terça-feira, 11 de julho de 2017

A Paixão Revolucionária


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

“Um adolescente de hoje, no Ocidente, nem sequer pode conceber as paixões nacionais que levaram os povos europeus a se matarem uns aos outros, durante 4 anos” (François Furet) 

François Furet foi diretor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris, professor da Universidade de Chicago e presidente da Fundação Saint-Simon. É considerado o historiador da Revolução de 1789. Entre suas obras destacam-se “Marx e a Revolução Francesa”, “Pensando a Revolução Francesa” e “Dicionário Crítico da Revolução Francesa”.   
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Para compreender a força das mitologias políticas que preencheram o século XX, é preciso voltar ao momento do nascimento ou pelo menos da juventude delas, este é o único meio que nos resta de percebermos o brilho que tiveram. Antes de ser desonrado por seus crimes, fascismo foi uma esperança. Ele seduziu não apenas milhões de homens, mas também muitos intelectuais. Quanto ao comunismo, estamos ainda muito perto dos seus bons tempos, uma vez que ele sobreviveu por muito tempo a seus fracassos e a seus crimes como mito político e como idéia social, sobretudo nos países europeus, que não sofreram diretamente a sua opressão. Morto entre os povos da Europa do Leste desde a metade dos anos 50, ele ainda está florescente, 20 anos depois, na vida política e intelectual. Sobrevivência essa que permite avaliar o seu enraizamento e a sua capacidade de resistência à experiência, formando como um eco de seus bons tempos, na época de seu prestígio conquistador.
    
Para compreendermos a sua magia, devemos consentir no esforço indispensável de nos situarmos antes das catástrofes que presidiram as duas grandes ideologias no momento em que elas foram esperanças. A dificuldade desse olhar retrospectivo está ligada ao fato de que ela mistura, através de um tempo muito breve, a  idéia de esperança e a idéia de catástrofe: tornou-se quase impossível, depois de 1945, imaginar o nacional-socialismo de 1920 ou de 1930, como uma promessa. O caso do comunismo é um pouco diferente, não só porque durou mais tempo, graças à vitória de 1945, mas também porque a crença tem como suporte essencial o imbricamento de épocas históricas sucessivas, uma vez que o capitalismo deveria abrir caminho para o socialismo e depois para o comunismo.

É tal a força dessa representação, que ela permite realmente compreender ou fazer reviver as esperanças de que era portadora a idéia comunista no começo do século, mas ao custo de uma subestimação, ou mesmo de uma denegação da catástrofe final. O fascismo cabe inteiro em seu fim, o comunismo conserva um pouco de encanto dos seus primórdios. Explica-se o paradoxo pela sobrevivência desse famoso sentido da História, outro nome de sua necessidade, que serve de religião para aqueles não têm religião e, portanto, é tão difícil e até tão doloroso de abandonar. Ora, é preciso fazer esse trabalho do luto para entender o século XX.
    
A idéia de necessidade histórica conheceu ali seus melhores dias, porque o duelo entre fascismo e comunismo, preenchido com seu tumulto trágico, lhe oferecia um traje sob medida: a Segunda Guerra Mundial representou a arbitragem entre as duas forças que pretendiam à sucessão da democracia burguesa, a da reação e a do progresso, a do passado e a do futuro. Mas essa visão desfez-se sob nossos próprios olhos, com o fim do segundo pretendente depois do primeiro.
    
Nem o fascismo nem o comunismo foram os sinais invertidos de uma destinação providencial da humanidade. Foram episódios curtos, enquadrados pelo que quiseram destruir. Produtos da democracia, foram enterrados pela democracia. Neles, nada foi necessário, e a história de nosso século, assim como a dos anteriores, poderia ter se passado de outra maneira: basta imaginar, por exemplo, um ano de 1917, na Rússia, sem Lenin, ou uma Alemanha, de Weimar, sem Hitler. O entendimento de nossa época só é possível se nos liberarmos da ilusão da necessidade; o século só é explicável, na medida em que o é, se nos libertarmos da ilusão da necessidade; o século só é explicável, na medida em que o é, se lhe devolvermos seu caráter imprevisível, negado pelos primeiros responsáveis por suas tragédias.
    
O que dele procuro compreender, neste ensaio, é, ao mesmo tempo, limitado e central: é o papel neles representado pelas paixões ideológicas, e mais especialmente pela paixão comunista. Pois essa característica põe o século XX à parte. Não que os séculos anteriores tenham ignorado as ideologias: a Revolução Francesa manifestou a sua força de atração entre os povos, e os homens do século XIX não se cansavam de inventar ou de amar sistemas históricos do mundo, onde encontravam explicações globais para seu destino, pelos quais substituíam a ação divina.

