sábado, 17 de fevereiro de 2018

A maquiavélica intervenção temerária dará certo?


Edição do Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Jorge Serrão - serrao@alertatotal.net

Não é fácil prever os efeitos da inédita intervenção federal promovida na área de (in) Segurança do Rio de Janeiro. De cara, pode-se afirmar que o Presidente Michel Temer, na canetada de um Decreto, joga no colo das Forças Armadas a competência e a responsabilidade de resolver um problema sócio-econômico, cultural e de (falta de) gestão de segurança pública, além do grave componente político-ideológico que dificilmente será combatido agora pelo Poder Militar: a hegemonia do Crime Institucionalizado.

Claramente, Michel Temer agiu maquiavelicamente para responder, imediatamente, às críticas carnavalescas que recebeu nos desfiles das escolas de samba da Avenida Marquês de Sapucaí – um espetáculo transmitido mundialmente. Certamente, Michel Temer apelou aos militares  por inspiração dos principais ideólogos de seu (des) governo: Wellington Moreira Franco (considerado o “Presidente paralelo”, no cargo de Ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República) e Sergio Etchegoyen (Ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República – um General de Exército muito ouvido por Temer em todas as infindáveis crises e grande amigo de uma eminência parda chamada Nelson Jobim – que vestiu todas as casacas da República).

Temer cumpre três objetivos pragmáticos com a “intervenção” na Segurança costurada, convenientemente, com o (des) Governador Luiz Fernando Pezão. Primeiro, comprova que, mesmo pressionado, não tem medo de tomar decisões polêmicas. Segundo, Temer fortalece uma aliança simbólica com os militares – os sustentadores fundamentais de todo e qualquer governo (popular ou impopular). Terceiro, Temer se livra de sofrer uma derrota na tal “Reforma” da Previdência, já que o Congresso fica impedido de votar mudanças na Constituição, durante a vigência de “intervenção federal” (e esta vai durar até 31 de dezembro, coincidindo com o fim do mandato do substituto da Dilma impichada).

Os ideólogos do Presidente foram genialmente maquiavélicos. Aproveitaram uma pré-condição psicossocial para salvar o “Chefe” que parecia inevitavelmente condenado a entrar para a História com uma impopularidade maior que a do companheiro José Sarney – vergonha maior do que sofrer uma goleada do Íbis (considerado, simbolicamente, o pior time do planeta). A pré-condição é o desejo popular em favor da tal “Intervenção Militar” (43% dos brasileiros apoiariam, segundo uma pesquisa). Simbolicamente, quase a metade da nossa população deseja o retorno dos militares ao Poder Executivo – coisa que a maioria dos Generais (sinceramente ou não) afirma não desejar...

Na prática, Temer jogou uma bomba atômica ativada no colo dos militares. O fenômeno do descontrole na Segurança Pública no Rio de Janeiro não é um fato isolado. Repete-se nos demais estados da nossa “Federação” de mentirinha, em grau (aparentemente) menos ostensivo. A sensação de insegurança é generalizada (sem trocadilho, por favor) no Brasil. A violência descontrolada assassina 60 mil pessoas por ano – número absurdamente maior que o de muitas guerras pelo mundo afora. A barbárie carioca-fluminense assusta mais porque tem repercussão midiática internacional. A dúvida cruel é: resolvê-la é uma questão meramente militar?

Quem assistiu aos dois filmes “Tropa de Elite”, do genial cineasta José Padilha, deve ter compreendido como funciona o Crime Institucionalizado. Na obra cinematográfica ficou fácil de visualizar como se pratica a corrupção, a violência e uso ilegítimo do poder, a partir da associação delitiva entre os bandidos na máquina estatal e os criminosos de toda espécie (na zelite, na classe média e na periferia). Em síntese, o Sistema do Crime Institucionalizado se organiza, ganha hegemonia e se expande no modelo de Estado-Ladrão, sob regência do Capimunismo Rentista.

O narcotráfico – que aterroriza o RJ e alhures – não é uma atividade meramente criminosa. Trata-se de uma atividade, basicamente, econômica. Essencialmente, no entanto, além de tocar o terror na sociedade, a gestão da venda de drogas, armas e roubos de cargas também cumpre a missão política de controlar gigantescas comunidades carentes onde sobrevivem eleitores – uma massa manipulável de seres humanos extremamente carentes de tudo.

Associados aos políticos e seus intermediários, os traficantes e milicianos (policiais-bandidos) exercem seu poder espúrio para eleger os bandidos que infestam o Executivo e o Legislativo, nos municípios, estados e na União Federal. O “Exército paralelo” é o sustentáculo direto da bandidagem do baixo-clero e o sustentáculo indireto do criminoso da cúpula político-econômica. As duas versões do “Tropa de Elite” ensinaram isto, magistralmente, também indicando que o Crime tem uma dimensão cultural/psicossocial.

