domingo, 22 de outubro de 2017

O que é Fundamentalismo?

                                               
Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

É uma categoria recente no pensamento político. Trata-se de uma classificação genérica de movimentos ou pessoas que se opõem à chamada secularização, a perda de hegemonia da Igreja sobre as diversas instâncias da vida social (política, economia, legal etc.).

Na Europa, a secularização foi um movimento característico da transição da Idade Média para a Idade Moderna (do feudalismo para o absolutismo, em que a Igreja cedeu o controle da vida nacional para os monarcas absolutos) e se aprofundou radicalmente com o Iluminismo e a Idade Moderna (com a implantação do conceito de separação entre Igreja e Estado, consagrado em todas as constituições democráticas a partir do fim do século 18).

O fundamentalismo propõe o movimento contrário: a submissão das diversas instâncias da vida social à esfera religiosa, uma volta a modelos teocráticos (cujo paradigma europeu seria o auge da Idade Média, quando o modelo social, as leis econômicas e a política, assim como todas as manifestações culturais, seguiam padrões impostos pela Igreja).

Movimentos fundamentalistas nos mais diversos países e representando diversas religiões (principalmente seitas protestantes, judaicas e islâmicas) têm sido responsáveis por frear a progressiva secularização que se dava em nações de todos os continentes.
   
O termo começou a ser usado, como categoria religiosa, nos anos 1920, como auto-definição de líderes de grupos religiosos cristãos, protestantes, que reagiam à perda de influência religiosa na vida norte-americana.

Esses movimentos passaram a se definir como "Fundamentalistas Cristãos", o que serviria hoje para definir um conjunto de denominações com cerca de 30 milhões de fiéis nos Estados Unidos.

Mais recentemente, nos anos 1980, o termo passou a ser usado com conotação política, para descrever o crescente peso desses grupos religiosos protestantes norte-americanos na reração conservadora que marcou a eleição e a administração de Ronald Reagan a partir de 1980.
    
Logo em seguida, passou a ser usado mais freqüentemente para definir os regimes ou movimentos islâmicos conservadores que também reagiam à secularização de suas sociedades, especialmente em função da revolução iraniana que acabara de ocorrer.

Os movimentos fundamentalistas têm revelado que a retração do poder da Igreja não é um consenso da cultura política contemporânea e ao mesmo tempo, apontam para a fragilidade da visão modernista da história (como permanente evolução rumo a modelos racionais).

 Manifestações fundamentalistas estão presentes em diversos países: de forma sutil, nas referências a Deus no discurso político americano (os cada vez mais freqüentes "God Bless America" dos presidentes Clinton e Bush); ou mais explícita, a recuperação da influência da Igreja ortodoxa nos países da Europa do Leste, após a queda dos regimes socialistas ou poder crescente de partidos religiosos na política israelense; de forma não-violenta, nas manifestações dos deputados que usam expressões ou trajes religiosos no Parlamento da Turquia e por isso são cassados; ou mais violenta, a perseguição a cristãos na Índia; ganhando a força de leis, como a proteção constitucional à Igreja Ortodoxa na Rússia ou, ainda mais polêmicas, nas decisões judiciais ou administrativas baseadas em princípios religiosos não consagrados em lei, como no Egito.
 
Em vários países, movimentos dessa natureza procuram forçar a implantação de constituições baseadas na religião, caso dos movimentos de oposição fundamentalista islâmico no Egito, na Argélia, no Iraque, no Líbano; ou hindu, na Índia.

O ditatorial e secular do Xá (rei) Reza Pahlevi, foi provavelmente o modelo mais sofisticado de intervenção fundamentalista na sociedade, em grande medida porque a principal contribuição de seu líder aiatolá (líder religioso) Ruhollah Khomeiniao pensamento xiita tinha sido a idéia do governo do clero. No longo prazo, desde a queda de Pahlevi há 22 anos, o resultado da Revolução iraniana é um regime constitucional baseado em princípios religiosos, onde um candidato de oposição moderada (o aiatolá Mohammad Khatami) foi eleito, reeleito e governa o país.  


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...

Parece que essas populações tiveram melhor percepção do fundo psicopático da doutrina iluminista e da "hybris" aquariana que os "senhores do mundo" manifestam com a ideologia de gênero e o transumanismo.