domingo, 3 de setembro de 2017

Dogmatismo: os perigos de dissociar a moral da ideologia


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Mario Vargas Llosa

CASCAIS, Lisboa - Acaba de ser reeditado, nos Estados Unidos, um livro de Tony Judt, surgido por primeira vez em 1992 e que eu desconhecia:"Past Imperfect: French Intellectuals, 1944-1956". A obra impressionou-me muito, porque morei na França por uns sete anos – entre 1959 e 1966 -, uma época ainda muito impregnada pela atmosfera e pelos preconceitos, acrobacias e desvarios ideológicos descritos pelo grande ensaísta britânico em seu livro reunindo, ao mesmo tempo, severidade e erudição.

O livro pretende responder este questionamento: "Por que será que, no pós-guerra (aproximadamente até meados dos anos 1960) os intelectuais franceses - de Louis Aragon a Sartre, de Emmanuel Mounier a Paul Éluard, de Julien Benda a Simone de Beauvoir, de Claude Bourdet a Jean-Marie Doménach, de Maurice Merleau-Ponty a Pierre Emmanuel, etc. – foram pró soviéticos, marxistas e companheiros de viagem do comunismo? Ainda, por que terão sido os escritores e pensadores europeus os últimos a reconhecerem a existência do Gulag1, a brutal injustiça dos julgamentos stalinistas em Praga, Budapest, Varsóvia e Moscou que condenaram ao paredão comprovados revolucionários?" É certo que houve exceções ilustres entre eles - Albert Camus, Raymond Aron, François Mauriac, André Breton -, porém escassas e pouco influentes num ambiente cultural em que as opiniões e as posições defendidas por aqueles outros prevaleciam de modo envolvente.

Tony Judt pinta um quadro com grande rigor e amenidade do ressurgir da vida cultural na França no período seguinte á libertação2, época em que o debate político impregna toda a atividade filosófica, literária e artística, envolvendo os meios acadêmicos, os cafés literários e revistas como Lês Temps Modernes, Esprit, Les Lettres Françaises ou Témoignage Chrétien, que passam de mão em mão e alcançam tiragens notáveis.

Comunistas ou socialistas, existencialistas ou cristãos de esquerda, os seus colaboradores divergem sobre muitas coisas, mas têm um denominador comum: um antiamericanismo sistemático, sustentando a convicção de que, entre Washington e Moscou, a primeira representa a pobreza cultural, a injustiça, o imperialismo e a exploração, enquanto Moscou representa o progresso, a igualdade, o fim da luta de classes e a verdadeira fraternidade. É verdade que nem todos chegaram ao extremismo de um Sartre, que, em 1954, após sua primeira viagem à União Soviética, afirmou, sem sequer corar de vergonha: "O cidadão soviético é completamente livre para criticar o sistema".

Isso nem sempre era uma cegueira involuntária, derivada da ignorância ou da mera ingenuidade. Tony Judt mostra que, ser aliado dos comunistas, era a melhor maneira de limpar um passado que trazia as manchas da colaboração com o regime de Vichy.3 Foi o caso, por exemplo, do filósofo cristão Emmanuel Mounier e alguns de seus colaboradores de Esprit. Nos primeiros tempos da ocupação (da França pela Alemanha nazista), eles se deixaram seduzir pelo chamado experimento de nacionalismo cultural Uriage, patrocinado pelo governo.

Depois, advertidos de que era um programa manipulado pelas forças nazistas de ocupação, dele se afastaram. Aliás, eu lembro fato ocorrido no início dos anos 1960: André Malraux, diante de manifestantes universitários que tentavam impedi-lo de falar e faziam referência a Sartre, deu-lhes esta resposta: "Sartre? Sim, conheço-o. Ele encenava suas peças de teatro em Paris, aprovadas
pela censura nazista, enquanto eu era torturado pela Gestapo.4"

Tony Judt afirma que, atrás do esquerdismo dogmático desses intelectuais, além da necessidade de apagar um passado politicamente impuro, havia um complexo de inferioridade experimentado pelo meio intelectual, em razão da facilidade com que a França se curvou perante os nazistas e aceitou o regime asqueroso do Marechal Pétain, e só foi libertada de modo decisivo pelas forças aliadas encabeçadas por Estados Unidos e Inglaterra.

É que, embora haja existido, desde o início, uma resistência local e uma participação militar na luta contra o nazismo (por gaullistas5 e comunistas), a França sozinha não teria conseguido jamais a sua própria libertação. Havia ainda a volumosa ajuda que a França recebia dos Estados Unidos (através do Plano Marshall) para seu trabalho de reconstrução. Tudo isso somado, conforme Judt, terá disseminado um ressentimento que explica a "enfermidade infantil do esquerdismo pró-sstalinista" que marcou a vida intelectual da França entre 1945 e os anos 60.

