceto por alguns especialistas, merece tornar-se tão célebre quanto o termo GULAG. Designa a classe dos novos privilegiados, essa aristocracia vermelha que dispõe de um poder sem precedentes na História, já que ela é o próprio Estado. Atribui a si mesma imensos e inalienáveis privilégios – dachas e moradias luxuosas, limusines, restaurantes, lojas, clínicas, centros de repouso especiais e quase gratuitos -.

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O processo de nascimento da Nova Classe dominante soviética realizou-se em três etapas. A primeira etapa foi a criação da Organização de Revolucionários Profissionais, embrião da Nova Classe. A segunda começou com a tomada do Poder, por essa organização, em novembro de 1917: formou-se uma direção em dois níveis, o nível superior da velha guarda leninista e o nível inferior da Nomenklatura estalinista.

A terceira etapa foi a liquidação da velha guarda leninista pela Nomenklatura. Cada etapa teve seus próprios fundamentos sociopsicológicos. Os bolchevistas não eram idealistas como D. Quixote, não buscaram a morte em nome de um vago ideal, como os populistas o fizeram. Engajaram-se nas lutas, nos riscos e e nas privações, porque a estrutura social que combatiam não lhes oferecia nenhuma perspectiva futura. Não sentiam o amor romântico dos populistas pelo ‘povo”, e sua simpatia pelo proletariado era bastante egoísta: era ditada pela convicção de que somente o proletariado poderia ajudá-los a derrubar o regime vigente.

Os bolchevistas não tinham nenhum escrúpulo em enganar os trabalhadores: tinham-lhes prometido a ditadura do proletariado, quando só pensavam em sua própria ditadura. Na luta pelo Poder não tinham piedade, todos os meios eram bons rara aniquilar o inimigo. Mas estavam convencidos de que o marxismo era a único doutrina que realmente poderia permitir a ditadura do proletariado. Queriam sinceramente construir a sociedade sem classes profetizada por Marx. Lenin não somente foi seu guia, mas a encarnação de suas ambições. 
    
Stalin foi também o guia e a encarnação da sua Nomenklatura. Se não foi o oposto exato de Lenin, mas antes seu continuador, foi o mesmo para a Nomenklatura: em mais de um título, ela foi a herdeira dos leninistas. Na luta pelo Poder não teve nenhuma piedade, mesmo para com os próprios membros do Partido. Todos os meios lhes eram bons para destruir tudo o que se atravessasse em seu caminho – inclusive leninistas.

As acomodações com a consciência, ele as faia muito facilmente, já que não tinha nenhuma consciência. Tranqüilamente enganava o proletariado, o campesinato e os outros, mas, contrariamente aos revolucionários profissionais, jamais enganou a si próprio. Jamais quis o bem-estar dos trabalhadores, ainda que tivesse feito grandes discursos sobre esse tema. Sempre teve consciência de somente desejar seu bem-estar. 
    
Stalin, seu criador, não corria riscos. Ao entrar no Partido queria fazer carreira a todo preço. Tanto em caso de vitória quanto em caso de derrota da Revolução. Suas criaturas da Nomenklatura tinham exatamente o mesmo desejo d poder, pouco importava o fim. Evtuchenko exprimia bem esse estado de espírito: “Pouco lhe importa que o poder seja dos sovietes, o importante é o poder!”

Que o marxismo fosse uma teoria justa, também lhe era indiferente; a fé no marxismo, a Nomenklatura a substituiu pela terminologia e pelas citações. Os carreiristas estalinistas nem se preocupavam em propagar que o comunismo seria o futuro radioso da humanidade. Na realidade, nada lhes interessava menos do que uma sociedade em que cada um trabalharia segundo suas capacidades e receberia segundo suas necessidades. Se tivessem corrido tal risco, o mundo assistiria a um espetáculo muito interessante: ver-se-iam os dirigentes comunistas atrás de barricadas para lutar contra o comunismo, ou fugir para a Suíça a fim de se colocarem ao abrigo do perigo.
    
