sábado, 1 de abril de 2017

Movimento dos Sem-Terra - Objetivos


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra tem, em seus princípios, definidos no Encontro Nacional de Fundação, três grandes objetivos, pelos quais luta: a terra, a reforma agrária e uma sociedade mais justa.
    
O objetivo de lutar pela terra busca atender a uma necessidade de sobrevivência econômica de cada família sem-terra. O sem-terra aspira à terra como uma oportunidade de trabalho. Como uma garantia de sobrevivência para ele e sua família. Não visa nem o enriquecimento e nem a especulação, com intuito de vendê-la mais adiante, e nem reserva de valor.
    
Nesse sentido, almeja a terra como forma de sobrevivência econômica, tem um caráter de luta corporativa, sindical. Da mesma forma que quando os operários industriais lutam por melhores salários, lutam apenas para melhorar suas condições de sobrevivência.
    
Portanto, a motivação primeira do movimento é resolver o problema econômico, o problema de sobrevivência de milhares de famílias de agricultores, que se encontram sem perspectiva de trabalho e que desejam continuar trabalhando na terra. 
    
O segundo objetivo, que é a reforma agrária, é um objetivo amplo. Entende-se por reforma agrária um conjunto de medidas a serem tomadas pelo governo para alterar a estrutura fundiária do país, e garantir terra a todos os agricultores que quiserem trabalhar. Além disso, medidas complementares de política agrícola, como crédito, preços, assistência técnica, seguro rural, etc., necessárias para garantir a viabilidade e a rentabilidade da pequena produção. Logo, lutar por reforma agrária é lutar por mudanças na agricultura brasileira, que vão atingir todos os trabalhadores rurais, e não apenas os que estão lutando agora, imediatamente, para resolver seus problemas de sobrevivência. É, então, um objetivo de maior amplitude, de cunho social, que não interessa apenas aos sem-terra, mas a todos os trabalhadores rurais, e também aos trabalhadores urbanos, por razões que se verão a seguir.
    
Ao lutar por reforma agrária, o movimento adquire uma amplitude social maior do que as reivindicações do campo sindical. Não se restringe apenas a conflitos localizados da luta pela terra.
    
O terceiro objetivo do Movimento dos Sem-Terra é lutar por uma sociedade mais justa. Uma sociedade sem explorados e exploradores, como diz sua Carta de Princípios. Como se vê, esse objetivo tem um caráter político, pois está relacionado com a organização da sociedade e com o seu poder político. Como poderia um movimento de camponeses sem-terra incluir um objetivo político entre as aspirações de classe? A argumentação é simples. A implantação de uma reforma agrária ampla, que realmente faça mudanças na estrutura da propriedade da terra e na forma como está organizada a produção na agricultura, somente acontecerá com a mudança no atual Poder Político, com importantes mudanças sociais. Uma reforma agrária depende essencialmente de vontade e da força política por parte do governo. E, seguramente, somente será realizada por um governo claramente identificado com os interesses das camadas populares, especialmente os trabalhadores rurais e urbanos.
    
Dessa forma, lutar por reforma agrária no Brasil é também lutar por mudanças sociais e políticas no país.   
    
Partindo-se da natureza dos três grandes objetivos que o Movimento dos Sem-Terra possui, pode-se, então, classificar a natureza do próprio movimento. Muitos estudiosos e jornalistas se perguntam freqüentemente: afinal, qual é o caráter do Movimento Sem-Terra? É parte do Movimento Sindical? É parte do Movimento Popular? Não seria um partido político camponês disfarçado, já que luta por mudanças sociais? A resposta vem da auto-definição do MST: o Movimento dos Sem-Terra se considera um movimento social de massas, cuja principal base social são os camponeses sem-terra, que tem caráter, ao mesmo tempo, sindical (porque luta pela  terra para resolver o problema econômico das famílias), popular (porque é abrangente, várias categorias participam, e porque luta também por reivindicações populares, especialmente nos assentamentos), e político (não no sentido partidário, mas no sentido que quer contribuir por mudanças sociais).
    
A dificuldade de entender seu caráter ocorre porque não se enquadra nas formas tradicionais de classificação de movimentos sociais, pois reúne em um só movimento três características complementares: sindical, popular e político.

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O texto acima foi transcrito do livro “O Marxismo na América Latina – Uma Antologia de 1909 aos Dias Atuais”, escrito por Michael Lövy.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...

REFORMA AGRÁRIA POPULAR?!!! São piadistas mesmo. Querem tomar conta do campo para engordar as contas bancárias de seus "líderes". Já acabaram com a PETROBRÁS, ELETROBRAS, CORREIOS e querem destruir as fazendas produtivas onde sustentam o Brasil para virarem favelas e vilas de roceiros?