quinta-feira, 11 de maio de 2017

Holocausto


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O horror sem adjetivos de um testemunho inédito de Primo Levi
Escritor relatou sua experiência de Auschwitz em depoimentos para julgamentos de criminosos

Desconheço o autor do texto abaixo

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Como ocorre com outros grandes escritores que relataram sua experiência de sobreviventes doHolocausto, como Elie Wiesel e Imre Kertèsz, o valor da obra do italiano Primo Levi vai muito mais além do literário (mesmo sendo imenso nesse terreno). A era dos que presenciaram a Shoah está prestes a acabar. Os últimos sobreviventes, e também os últimos carrascos, vão pouco a pouco se apagando e a memória desaparece com eles. Por isso obras com a Trilogia de Auschwitz são mais importantes do que nunca: somente através da leitura dos relatos dos que lá estiveram é possível tentar entender, mesmo remotamente, o horror incompreensível do nazismo e do Holocausto, cujo dia internacional se comemora nesta quarta-feira.

Primo Levi (1919-1987) escreveu também uma série de relatórios para diferentes instituições e para prestar depoimentos em processos penais contra criminosos de guerra, nos quais descreve sua passagem pelos campos da morte, que acabam de ser resgatados em um volume. Assim foi Auschwitz (Editora Península, na tradução ao espanhol de Carlos Gumpert; e traduzido ao português pela Companhia das Letras). Secos, quase sem adjetivos, carregados de horror, uma leitura que é difícil de esquecer.

Químico de formação, o escritor de Turim foi membro da resistência italiana. Em um obscuro episódio resgatado recentemente por Sergio Luzzato em seu livro Partisanos, sua brigada executou dois homens acusados de roubo, mas tudo indica que Levi não participou diretamente. Em setembro de 1943 foi preso pela polícia fascista e, ao se declarar judeu, ao invés de ser imediatamente executado por ser guerrilheiro, foi deportado a Auschwitz. Sobreviveu graças ao seu ofício de químico e a grandes doses de força e sorte no campo satélite de Monowitz (Auschwitz III). Nesse local eram colocados os que, como relata o próprio Levi, estavam condenados a ser exterminados ao longo de vários meses com o trabalho escravo, não imediatamente nas câmaras de gás.
    
Ao voltar dos campos escreveu É isso um Homem?, um dos livros mais importantes do século XX que, entretanto, demorou muito tempo a encontrar um editor, talvez por ser ainda muito cedo para que a sociedade enfrentasse a magnitude do ocorrido durante a noite do terror nazista. A Trilogia de Auschwitzse completa com A trégua e Os afogados e os sobreviventes, apesar de Levi também ter escrito livros muito diferentes como A tabela periódica e Se não agora, quando? sobre um grupo de guerrilheiros. Em 11 de abril de 1987 se suicidou atirando-se da escada de sua casa em Turim.

A obra de Levi obteve um impacto gigantesco e pode-se dizer que passou a fazer parte da memória do horror da humanidade. Nunca deixou de ser traduzida, reeditada e, sobretudo, lida. Suas obras completas acabam de ser publicadas em inglês, com um prólogo de Toni Morrison, vencedora do Prêmio Nobel. Em uma das resenhas, publicada no 
The New York Review of Books, o tradutor, romancista e especialista em literatura italiana Tim Parks escreve que “Levi sempre quis colocar o leitor diante do Holocausto com toda a crueza, sem jamais lhe oferecer uma zona de conforto”. Este princípio se aplica especialmente aos documentos contidos em Assim foi Auschwitz, vários deles escritos em parceria com seu amigo, o médico Leonardo De Benedetti, com quem compartilhou o cativeiro.

“Informe sobre a organização higiênico-sanitária do campo de concentração para judeus de Monowitz”, o texto central do volume, escrito a pedido do Exército soviético, é um dos primeiros relatos que descrevem o sistema de funcionamento de Auschwitz, desde a atuação dos Sonderkommando, os internos obrigados a cuidar das câmaras de gás, e os crematórios que aparecem no impactante filme O filho de Saul, até a anulação da vontade dos prisioneiros, que se tornavam zumbis capazes apenas de esperar a morte, a fome e o castigo. 

Também é devastador quando descreve a procedência dos presos com quem compartilhou aquele campo satélite de Auschwitz: judeus de toda a Europa, de todos os ofícios e classes sociais, arrastados pelos nazistas até os confins da Polônia para serem assassinados.

São também muito interessantes seus testemunhos para diferentes processos, entre eles o de Adolf Eichmann, sobre o qual Hannah Arendt escreveu sua famosa teoria da banalidade do mal. Naqueles textos, alguns muito precoces, tanto De Benedetti como Levi já consideravam que a responsabilidade do horror “recai de forma coletiva sobre todos os soldados, suboficiais e oficiais das SS ali atuantes”. Nos últimos dois anos vários guardas de Auschwitz foram processados na Alemanha com base nesse mesmo princípio: o fato de terem trabalhado no campo de extermínio, independentemente do cargo ou da missão, já é um crime em si. Levi também denuncia um assunto crucial: o papel da indústria alemã no trabalho escravo.

“Os campos não eram um fenômeno marginal: a indústria alemã se baseava neles; eram uma instituição fundamental da Europa marcada pelo fascismo e parte dos nazistas não escondia que o sistema se manteria, melhor dizendo, se estenderia e se aperfeiçoaria”. São textos que carecem da intensidade literária de É isso um homem?, mas que colocam o leitor diante do horror, sem concessões ou filtros, só com a memória de uma testemunha.

Em um de seus textos, Levi lamenta que “a dez anos da libertação dos campos de concentração é triste e significativo ver-se obrigado a constatar que, na Itália pelo menos, o tema dos campos de extermínio, longe de terem virado história, se encaminha ao mais absoluto esquecimento”. É uma das poucas coisas sobre as quais o escritor italiano se engana: 70 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, a Shoah continua sendo objeto de atenção constante em novos livros e filmes.
    
Em 2015, foram publicadas duas obras muito importantes, KL. A história dos campos de concentração (publicada na forma de e-book no Brasil), de Nikolaus Wachsmann, e Terra negra (Galaxia Gutenberg, ainda não editado no Brasil), enquanto em 15 de janeiro estreou na Espanha O filho de Saul, um filme do húngaro László Nemes que ganhou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes (estreia prevista para fevereiro de 2016).

O filme acompanha um membro do Sonderkommando e tenta refletir o horror de Auschwitz aos olhos de um prisioneiro. O filme obteve um enorme impacto e revitalizou a interminável polêmica sobre a legitimidade de narrar o holocausto por meio da ficção.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

2 comentários:

Anônimo disse...

Nada até hoje referente a casa da morte em Petrópolis... Por que??? É vergonha dos assassinos e traficantes que você protege??? Nada sobre o assassinato do cheirador e cagueta do Fleury...Por que???

Anônimo disse...

Lembremos das vítimas do massacre de Dresden.