Agora, a perguntinha que não quer calar e que certamente vai deixar muita gente pt da vida no governo e na caserna: Será que uma intervenção federal no comando da Segurança pública de um estado falido como o Rio de Janeiro conseguirá resolver o problema cultural, político e econômico do Crime Institucionalizado? De imediato, dá para intuir que a resposta é um NÃO (rotundo, como diria o falecido caudilho Leonel Brizola).

Outra pergunta que vai incomodar: A competente gestão dos militares das Forças Armadas sobre a PM, Bombeiros, Defesa Civil e a área Penitenciária de qualquer estado da “Federação de mentirinha” será capaz de combater o narcotráfico e a milícia – duas violentas e lucrativas atividades políticas e econômicas? A resposta parece a mesma da questão anterior... O Rio de Janeiro é apenas o maior paradigma sobre como funciona o Crime Institucionalizado. É claro que nossos Generais sabem muito bem disto. Eles são hiper-bem-formados. Todos têm “Doutorado em Política, Estratégia e Alta Administração pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército”...

Mais uma perguntinha básica: Como é que os Coronéis das Forças Auxiliares (PMs e Bombeiros) e os burocratas do sistema penitenciário reagirão ao comando intervencionista de um (General ou Coronel) do Exército? Tudo indica que eles reagirão muito mal, inclusive sabotando as “ordens superiores”, de maneira explícita ou dissimulada. Até o final deste ano, é bem mais provável que os militares sofram mais desgaste que sucesso.

Outro problema gigantesco – na verdade, uma armadilha – é o desejo popular que dificilmente vai se tornar realidade. As pessoas que, de imediato, apóiam a “Intervenção-meia-boca” no Rio de Janeiro podem se decepcionar rapidamente. O Exército não poderá entrar em guerra direta contra os narcoguerrilheiros e milicianos. Terão de coordenar o emprego da PM neste trabalho. Se não deu certo antes, vai dar certo agora, só pela entrada mágica de um General de Exército no comando? É mais fácil acreditar na lenda da ararinha azul...      

A Intervenção na Segurança do Rio de Janeiro será um megateste para as Forças Armadas aplicarem sua doutrina da Garantia da Lei e da Ordem (GLO), dirigindo uma área que faliu moral e operacionalmente no RJ.
Os militares receberão mais recursos para tocar a intervenção, porém terão a nada fácil missão de promover uma guerra nunca antes encarada contra narcotraficantes e milicianos que aterrorizam o Rio de Janeiro.

Resumindo: Temer jogou os militares em uma furada... O curioso é que, se por algum milagre a intervenção federal na segurança der certo no curto prazo (o que é improvável), o desgastado Temer ganha mais força e sustentação junto ao Poder Militar – aquele que, em qualquer País do mundo, é o sustentáculo de todo regime político e dos demais poderes da Nação: executivo, legislativo e judiciário.

Resumindo mais ainda, quase desenhando com tinta dourada em papel especial: Temer parece investir no apoio das Forças Armadas não só para se salvar das previsíveis broncas que terá de responder assim que terminar seu mandato. Temer também age agora para retardar o inevitável processo de Intervenção Institucional, única saída para uma verdadeira mudança estrutural no Estado brasileiro, que precisa ser reinventado, com uma Nova Constituição baseada no Federalismo Pleno.

#prontofalei: Se os militares falharem agora – e o risco é gigantesco -, é o futuro do Brasil que estará ainda mais comprometido, já que o Crime Institucionalizado se reinventa, rapidamente, para continuar dominando a Nação subdesenvolvida, violenta e em claro ritmo de fragmentação política, econômica e territorial.
















Vida que segue... Ave atque Vale! Fiquem com Deus. Nekan Adonai!


O Alerta Total tem a missão de praticar um Jornalismo Independente, analítico e provocador de novos valores humanos, pela análise política e estratégica, com conhecimento criativo, informação fidedigna e verdade objetiva. Jorge Serrão é Jornalista, Radialista, Publicitário e Professor. Editor-chefe do blog Alerta Total: www.alertatotal.net. Especialista em Política, Economia, Administração Pública e Assuntos Estratégicos. 
A transcrição ou copia dos textos publicados neste blog é livre. Em nome da ética democrática, solicitamos que a origem e a data original da publicação sejam identificadas. Nada custa um aviso sobre a livre publicação, para nosso simples conhecimento.

© Jorge Serrão. Edição do Blog Alerta Total de 17 de Fevereiro de 2018.

4 comentários:

francisco júnior disse...

Site de divulgação Enviar link

Jayme Guedes disse...