Qual o significado histórico da vitória sangrenta da Nomenklatura estalinista sobre a velha guarda bolchevique? OS COMUNISTAS CONVICTOS FORAM SUBSTITUÍDOS POR PESSOAS QUE SE INTITULAVAM “COMUNISTAS” À FRENTE DA SOCIEDADE.
    
Esse fenômeno histórico tem raízes objetivas: a formação de uma nova classe dominante vai exatamente de encontro à formação de uma sociedade sem classes – comunista -. Quando os leninistas se meteram por esse caminho, afastaram-se, naturalmente, do comunismo: seus atos não correspondiam mais às suas convicções, mas isso não era um cálculo deliberado. Pelo contrário, a Nomenklatura de Stalin fazia com que seus atos correspondessem às suas convicções. Tratava-se mesmo de criar e organizar uma nova classe dominante. Apenas um detalhe: as suas palavras não correspondiam às suas ações.
    
Não se pode desprezar essa diferença. É precisamente ela, e não a data ou a idade de entrada no Partido, que estabelecia a diferença entre exterminados e exterminadores, nos anos 1936-1938. Molotov, Mikoian. Kaganovitch, Chikiriatov, Pospelov e outros, eram membros do Partido antes da Revolução, mas estavam do lado dos carrascos, livraram-se a tempo de suas convicções marxistas e souberam conservar apenas a terminologia. Tinham apenas uma finalidade: conseguir, da melhor maneira possível, sua ascensão na nova classe dominante.
    
Tudo isso foi – e ainda é – camuflado pelos inúmeros discursos sobre “o papel de direção da classe operária”. No Manual de História da URSS, surgido em 1971, dizem-nos alegremente: “Naquela época – durante a Ejovchtchina – a classe operária não somente manteve seu papel de direção, como também se tornou a classe dominante na URSS. Isso está confirmado pelo fato de que o Partido Comunista – Partido da classe operária – reforçou mais sua posição no aparelho do Estado.

Procuraremos agora tirar uma conclusão: na luta pelo Poder, que se desenrolou sob o radioso sol do socialismo estalinista, somente ganharam os que procuraram atingir seu fim - o Poder – pelo caminho mais curto. Foram aniquilados todos aqueles que tiveram a fraqueza de acreditar sinceramente no marxismo e na construção de uma verdadeira sociedade socialista. Fraqueza fatal! Mas fatalidade compreensível: como poderiam ter êxito em construir uma sociedade de classes, quando tinham a convicção de construir a sociedade sem classes?  

Esse processo em três etapas não é exclusivo da União Soviética (agora, Rússia, novamente). O mesmo fenômenos ocorreu em todos os lugares onde se instalou esse tipo de regime: o aparelho do Partido Comunista contém o germe da Nova Classe dominante; após a tomada do Poder ele produz novos administradores e se desenvolve rapidamente, transformando-se em uma Nova Classe. Através de depurações sucessivas, os primeiros membros logo são substituídos pelos carreiristas. Esse desenvolvimento ocorreu em todos os lugares, prova que se trata de uma lei histórica.

Os comunistas ocidentais deveriam refletir seriamente sobre essa lei. Os que acreditam ingenuamente que honrarias e Poder os esperam após a revolução, se iludem; para muitos será o campo de concentração ou a execução sumária numa masmorra. Na melhor das hipóteses será a exclusão do Partido e o esquecimento num miserável emprego subalterno.

Somente a pequena minoria, que saberá esquecer bem depressa suas convicções marxistas e trabalhar bastante para ascender aos bons lugares, poderá esperar alguma perspectiva de futuro; tornar-se-á o carrasco dos comunistas sinceros. Honrarias e Poder serão reservados àqueles que desejam sinceramente o bem dos trabalhadores. Homens dessa espécie merecem a mais alta estima.

A seguinte estrofe do Hino soviético foi a mais cantada após 1977:

“Vimos o sol através das nuvens,
Lenin, o Grande, nos mostrou o caminho,
Stalin nos ensinou a bela obra,
A fidelidade e os grandes feitos”
(Hino da Rússia anterior a 1977)

Essa estrofe deveria ser cantada a duas vozes: a primeira metade no tom trêmulo dos veteranos da velha guarda leninista, e a segunda metade no tom majestoso dos baixos da Nomenklatura.  

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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