quarta-feira, 8 de março de 2017

Rio, Julho de 1995 – Despedida do CISA


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Cada um de nós nasce com o destino já traçado. O destino decidiu ter chegado o momento de ter de abandonar esta Casa que, em julho de 1967, como Segundo Tenente, ajudei a fundar – o Núcleo do Serviço de Informações de Segurança da Aeronáutica, como ela foi, então, denominada -. Através dos anos, o NSISA assumiu outras denominações: SISA (Serviço de Informações de Segurança da Aeronáutica), CISA (Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica) e SECINT (Secretaria de Inteligência da Aeronáutica). Em 1967, os fundadores, um Brigadeiro e um jovem Segundo Tenente, partiram da estaca zero.

Nestes 28 anos que, para mim passaram rapidamente , participei ativamente de sua estruturação, estive presente em todas as grandes missões, e ajudei a edificar o que ele foi e o que á agora: um órgão de Inteligência, respeitado pelos demais órgãos da Comunidade e temido pelos inimigos da Pátria.

Tudo o que sei, aprendi aqui, com o estudo e a leitura continuada, a observação constante e fundamentalmente com o exemplo dos companheiros que por aqui passaram. Vi, ouvi e falei. Sou testemunha de um período importante da história do Brasil. Um período em que um punhado de companheiros – entre os quais orgulhosamente me incluo – que nada reivindicam, nem mesmo compreensão, tiraram o país da anarquia, erradicaram o terrorismo, os seqüestros de diplomatas e de aviões, e as guerrilhas urbana e rural. Tudo isso aconteceu não sem sangue, suor e lágrimas e não sem que reputações fossem manchadas e carreiras abreviadas.

Não considero, 28 anos depois, saber tudo aquilo a que me dedico. Sinto, todos os dias, a necessidade de atualizar-me. Ao que parece, é essa a saga do homem de Inteligência.

Durante estes 28 anos, 13 dos quais como Oficial da Ativa, diversos Oficiais Generais passaram pela chefia desta Casa. A todos servi com lealdade, sem, no entanto, violentar meus princípios. Tive como lema a VERDADE, fosse ela escura ou cor de rosa.

Essa VERDADE, por algumas vezes, trouxe-me problemas, mas assumir riscos é inerente à essência da vida. A vivência e o trabalho continuado me ensinaram uma grande sutileza que um homem de Inteligência deve ter sempre presente: um documento de Inteligência não deve limitar-se a informar, mas a produzir efeitos.

O estudo continuado, a reflexão, a combatividade, a insistência, a leitura e a indagação permanentes em busca do que desejamos, é o recado que transmito aos companheiros que aqui ficam.

O estado de quase permanente frustração por não ver transformados em atos e medidas efetivas o resultado de todo esse trabalho anônimo não deve conduzir à descrença ou ao desânimo. O importante é a paz interior resultante desse trabalho, pois o trabalho é o que de real existe durante todo o tempo.

A VERDADE, transmitida mansa e calmamente, ouvindo a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes (termo aqui empregado para designar as pessoas que não têm conhecimento sobre determinado assunto), pois eles também têm suas verdades.

Não devemos comparar-nos com os outros, pois nos tornaremos presunçosos ou magoados, pois haverá sempre alguém superior ou inferior a nós.

O trabalho de um homem de Inteligência é semelhante ao de um casamento feliz. Não devemos esperar lances extraordinários, como alguns poderão desejar ou imaginar. Tudo é rotina. Foi isso que aprendi na Inteligência da Força Aérea.

No Órgão no qual, agora, prestarei meus serviços, espero prosseguir meu aprendizado, aceitando os conselhos dos mais experientes e aberto aos impulsos inovadores dos mais jovens. Nesse Órgão, a todos atenderei com prazer.

Muito obrigado. 

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

2 comentários:

Anônimo disse...

Muito obrigado, Sr. Azambuja.

Anônimo disse...

Ilustre Professor Azambuja,
Sempre acreditei que a Igreja e as Foças Armadas "produzissem" gente muito culta. Mas eu não imaginava que além de pessoas cultas esses segmentos da sociedade também conseguissem produzir gente extraordinária e grandes pensadores.Sérgio A.Oliveira.