Enquanto o crime não parou de crescer e se renovar a legislação penal permanece inalterada como se ainda vivêssemos em 1950. Nosso legislativo é um desastre. Menos estádios e mais penitenciárias. Já que não suportamos a pena de morte, que venham as penitenciárias de segurança máxima com prisão perpétua, celas individuais de 2 x 2 onde água e ração são entregues por tubulação, sem visitas e isolamento absoluto até a morte natural ou por suicídio. Sim, suicídio. Não executamos criminosos mas a cela oferece opção por suicídio com morte sem sofrimento. Ah, mas e a “ressocialização”? O estado bancará o custo da hospedagem na casa dos defensores dessa teoria idiota, se depois disso ainda houver algum.

Anônimo disse...

Na minha opinião deveria ser feito como o Brizola fazia ....amarrar uma pedra no pescoço da bandidagem e jogar no rio ou mar...lembram?
Essa intervenção meia boca não vai funcionar !!!!!!!!!!!!

jomabastos disse...

Uma larga maioria de cidadãos brasileiros, aceitam o mal sem protestar e ao cooperarem com esse mesmo mal ao se manterem inertes e passivos, geram um forte clima de instabilidade social e consequente aumento da criminalidade. São a falta de respeito entre os cidadãos, a pequena corrupção ativa e passiva, os roubos, os assaltos, os latrocínios, o tráfico de drogas e outros mais crimes hediondos. Mas acima de tudo, os criminosos mais letais ficam a dominar o país, os do crime-institucionalizado, os da grande corrupção e os do Foro de São Paulo.

Esta maquiavélica intervenção temerária dará certo? Não para o Brasil! Na verdade, com esta intervenção o crime-institucionalizado está se oxigenando e se reinventando. Esta intervenção certamente que dará certa - pois é esse o seu objetivo primordial - para a grande corrupção, para o crime-institucionalizado, para o Foro de São Paulo e para todos os suspeitos de corrupção que continuarão protegidos pelo foro privilegiado.

Com esta intervenção militar para assegurar a segurança pública, a mesma operação de cosmética que foi elaborada para o Rio durante a Copa e para os Jogos Olímpicos está a ser executado neste preciso momento. Os grandes bandidos traficantes vão tornar a derramar-se pelo Brasil e formar novos gangues nas principais cidades do país e nas cidades fronteiriças com a Bolívia, com a Colômbia e com o Paraguay. No sul do país será o caso de Curitiba e de Porto Alegre, pois o grande tráfico de droga vindo da Bolívia através das fronteiras do Paraguay com o Mato Grosso do Sul e com o Paraná, concentra-se para "exportação" interna e externa, na zona sudoeste e sul do Brasil. O Paraguay que tem uma baixa taxa de homicídio e violência em Assunção e praticamente em todo o seu interior, que se prepare para aumentar ainda mais a já existente alta taxa de homicídio e violência em suas cidades e cidadelas localizadas nas fronteiras com o Brasil, em consequência da forte guerra entre gangues pelo controle do poderoso e imoral tráfico de estupefacientes vivente nestas zonas fronteiriças. Mas também não podemos esquecer do índice de criminalidade que irá aumentar cada vez mais no nordeste brasileiro, casos de Fortaleza, Natal, Maceió, Salvador da Bahia e Porto Seguro.

De que serve mais polícia e mais tropas nas ruas, se continuar a existir forte corrupção e crime institucionalizado?
De que serve mais polícia e mais tropa nas ruas, se continuar a não existir qualidade na educação acadêmica, na educação cultural e na educação social?
De que serve mais polícia e mais tropas nas ruas do Rio, se continuarmos a ver os cidadãos brasileiros submersos num clima social sem valores conservadores, sem liberalização econômica e política, sem liberdade individual, igualdade, respeito, qualidade de vida e, sobretudo com muito pouco reconhecimento humano, socializante e socializador?

"Temer parece investir no apoio das Forças Armadas não só para se salvar das previsíveis broncas que terá de responder assim que terminar seu mandato. Temer também age agora para retardar o inevitável processo de Intervenção Institucional, única saída para uma verdadeira mudança estrutural no Estado brasileiro, que precisa ser reinventado, com uma Nova Constituição baseada no Federalismo Pleno."

Uma Intervenção Institucional é extremamente necessária para uma recuperação a todos os níveis desta grande Nação.
Só com uma grande e prolongada manifestação protagonizada pela população para conseguirmos livrarmo-nos desta ditadura disfarçada. Aquela multidão que esteve nas ruas festejando o Carnaval, deveria voltar às ruas para acabar com o crime-institucionalizado, com a corrupção e com o comunismo. Mas não o fazem, porque estão esperando que um salvador da pátria lhes resolva todos os graves problemas existentes neste Brasil.