quinta-feira, 16 de agosto de 2018

O Caminho Estreito de Alckmin


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Christopher Garman

O prazo de registro para as candidaturas presidenciais chegou ao fim e, com elas, o quebra-cabeças sobre os possíveis candidatos e coligações para a eleição presidencial. Sem dúvida, no plano estritamente político, a candidatura do ex-governador Geraldo Alckmin saiu com as maiores conquistas. Primeiro, o PSDB conseguiu uma coligação com o chamado Centrão, o que lhe dá uma expressiva vantagem em termos de tempo de televisão. Segundo ele fez uma ótima escolha para vice-presidente de sua chapa, com a indicação da senadora Ana Amélia, do Partido Progressista (PP-RS). Conservadora e nascida no Rio Grande do Sul, ela pode ajudar exatamente onde a campanha de Alckmin mais precisa: conquistar eleitores da região sul, tradicionais eleitores do PSDB que hoje apoiam a candidatura de Jair Bolsonaro (PSL) ou Alvaro Dias (Podemos-PR).

Muitos interpretam esse movimento como evidência de que teremos um segundo turno tradicional, no qual PT e PSDB voltam a se contrapor nas urnas. De fato, qualquer candidato do PT tem boas chances de passar para o segundo turno. Quase 20% do eleitorado se identifica como sendo petista, e 35% dão apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Logo, quando o PT oficializar sua candidatura, provavelmente de Fernando Haddad, ele terá espaço para crescer durante a campanha. No entanto, não apostamos que a disputa ficará entre Alckmin e PT.

Ainda apostamos que um dos candidatos "quase reformistas" estará no segundo turno: seja Jair Bolsonaro do PSL (mais provável) ou Marina Silva (Rede). Em nossa opinião, Alckmin ainda tem chances reais de vencer a disputa, mas a probabilidade de que este cenário se dê gira em torno de 20%. Se ele chegar ao segundo turno, terá boas chances. Mas não apostamos nisso.

Três razões fundamentam essa aposta, a despeito de vantagens significativas como tempo de TV favorável e estrutura partidária consolidada.

A primeira razão pela qual Alckmin dificilmente chegará ao segundo turno está na dificuldade de atrair eleitores que se declaram indecisos, que pretendem anular o voto ou votar em branco. Esse eleitorado representa 33% dos entrevistados de acordo com a última pesquisa da Datafolha, e 41% na pesquisa CNI/Ibope. De fato, a soma dos indecisos ou que votarão em branco/nulo é mais alta do que nos pleitos anteriores. Em 2014, essa parcela da população girava em torno de 25% em meados de julho e caiu para 15% nas pesquisas anteriores ao primeiro turno. Em 2010, o mesmo grupo era composto por um pouco mais de 15% dos eleitores, mas caiu para 12% antes da votação. Logo, alguns argumentam que Alckmin pode avançar nesse campo.

Achamos difícil. Se compararmos os cenários que incluem a candidatura de Lula e com outros que o excluem, notamos que uma grande parcela dos eleitores é composta por votantes que gostariam de eleger o petista, mas ainda não encontraram uma alternativa satisfatória. No cenário onde o ex-presidente volta a concorrer ao posto, a soma de votos indefinidos, em branco ou nulos cai 13 pontos percentuais para 28%, de acordo com o Ibope, e tem uma queda de 12 pontos para 21% nos estudos da Datafolha. Os números são mais próximos do que nas eleições anteriores. Em outras palavras, um terço dos eleitores que hoje não têm candidato são órfãos do Lula. Não é um segmento de fácil alcance para Alckmin. Ou esse eleitor vai para o candidato que o PT indicar (mais provável), ou tende a ir para Marina ou Ciro Gomes.

E nos dois terços remanescentes (excluindo os órfãos do Lula), o mais provável é que esses eleitores não votem. Vale ressaltar que a soma das abstenções e votos em branco/nulos deve ser elevada. Esse índice chegou a 25% em 2010 e 27% em 2014. Nas eleições municipais alcançou 32%. Nesse pleito, dado o tamanho do desencanto da população (as taxas de desaprovação de todos os candidatos estão acima de 50%), o índice de abstenção e de votos nulos e brancos pode ser ainda mais elevado e superar os 30%. É razoável deduzir que a taxa de abstenção será concentrada majoritariamente entre os entrevistados que dizem não ter um candidato ou que pretendem votar em branco ou nulo. E que será menor entre aqueles que manifestam preferência por algum candidato. Portanto, se presumimos que um pouco mais da metade dos eleitores que não tem candidato (excluindo os órfãos de Lula) tende a ficar em casa ou votar em branco ou anular o voto, isso não deixa uma margem muito grande de eleitores a serem pescados pelo candidato do PSDB.