Mas no polo oposto, destacava-se a figura de Albert Camus. Naqueles anos
50, não bastava lucidez para condenar os campos soviéticos de extermínio e a truculência dos julgamentos; era necessário, também, muita coragem para enfrentar uma opinião pública desvirtuada, a satanização praticada por uma esquerda que detinha o controle da vida cultural, coragem para enfrentar uma ruptura com os antigos companheiros da resistência. Mas o autor de "L'homme révolté ("O homem revoltado") não vacilou! Albert Camus afirmou, contra tudo e contra todos, que dissociar a moral da ideologia, como fazia Sartre, significava abrir as portas da vida política ao crime e às piores injustiças. O tempo lhe deu razão a Camus; e, por isso, as novas gerações seguem lendo a sua obra. Entrementes, a maior parte daqueles que, à época, dominavam a vida intelectual francesa, caiu no esquecimento.

Um caso muito interessante, analisado em detalhes por Tony Judt, é o de François Mauriac. Havendo resistido desde o primeiro momento contra o nazismo e contra o regime de Vichy, as credenciais democráticas de Mauriac eram impecáveis, quando chegou a libertação da França. Isso lhe permitiu enfrentar, com argumentos sólidos, a onda pró-stalinismo; e, sobretudo como católico, aos progressistas de Esprit e Témoignage Chrétien, os quais, em muitas ocasiões - como durante as polêmicas sobre o Gulag que provocaram as reações testemunhais de Víktor Kravchenko e de David Rousset -, agiram como meros rapsodos (propagandistas ideológicos) das mentiras fabricadas pelo Partido Comunista francês.

Ademais, François Mauriac (quer em suas memórias, quer em seus ensaios ou nas colunas escritas para o jornal) antecipou-se a todos os seus colegas ao iniciar uma profunda autocrítica concernente aos delírios de grandeza da cultura francesa. Assim foi, numa época em que - embora muito poucos, além dele, houvessem percebido - a cultura francesa entrava num processo de empobrecimento até hoje não revertido. Nunca me agradaram os romances de Mauriac e, por isso, acabei descartando os seus ensaios. Agora este livro de Tony Judt mostra-me que foi um erro.

Mas nem tudo na obra de Judt é convincente. É imperdoável que, além de Camus, Aron e outros poucos, não faça sequer uma referência a Jean François Revel, que, desde o final da década de 1950, empreendia também uma muito intensa batalha contra os fetiches do stalinismo. É igualmente imperdoável que não dê o merecido realce a denúncia do colonialismo nem ao apoio das lutas do Terceiro Mundo por livrar-se de ditaduras e da exploração imperialista, o que foi um dos cavalos de batalha e, quem sabe, a melhor contribuição de Sartre e de muitos de seus seguidores à época.

Por outro lado, embora as severas críticas de Tony Judt ao que ele chama de "anestesia moral coletiva" dos intelectuais franceses (feitos os devidos descontos), sejam consideradas justas, é fato que ele omite algo que dificilmente poderia ser esquecido por quem de algum modo viveu aqueles anos, como eu: a vigência das ideias, a crença (talvez exagerada) em que a cultura em geral, e a literatura em particular, desempenhariam um papel em primeiro plano na construção dessa futura sociedade na qual liberdade e justiça por fim se fundiriam de maneira indissolúvel. As polêmicas, as conferências, as mesas-redondas no palco lotado da Mutualité, o público ávido (constituído sobretudo de jovens) que seguia tudo aquilo com fervor e, depois, prolongava os debates nos bistrots do Bairro Latino e de Saint Germain: é impossível não lembrar sem nostalgia.

Contudo, é verdade que foi bastante efêmero e menos transcendente do que acreditávamos. E o que então nos parecia grande ostentação de inteligência era, em verdade, os estertores da figura do intelectual e os últimos lampejos de uma cultura de ideias e palavras não limitada aos seminários das academias, mas acessível aos homens e mulheres das ruas.

Notas da tradução:

1. Campo de trabalhos forçados onde eram confinados aqueles que o regime comunista soviético condenava por meio de falsos julgamentos sem
direito de defesa.

2. Expulsão, por parte das Forças Aliadas, dos nazistas que ocuparam a França por quatro anos durante a II guerra.

3. Com a invasão alemã em 1940, instalou-se na cidade de Vichy um governo comandado pelo marechal francês Pétain, controlando um terço do país, mas subordinado aos interesses da Alemanha, enquanto os outros dois terços da França estavam ocupados e governados diretamente por
nazistas.

4. A temível polícia secreta alemã do regime nazista.

5. Seguidores do General Charles de Gaulle, herói nacional francês que participou da libertação da França invadida pelos nazistas e veio a ser
presidente da nação.

Mario Vargas Llosa é romancista e ensaísta peruano. Prêmio Nobel de Literatura 2010. Texto originalmente publicado no Jornal La Nacion, de Buenos Aires, em 29/07/2014. Tradução de Renato Sant'Ana.

Um comentário:

jomabastos disse...

Há que ter em conta que as críticas de Mario Vargas Llosa ao comunismo, são sobretudo auto-críticas políticas e sociais, visto ele ter apoiado o comunismo soviético e a revolução cubana pró-soviética até pelo menos aos seus trinta anos de idade, isto é, quase até ao ano de 1970. Sé depois desta data, é que ele enveredou definitivamente pelo liberalismo e pelo capitalismo democrático ocidental.