Contudo, não existe antes do século XX governo ou regime ideológico. Talvez possamos dizer que Robespierre esboçou suas características na primavera de 1794, com a festa do Ser Supremo e o grande Terror. Mas aquilo só durou algumas semanas e a referência ao Ser Supremo é de tipo religioso, ao passo que entendo aqui por ideologias os sistemas de explicação do mundo através dos quais a ação pública dos homens em um caráter providencial com exclusão de toda divindade. Nesse sentido, Hitler, por um lado, e Lenin, por outro, fundaram regimes desconhecidos antes deles.
    
Regimes cujas ideologias suscitaram não só o interesse, como também o entusiasmo de uma parte da Europa do pós-guerra, e não apenas nas massas populares, mas também nas classes cultas, apesar do caráter grosseiro das idéias ou dos raciocínios. Sob este aspecto, o nacional-socialismo é imbatível, um amálgama confuso de autodidata, enquanto o leninismo possui um pedigree filosófico. Contudo, mesmo o nacional-socialismo, para não falarmos no fascismo mussoliniano, conta entre os intelectuais debruçados sobre seu berço de monstro alguns dos grandes espíritos do século, começando por Heidegger. Que dizer, então, do marxismo-leninismo, de posse de seu privilégio de herdeiro e, do nascimento até à morte, posto sob o olhar vigilante de tantos filósofos, de tantos cientistas e de tantos escritores!

É verdade que estes lhe fazem um cortejo intermitente, conforme a conjuntura internacional e a política do Komintern. Mas, se pusermos lado a lado todos os autores europeus célebres que foram, no século XX, em um ou outro momento, comunistas ou pró-comunistas, fascistas ou pró-fascistas, obteremos um Gotha do pensamento, da ciência ou da literatura. Para termos uma idéia do poder do fascismo sobre os intelectuais, aliás, um francês só precisa olhar para o seu próprio país, velha pátria européia da literatura, onde a NFR do entre-guerras ainda dá o tom: Drieu, Céline e Jouhandeau, por um lado, Guide, Aragon e Malraux, por outro.
    
O espantoso não é o intelectual compartilhar o espírito do tempo. É ele ser presa deste, em vez de tentar dar-lhe o seu toque. A maior parte dos grandes escritores franceses do século XIX, sobretudo na geração romântica, fez política, freqüentemente como deputados, às vezes como ministros, mas foram autônomos e, aliás, inclassificáveis por isso mesmo.

Os do século XX se submetem às estratégias dos partidos e, de preferência, à política dos partidos extremos, hostis à democracia. Neles desempenham apenas um papel, acessório e provisório, de figurantes, manipulados como todos e sacrificados, quando preciso, à vontade do partido. Assim, não podemos escapar à questão do caráter, ao mesmo tempo geral e misterioso dessa sedução ideológica. É mais fácil adivinhar porque um discurso de Hitler comoveu um alemão sobrevivente de Verdun, ou um burguês berlinense anticomunista, do que compreender a ressonância que ele teve em Heidegger ou em Céline.

A mesma coisa quanto ao comunismo: a sociologia eleitoral, quando ela é possível, indica-nos ao ambientes receptivos à idéia leninista, mas nada nos diz do encanto universal que ela exerce. O fascismo e o comunismo muito deveram de seus êxitos aos acasos da conjuntura, ou seja, à sorte. Não é difícil imaginar roteiros em que Lenin é retido na Suíça em 1917 e Hitler não é chamado para a Chancelaria em 1933.

Mas o prestígio de suas ideologias teria existido mesmo sem o sucesso deles, independentemente das circunstâncias particulares que os levaram ao Poder. E é esse caráter inédito da política ideológica, seu enraizamento nos espíritos, que a torna misteriosa. Na partitura ideológica política do século, onde o mais enigmático é esse bazar intelectual e cruzado sentimentos tão fortes e nutrido tantos fanatismos individuais.
    
Para compreendê-lo, o melhor é menos inventariar esse bricabraque de idéias mortas do que repartir as paixões que lhe emprestaram sua força. Dessas paixões, filhas das democracias  modernas empenhadas em devastar sua terra nutriz, a mais antiga, a mais constante, a mais poderosa é o ódio à burguesia. Ele percorre todo século XIX, antes de encontrar seu ponto culminante em nossa época, uma vez que a burguesia, sob seus diferentes nomes, constituiu para Hitler e para Lenin o bode expiatório das desgraças do mundo.

Ela encarna o capitalismo: para um, é ela quem traz o imperialismo e o fascismo; para o outro, ela traz o comunismo. Para ambos, é a origem do que detestam. Abstrata o bastante para abrigar símbolos múltiplos, e concreta o bastante para oferecer um objeto de ódio que esteja próximo, a burguesia oferece ao bolchevismo e ao fascismo seu pólo negativo, ao mesmo tempo que um conjunto de tradições e de sentimentos mais antigos sobre os quais se apoiar.
    
Pois essa é uma velha história, tão velha quanto a própria sociedade moderna.
    
A burguesia é o outro nome da sociedade moderna. Ela designa essa classe de homens que foi progressivamente destruindo, com sua atividade livre, a antiga sociedade autocrática, baseada nas hierarquias de nascença.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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