Isso nos leva à segunda razão pela qual que estamos céticos sobre a chance de Alckmin chegar ao segundo turno: para chegar lá, ele terá de roubar votos do Bolsonaro e, em menor escala, de Álvaro Dias. No fundo, as chances eleitorais de Alckmin dependem de uma campanha que consiga a minar a imagem de Jair Bolsonaro. Possível, mas improvável.

O problema é que o voto do candidato do PSL parece razoavelmente consolidado. De acordo com a Datafolha, 12% declaram apoio ao Bolsonaro em uma lista de votos espontâneos, ou seja, quando um entrevistador não dá uma lista prévia de nomes para escolher. Todos os demais candidatos, com exceção do ex-presidente Lula, têm um índice de voto espontâneo entre 1% e 2%. Isso é um sinal claro que em comparação com outros candidatos, Bolsonaro conta com uma base robusta: 12% entre seus 19% a 20% de apoio. Igualmente importante é o fato de que sua imagem representa uma parcela da população que desencantada com a classe política e que valoriza um candidato visto como dono de um "passado limpo", de representar mudança de "tudo que está aí", e forte em assuntos de segurança. Colocamos as chances de Bolsonaro chegar ao segundo turno em 60%.

A terceira, e talvez a mais importante razão pela qual não acreditamos que Alckmin chegará ao segundo turno é o seu perfil de político tradicional, que não condiz com o que os eleitores buscam no próximo presidente. Já está claro que estamos diante de um grau de desencanto profundo nessas eleições, e que corrupção virou um dos temas principais. Se recordarmos que Alckmin representa um partido tradicional, marcado por escândalos de corrupção e identificado com o status quo, isso limita seu potencial de crescimento.

E o Alckmin tem outro passivo. O PT já está dando dicas de sua estratégia nessa disputa: tentar colar a imagem do Alckmin àquela do governo de Michel Temer. É claro que a campanha de Alckmin fará de tudo para descolar-se deste estigma. A decisão do ex-governador ter uma postura distante do presidente Temer no ano passado foi estrategicamente correta, mas não ajuda o fato de que Alckmin conta com o apoio da mesma base parlamentar de Temer. Além disso, o PSDB tem ministros no atual governo. Mas essa estratégia do PT não é um acaso. O partido sabe que suas melhores chances de ganhar a presidência estão em um cenário em que o candidato do PT enfrenta Bolsonaro no segundo turno, não Alckmin.

Tudo isso nos leva a crer que as chances de que Alckmin chegue ao segundo turno dependem do sucesso de uma estratégia de desconstrução de Bolsonaro, uma vez que ele domina boa parte da base eleitoral tradicional do PSDB. Não é por acaso que ele indicou Ana Amélia como vice. Ele tem tempo de TV de sobra para atacar. O fato dessa campanha ser curta (um mês de tempo de TV) não ajuda. Mas se essa estratégia for bem-sucedida (40% de chance), suas possibilidades de chegar ao segundo turno aumentam significativamente. Alckmin tende a ser o maior beneficiário da queda de Bolsonaro. Mas, ainda assim, há chances, mesmo que remotas, de que eleitores do ex-militar e até os simpatizantes de Álvaro Dias migrem para outra candidatura, como a de Marina Silva.

Alckmin tem um caminho para chegar ao segundo turno e vencer a eleição. Ter bastante tempo de TV durante a campanha ajuda a mantê-lo no jogo. Apesar disso, acreditamos que esse caminho seja razoavelmente estreito.

Christopher da Cunha Bueno Garman é diretor-executivo para as Américas da Consultoria Eurasia Group. Originalmente publicado no Braoadcast do Estadão em 16 de agosto de 2018.

Um comentário:

Anônimo disse...

E para mostrar como o Alckmin é ¨mais-dos-mesmos¨: Dentro dos Sindicatos, que são parceiros de CHAPA, já estão ¨trabalhando¨ MAVs profissionais (muitos deles do PT!) na candidatura dele. Eles infestam 24 horas por dia com centenas de trollagens, NICKs falsos e frases-prontas (lembra alguma coisa isso?) principalmente matérias e Posts sobre o Bolsonaro em Sites como Os Antagonistas.