quinta-feira, 2 de março de 2017

Os “Administradores” e a nomenklatura


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Mais uma análise da obra de Michael S. Voslensky: A Nomenklatura - Como Vivem as Classes Privilegiadas na União Soviética. Editora Record – 4ª edição, 1980.

“O povo, e só o povo, constitui a força motriz na criação da História Universal” (Mao Tsé-Tung)

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​Quem encarna o Poder? Quais são os ‘administradores’ da União Soviética? 

Responder a essa pergunta é bastante mais difícil do que se poderia pensar à primeira vista, pois os “administradores” são cuidadosamente camuflados.

A História mostra que poder de toda classe dominante é sempre o de ma pequena minoria sobre uma enorme maioria. Assegurar a perenidade de tal sistema requer diferentes medidas: emprego direto da força contra os descontentes, ameaça de empregá-la contra qualquer inimigo potencial, pressões econômicas, assim como promessas da mesma ordem, arsenal ideológico e, afinal, disfarce das condições sociais reais. Tem sido sempre assim. O poder feudal se esconde atrás do caráter sagrado do poder real. O poder dos capitalistas se esconde atrás da prosperidade que o Estado Capitalista supõe oferecer a todos. Nos dois casos, a classe dominante se esforça por esconder a realidade da sua dominação.

A NOVA CLASSE vai mais longe: ela nega sua própria existência. Tanto no domínio teórico como no domínio prático, a “classe dos administradores”procura fazer-se passar por uma parcela do aparelho administrativo, como existe em todos os países do mundo.

Também eles começam a trabalhar todas as manhãs às 9 horas, sentam-se em suas escrivaninhas, passam horas discutindo, não usam uniformes e nem insígnias. Como se poderia reconhecê-los e localizá-los? Milovan Djilas faz essa pergunta várias vezes, mas não consegue respondê-la.

Na verdade, não é fácil respondê-la. A variedade infinita dos detalhes enevoa as fronteiras entre os diferentes grupos sociais. Acrescentemos a isso o desejo consciente da NOVA CLASSE em se dissimular na massa dos empregados, e compreenderemos porque é tão difícil apontar seus limites.

É certo que um detalhe determinante nos pode ajudar: por motivos puramente práticos, a NOVA CLASSE deve distinguir-se de sua entourge e determinar sues próprios limites. A “classe dos administradores” Deve saber exatamente quem são seus membros… É a razão da existência da Nomenklatura.

A Nomenklatura é uma tropa de intelectuais, cuja “profissão” é a direção e que, por causa disso, se encontra numa situação particular em relação àqueles encarregados do trabalho de execução. Stalin organizou essa nova aristocracia – o aparelho – e lhe ensinou a remar. A classe dominante da URSS, a NOVA CLASSE, é a Nomenklatura.

Ela o sabe e é por isso que se envolve no espesso véu de mistério. Toda informação sobre os postos da Nomenklatura é estritamente secreta. As listas da Nomenklatura fazem parte dos documentos mais confidenciais. Somente um círculo muito restrito de pessoas poderá receber as “listas dos funcionários encarregados da direção”, publicadas em pequenos fascículos. Na verdade, pode-se perguntar o que pode haver de secreto em tais listas.

A Nomenklatura não se contenta em dissimular a lista dos seus membros. Esforça-se também em fazer desaparecer a sua própria existência. Procurar-se-á, em vão, vestígios da palavra Nomenklatura nas enciclopédias e outras publicações soviéticas. 

Esse bloqueio tem sua razão de ser e por causa dele os sovietólogos ocidentais mais distintos jamais mencionam a existência da Nomenklatura, ou então afirmam esse tipo de coisa: “Na política comunista dos quadros, a Nomenklatura não representa senão uma ínfima parte”. Essa ínfima parte é precisamente a classe dominante na URSS.  

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Sérgio Alves de Oliveira disse...

Professor Azambuja,
Nesse exato sentido,Putin não estaria personalizando o "Nomenklatura" mais conhecido e poderoso do mundo? Ele não é "cara" da "Nomenklatura"?