quarta-feira, 14 de junho de 2017

Ódio a bordo


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Miriam Leitão

Sofri um ataque de violência verbal por parte de delegados do PT dentro de um voo. Foram duas horas de gritos, xingamentos, palavras de ordem contra mim e contra a TV Globo. Não eram jovens militantes, eram homens e mulheres representantes partidários. Alguns já em seus cinquenta anos. Fui ameaçada, tive meu nome achincalhado e fui acusada de ter defendido posições que não defendo.

Sábado, 3 de junho, o voo 6237 da Avianca, das 19h05, de Brasília para o Santos Dumont, estava no horário. O Congresso do PT em Brasília havia acabado naquela tarde e por isso eles estavam ainda vestidos com camisetas do encontro. Eu tinha ido a Brasília gravar o programa da Globonews.

Antes de chegar ao portão, fui comprar água e ouvi gritos do outro lado. Olhei instintivamente e vi que um grupo me dirigia ofensas. O barulho parou em seguida, e achei que embarcariam em outro voo.

Fui uma das primeiras a entrar no avião e me sentei na 15C. Logo depois eles entraram e começaram as hostilidades antes mesmo de sentarem. Por coincidência, estavam todos, talvez uns 20, em cadeiras próximas de mim. Alguns à minha frente, outros do lado, outros atrás. Alguns mais silenciosos me dirigiram olhares de ódio ou risos debochados, outros lançavam ofensas.

” Terrorista, terrorista” gritaram alguns.

Pensei na ironia. Foi “terrorista” a palavra com que fui recebida em um quartel do Exército, aos 19 anos, durante minha prisão na ditadura. Tantas décadas depois, em plena democracia, a mesma palavra era lançada contra mim.

Uma comissária, a única mulher na tripulação, veio, abaixou-se e falou:

”O comandante te convida a sentar na frente”.

” Diga ao comandante que eu comprei a 15C e é aqui que eu vou ficar” respondi.

O avião já estava atrasado àquela altura. Os gritos, slogans, cantorias continuavam, diante de uma tripulação inerte, que nada fazia para restabelecer a ordem a bordo em respeito aos passageiros. Os petistas pareciam estar numa manifestação. Minutos depois, a aeromoça voltou:

”A Polícia Federal está mandando você ir para frente. Disse que se a
senhora não for o avião não sai”.

”Diga à Polícia Federal que enfrentei a ditadura. Não tenho medo. De
nada”.

Não vi ninguém da Polícia Federal. Se esteve lá, ficou na porta do avião
e não andou pelo corredor, não chegou até a minha cadeira.

Durante todo o voo, os delegados do PT me ofenderam, mostrando uma visão totalmente distorcida do meu trabalho. Certamente não o acompanham. Não sou inimiga do partido, não torci pela crise, alertei que ela ocorreria pelos erros que estavam sendo cometidos. Quando os governos do PT acertaram, fiz avaliações positivas e há vários registros disso.

Durante o voo foram muitas as ofensas, e, nos momentos de maior tensão, alguns levantavam o celular esperando a reação que eu não tive. Houve um gesto de tão baixo nível que prefiro nem relatar aqui. Calculavam que eu perderia o autocontrole. Não filmei porque isso seria visto como provocação. Permaneci em silêncio. Alguns, ao andarem no corredor, empurravam minha cadeira, entre outras grosserias. Ameaçaram atacar fisicamente a emissora, mostrando desconhecimento histórico mínimo: “quando eles mataram Getúlio o povo foi lá e quebrou a Globo”, berrou um deles. Ela foi fundada onze anos depois do suicídio de Vargas.

O piloto nada disse ou fez para restabelecer a paz a bordo. Nem mesmo um pedido de silêncio pelo serviço de som. Ele é a autoridade dentro do avião, mas não a exerceu. A viagem transcorreu em clima de comício, e, em meio a refrões, pousamos no Santos Dumont. A Avianca não me deu ” nem aos demais passageiros” qualquer explicação sobre sua inusitada leniência e flagrante desrespeito às regras de segurança em voo. Alguns dos delegados do PT estavam bem exaltados. Quando me levantei, um deles, no corredor, me apontou o dedo xingando em altos brados. Passei entre eles no saguão do aeroporto debaixo do coro ofensivo.

Não acho que o PT é isso, mas repito que os protagonistas desse ataque de ódio eram profissionais do partido. Lula citou, mais de uma vez, meu nome em comícios ou reuniões partidárias. Como fez nesse último fim de semana. É um erro. Não devo ser alvo do partido, nem do seu líder. Sou apenas uma jornalista e continuarei fazendo meu trabalho.


Miriam Leitão é Jornalista. Texto escrito junto com Alvaro Gribel, de São Paulo. Originalmente publicado em o Globo em 13 de junho de 2017.

5 comentários:

Anônimo disse...

Colhendo o que plantou. É petista, sempre foi, assim como boa ou a maior parte dos profissionais da Globo, tanto atores quanto jornalistas. Na Globo News isso é cristalino. Até as cores da emissora remete ao PT. Mas eles, como todo e qualquer petista, de tão radicais, jamais dão o braço a torcer. Vejam a nota da Gleise Hoffmann. Blog da Veja diz que Gleise telefonou para se solidarizar com a jornalista, afirmando que o partido nada tem a ver com os trogloditas que a hostilizaram, mas afirma que a nota do partido está correta quanto ao que afirma sobra a Rede Globo, quando culpa a empresa por incitar ao ódio, quando na verdade quem o faz é Lula, o partido e seus sequazes. Para confirmar isso, Miriam até citou que Lula, no mesmo dia em que foi hostilizada, Lula havia citado seu nome em congresso do partido. Mas mesmo assim, ainda acredito que Miriam Leitão continuará em sua jornada de pregação, ainda que disfarçada, do comunismo. Logo, logo, ela estará se confraternizando com aqueles que a agrediram de maneira execrável

Anônimo disse...

Disse a Miriam Leitão:”Diga à Polícia Federal que enfrentei a ditadura. Não tenho medo.De nada”.
E como ela declarou que durante a DITAMOLE, os militares a "torturaram" com uma cobra?
Parece que a cobra é quem foi torturada e morreu de susto, ao ficar cara a cara com essa "lindona".
Mas o pessoal do hoje PT, também não fez oposição aos milicos de 1964? Por que tal agressão?

Anônimo disse...

Já está bem explicado por quem esteve a bordo a mentira que foi dita por mirian.
Agora Mirian Leitão está se especializando em fake news. Está fazendo curso com Trump.

Marcio Machado disse...

Este episódio me faz lembrar quando o molusco era líder sindical. Entre a massa acéfala, protestava contra a burguesia, mas nós bastidores lhes beijava a mão. A Miriam não nega. Ela é vermelha também. Mas esperava mais de uma mulher inteligente como ela, uma vez que cortejando PT como se fosse a esquerda que defendeu durante os governos militares, quando na verdade o PT nada tem de socialista ou mesmo comunista.

Anônimo disse...

O FASCISMO DAZISQUERDAS MOSTRANDO A CARA... TÍPICO... ela deveria levar isso em conta ao defender posições socialistas... provou do veneno que defende... melhor refletir sobre o que defende e a que custo...