domingo, 25 de fevereiro de 2018

“Intervenção” – na visão da esposa de militar


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Larissa Gomes Schiavo

"A família começa quando um aceita o outro. Na cláusula do contrato, o texto bíblico "deixará teu pai e tua mãe ", toma a forma devida desde o primeiro momento. 

Depois da comemoração do casamento,  iniciam-se as mudanças... Dentro das caixas:  fotos de quem fomos,  lembranças dos antepassados,  partes de onde morávamos... vão se transformando em passado. Pois agora,  meu amigo e minha amiga... você se casou com um militar.

Seus filhos, serão cada um de um estado...e às vezes, nascido em outro país. Eles vão mudar de sotaque como mudam de roupa. E ouvirão dos coleguinhas: - Você fala engraçado/diferente/bonito! Os namorados vão sendo deixados nas cidades... os apaixonados adolescentes se revoltam com a profissão que os pais escolheram. Gostariam de ficar na cidade que tanto amam. Às vezes o namoro termina, e nunca mais se tem a oportunidade de voltar para aquele que foi saudoso e temporário lar.

Os cônjuges desde cedo descobrem o que estar longe dos pais e irmãos. Olham para as fotos compartilhadas, as reuniões, aniversários e casamentos e sentem que estão perdendo momentos preciosos ao lado dos seus. Pois a distância impede. Ou a falta de dinheiro. Ou o dito cujo estará de serviço/campo/exercício.
A família sem perceber que dói, cobra e pergunta: - Vocês vêm? Por que não pedem transferência para cá? – Querem estar perto de nós. Mas não compreendem que atrás de uma transferência há toda uma questão de vaga, posto, curso e etc. Quem dera possamos conseguir morar onde bem entendermos.

Os filhos e cônjuges tremem ao ouvir “Missão de Paz”. De paz para quem? Para o país que está recebendo. Pergunte aos viúvos e viúvas do terremoto no Haiti onde está a sua paz. Enterrada junto com os que lá morreram.
Há vantagem de morar em outro país, estudar fora... mas ás vezes a família não têm direito. Ou se tem, é tachado como o “estrangeiro”. Nem sempre é bem visto ou recebido. 

Entretanto, comemoram-se missões como essa como final de copa do mundo! Meu pai/minha mãe vai para missão no exterior!!!! Do outro lado do mundo, ficam os avós e tios olhando as fotos e vendo seus queridos crescerem tão longe. Só restam os vídeos e fotos enviados para o celular para aplacar um pouco da saudade.

Os filhos desfilam com farda para exaltar a profissão dos pais! Sabem tudo sobre armas, AMAN, ESA, EEAR, pnr, hinos... uma educação patriótica aprendida desde o berço. Cada Estrela, traço ou medalha a mais na farda, infla o ego dos familiares: - Aquele(a) ali é meu pai/mãe/ filho!
- Ela está sendo promovida!
- Ganhou a medalha do pacificador!
- Se formou na AFA!

Ainda pensam que somos ricos... que não pagamos pela moradia, saúde e educação. Sai tudo do soldo. As empresas de mudança não cobram nada menor que 4 dígitos. E sempre que chegamos na nova morada, tem coisas para arrumar, comprar e reparar.

As esposas começam cursos e terminam 10 anos depois, assim como os filhos. As universidades nem sempre aceitam a grade da anterior. Os filhos pequenos estudaram ou estudarão em 6, 7 escolas, 3 ou 4 cursinhos, 3 estúdios de dança. Por vezes largam suas paixões por alguma arte por falta de escola especializada.

No meio da noite, enquanto os militares estão de serviço/viajando/missão e etc. as crianças adoecem com a falta do pai/mãe. E saem os pais correndo para o hospital, que às vezes só existe há 60km dali. Contam com os vizinhos, mais do que contam com os irmãos. Pois todos estão na mesma situação.
As crianças esperam ansiosas o dia que seu soldado retorna daquele exercício ou curso. Saem para comemorar, ou jantam juntos para contar das anedotas ocorridas, e competem a atenção da “estrela” da noite. Eles fazem curso, estudam idiomas, estudam instruções, sacrificam horas de sono e a própria vida.
Saem de casa e deixam sua família muitas vezes sem saber se voltarão.
Então, para você que pensa que a Intervenção é desnecessária: concordo! Não acho que essa missão pertence às Forças Armadas. Se o Brasil está do jeito que está, não é por culpa dos nossos soldados. E não deveria caber a eles essa responsabilidade. É obrigação de outrem. Mas eles estão lá... e por trás de cada farda, há uma mãe/pai orando, um marido preocupado, uma esposa aflita, filhos chorando a ausência, irmãos de olho nas notícias e etc. 

O bandido pode atirar e matar cada coração de cada familiar... mas ai de cada farda camuflada apontar uma arma para as “vítimas da sociedade”.

Quando a vida é cruel (leia-se criminoso) e leva aquele ente querido, há uma bandeira Brasileira sobre o caixão e tiro de salvas. Uma linda cerimônia para o herói que morreu em defesa da Pátria. Mas o que essa Pátria oferece em retorno?

Vítimas? Para mim, são aquelas que estão em casa, cobertas do manto da fé na esperança que seus soldados voltem sãs e salvos."

Larissa Gomes Schiavo é esposa de militar.

4 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns pelo belo texto d. Larissa. A vida militar é sacrificada. Mas ninguém é obrigada a segui la . Também não concordo com seu posicionamento de que "a culpa pelo que está aí não é dos soldados e as FAA não devem intervir". As FAA são compostas antes de tudo por cidadãos brasileiros e a "culpa" por tudo que está acontecendo é de todos. Virar as costas não é nada patriótico. A população foi as ruas em peso pedir mudanças e punição para os bandidos. Implorou para ter ajuda das FAA. A população em sua maioria esta desarmada, a polícia desmantelada pelos políticos corruptos amparados por judiciário igualmente corrupto. Sobrou para o povo de bem e as FAA .ou vai ou racha, pelo Brasil pelo futuro dos meus dos seus dos nossos filhos.

Anônimo disse...

Como filha de militar, me identifiquei plenamente com o texto. Parabéns.

Anônimo disse...

Pior de tudo senhora Larissa, é o não reconhecimento do comandante supremo das Forças Armadas em valorizar esses militares não os tratando como merecem.Não é só o atual, mas os outros, como já aconteceu com aquele que soltou esta linda pérola como:"Estou cagando e andando para esses caras. Os militares, no meu governo, tiveram que me aguentar e viviam me enchendo o saco, pedindo migalhas de reajuste. Pediam uma coisa, eu enrolava e nunca dava o que eles pediam. Depois dava uma esmola qualquer e não me sacaneavam". Quem entra para as Forças Armadas, não é para enriquecer, mas viver com dignidade.
Infelizmente o Brasil está assim.Parabéns pelo belo texto.

Anônimo disse...

Eta texto belo,relevante,lúcido e verdadeiro.Vai no âmago.É isso aí mesmo,é a realidade na vida castrense e seus familiares que só a conhece quem vive ou viveu esta realidade.Eu sou militar da reserva,natural de um Estado,minha esposa de outro e meus filhos nasceram,cresceram,estudaram em Estados diferentes.Dois são militares e servem em Estados diferentes,mas nos orgulhamos disso pois foi a vida que escolhemos.Infelizmente não somos valorizados como devíamos e ainda somos alcunhados de milicos torturadores.Me emocionei com o seu texto.Paro por aqui,pois uma sociedade que não valoriza as suas FFAA é uma sociedade fadada ao fracasso.