quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Por uma Nomenklatura Hereditária


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é o resumo de um dos capítulos do livro "A Nomenklatura - Como Vivem as Classes Privilegiadas na União Soviética", de autoria de MICHAEL S. VOSLENSKY, considerado no Ocidente um dos mais eminentes especialistas em política soviética. Foi professor de História na Universidade de Amizade dos Povos Patrice Lumumba, em Moscou, e membro da Academia de Ciências Sociais junto ao Comitê Central do PCUS. O livro foi editado no Brasil pela Editora Record.
    
NOMENKLATURA, uma palavra praticamente desconhecida pela maioria dos brasileiros, exceto por alguns especialistas, merece tornar-se tão célebre quanto o termo GULAG. Designa a classe dos novos privilegiados, essa aristocracia vermelha que dispõe de um poder sem precedentes na História, já que ela é o próprio Estado. Atribui a si mesma imensos e inalienáveis privilégios – dachas e moradias luxuosas, limusines, restaurantes, lojas, clínicas, centros de repouso especiais e quase gratuitos -.

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Classe dirigente, a Nomenklatura resolveu o problema de sua reprodução. A solução – que jamais foi publicada – é original. Para cada posto ocupado na Nomenklatura, um suplente é devidamente designado e inscrito numa lista de reserva. Quando o posto fica vago, o Comitê interessado designa definitivamente a nomeação do suplente. Escolhido este, um novo suplente aparecerá na lista de reserva. Onde são escolhidos esses suplentes? Um processo, que não atraiu a atenção, desenvolve-se cada vez mais: a auto-reprodução da Nomenklatura.
    
Os que não querem definir os “administradores” como uma classe apresentam, como argumento principal, o fato de que os postos na Nomenklatura não são hereditários. Esse argumento não se mantém: o caráter hereditário dos cargos não é, necessariamente, atributo de uma classe, e não é, pois, incluído na definição do conceito de classe. Assim, a classe operária, que surgiu durante a industrialização, foi recrutada no campesinato, e constitui, contudo, uma classe.
    
Mas há outra coisa: toda classe dominante durante a consolidação, visa transmitir seus privilégios a seus filhos, isto é, procura se auto-reproduzir e impedir, por todos os meios, o afluxo de novos elementos. É isso que ocorre na Nomenklatura soviética. Os nomenklaturistas foram chamados para ocupar seus postos na época de Ejov, e durante a guerra, e assim o corpo atual de funcionários na URSS já teve tempo de educar seus filhos e estes já atingiram, hoje, a idade de também se tornarem nomenklaturistas. Doravante, esses filhos estarão em condições de ocupar os postos, sempre crescentes em número, da Nomenklatura.
    
Vamos dar alguns exemplos. O filho de Leonid Brejnev foi nomeado Primeiro-Adjunto do Ministério do Comércio Exterior. Até o momento, a imprensa só teve conhecimento de uma única de suas transações internacionais: entusiasmado pelo espetáculo das dançarinas do Crazy-Horse, em Paris, ele deu uma gorgeta de 100 dólares ao garçon, a metade do rendimento mensal de um operário soviético. Os centros de interesse da filha de Kossyguin, Ludmila, pessoa capaz e séria, são bem diferentes, mas até agora ela pouco se interessou por bibliotecas, o que não foi obstáculo para sua nomeação ao posto da Nomenklatura, da Biblioteca do Estado para Literatura Estrangeira, em Moscou.

O filho de Anastas Mikoian, conseguiu, sem realizar grandes esforços, galgar, a passos de gigante, toda uma carreira para se tornar o redator-chefe do jornal América Latina, e fazer, assim, sua entrada na Nomenklatura do Comitê Central. O filho de A.Gromyco, viu-se, de repente, após alguns anos passados no Instituto dos EUA e do Canadá, na Academia de Ciências, nomeado paa o posto – nomenklaturista – de delegado soviético em Washington, depois de servir como Conselheiro na embaixada na RDA. Em seguida, tornou-se diretor do Instituto Africano da Academia, se bem que jamais tenha sido africanista. Esse posto faz parte da Nomenklatura do Secretariado do Comitê Central
    
O que dizer de Vassili Stalln, um jovem alcoólatra, general de Divisão com menos de 30 anos e comandante da Aeronáutica para a Região Militar de Moscou. De Alexei Adjubei, genro de Kruschev, redator-chefe do segundo jornal da União Soviética, o Izvestia, que se tornou, ao mesmo tempo, membro do Comitê Central. E de Nikonov que, por ser genro de Molotov, foi promovido de seu modesto posto de assistente universitário para o de chefe do Departamento no órgão político e teórico do Comitê Central do PCUS,Kommunist (naquela época Bolchevik).
    
Poder-se-ia ainda fornecer numerosos exemplos, mas não é necessário. O fenômeno assim descrito não é exceção, mas a regra. Os filhos dos secretários do Partido só se tornam trabalhadores nos romances piedosos do “realismo socialista”. No socialismo real entram automaticamente no aparelho do Partido ou no Corpo Diplomático. Seria bem difícil para alguém, que duvidasse disso, citar exemplos de filhos de famílias da Nomenklatura que se encontrassem em outro posto que não um da Nomenklatura, ou casados com um nomenklaturista.
    
É cada vez mais manifesto que a classe dominante da União Soviética se auto-reproduz. É verdade que os postos não são, em si mesmos, hereditários, mas pertencer à classe da Nomenklatura já se tornou, na prática, hereditário.
    
Tomando o exemplo de um carreirista comum, descrevemos o caminho extremamente estreito que, através das organizações do Partido, pode levar até à Nomenklatura. Mas, as possibilidades de entrar nela dessa maneira não cessam de se restringir. Por outro lado, é cada vez mais freqüente que se consiga entrar nela ela avenida real do nascimento, como descendente de uma família nomenklaturista.  

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Martim Berto Fuchs disse...

O mesmo conceito se aplica à burocracia brasileira, inclusive para os eleitos. Aliás, aqui, com eleições periódicas, é pior ainda, pois temos que incluir nas benesses os cabos eleitorais, sendo que os dos políticos eleitos, vão todos para as folhas de pagamento do setor público, pagas com dinheiro dos "contribuintes", ou, otários extorquidos.
Também é importante frisar, que acomodar a família às custas do contribuinte, é prática que se tornou Lei após a chegada dos que fugiram de Napoleão.
Será que, assim como a Alemanha teve que indenizar as vítimas do nazismo, não caberia à França nos indenizar por ter forçado a vinda de milhares de inúteis de Portugal para o Brasil nos idos de 1808 ?
Convenhamos, está a nos custar caro, pois não param de se reproduzir.