sábado, 5 de janeiro de 2019

Sem novidades no fronte Atlântico


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por H. James Kutscka

Como acontece já a mais de quatro bilhões de anos e meio, nosso planeta essa semana completará mais uma volta ao Sol e o fato será mais uma vez comemorado com muito espumante, fogos e celebrações à vida ao redor do mundo.

No que me cabe dessa festa, estarei retirado ao campo, usufruindo da calma do verde e do ar puro.    

Quanto ao Sol, nestes dias de final de ciclo, me relaciono intimamente através do toque de seus raios que viajam milhões de quilômetros para o encontro.

Mesmo de olhos fechados na espreguiçadeira à beira da piscina onde travo meu dialogo silencioso com o universo, posso notar que a intervalos regulares, nuvens atabalhoadas e inconsequentes me distraem se interpondo entre mim e o eixo do ponteiro do relógio que rege nossa existência, interrompendo a conexão criada entre seus raios e minha pele, desfazendo a simbiose.

Uma saudade de todos que já se foram, incongruente com o privilégio de ainda estar por aqui desfrutando desse diálogo esotérico com os elementos, ameaça ensombrecer o momento, de convivência com o intangível apartando-me dos personagens de meus livros e da criação de meus artigos semanais, como este.

A algaravia das cigarras, vida estridente que me cerca, é sinal inequívoco de que chegou o verão, trazendo preguiça criativa, lassidão e sensualidade, tudo parte do pacote da estação, vantagens da existência neste plano.

Aqui no hemisfério sul, o ano sempre acaba em seu momento mais alegre, embora haja tanta tristeza esquecida nestes dias.

A séculos entra e sai ano sem novidades nessa que já foi a Terra de Santa Cruz.

Nesse final de tarde, perdido em pensamentos para esse último artigo do ano, me lembrei de um tango maravilhoso do grande Astor Piazzola, que também faz parte deste fronte Atlântico, “Balada para um Loco”, maravilhosamente interpretado por Amelita Baltar. Um trecho de sua letra me veio à cabeça: “cuando anochece en su porteña soledad”.

Consigo entender essa solidão portuária do louco da música, e continuando sem falar em política, nesse nosso último encontro do ano, acreditando que o próximo será o primeiro de um novo e mais justo país, me atrevo, como na letra do tango em questão, “repartir essa ternura de locos que hay em mi”, com todos vocês. 

E é só o começo.

H. James Kutscka é Escritor e Publicitário.

Um comentário:

Anônimo disse...

Há décadas a leitura de autores competentes ajuda a aprender o idioma.