segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Apertem os cintos, o piloto não sumiu

Edição especial de Análise Eleitoral do Alerta Total

Por Pedro Porfírio

Se a maioria não quis Lula, uma maioria ainda maior (com perdão da redundância) não queria e continua não querendo Alckmin/tucanos”.

Clovis Rossi, FOLHA DE SÃO PAULO, 27.10.2006

São três da tarde de domingo eleitoral quando começo a escrever esta coluna. Nem que não queira, não posso deixar de falar do Brasil a partir de hoje. Esse Brasil devidamente programado, como escrevi com todas as letras no dia 6 de fevereiro de 2006.

Naquela coluna, fui muito claro ao afirmar que o sistema estava feliz mais da conta com o presidente Luiz Inácio e sua corte. Ele se enquadrava como uma luva nos planos estratégicos de uma integração inteligente do país no mundo oligopolarizado, sob a hegemonia de um império decadente.

Fui direto quando escrevi: “Substrato de todos os sofrimentos da ralé, o companheiro Lula, pau-de-arara, operário e delirante corintiano, converteu-se na fórmula mais aperfeiçoada dos cibernéticos laboratórios do sistema. Sob seu reinado, o proletariado sublima o pão que o diabo amassou, o lumpesinato farta-se com as sobras do banquete e as elites eufóricas estouram a champanha todo fim de expediente”.

Quando falo pau-de-arara, não me ocorre nenhuma discriminação. Eu também sou cearense e estou no Rio de Janeiro desde os 16 anos. Essa é uma “condição heróica” que toca fundo os corações dos nordestinos. Quando a gente parte e vence os desafios, os outros que lá ficaram (falo de uma época diferente e falo por mim) têm sempre um certo orgulho da proeza.
Pois o conterrâneo Lula foi ganhando a confiança dos sumos sacerdotes do sistema simultaneamente com o crescimento de sua popularidade e a reformulação do seu discurso. Passou da química para evitar Brizola no segundo turno em 1989 à melhor alternativa aliada diante do desgaste do tucanato de FHC.

Aliado do sistema

Ao assumir o governo no bojo de uma verdadeira revolução eleitoral fez por merecer. Mudou de lado sem trocar a camisa, passando a cumprir na América Latina, África e parte da Ásia o mesmo papel do trabalhista Tony Blair na rica Europa.

Manteve a política econômica receitada pelo FMI e foi até mais longe: aumentou as metas do esdrúxulo superávit primário (que pelo primeiro acordo com o FMI em 1999 era de 2,6% do PIB e hoje é de 4,25%) e conservou o orçamento atrelado a compromissos da dívida pública, embora isso não passe de um ardil para contingenciar obrigações do governo com investimentos em infra-estrutura, educação e saúde.

Na política externa, ao contrário do que propaga a direita psicótica, é a melhor ponte de Bush junto aos governos que já não rezam por sua cartilha. Quando um nacionalista como Hugo Chávez dissemina a idéia bolivariana de uma pátria latino-americana, é ele quem dá o corte.
Foi assim nas eleições do Peru, em que o sr. Luiz Inácio se colocou ao lado do corrupto Alan Garcia, contra o militar nacionalista Ollanta Humalla; no México, quando torceu por Felipe Calderón contra López Obrador, e no Equador, onde prefere o magnata Álvaro Noboa ao nacionalista Rafael Correa, posições assumidas sob pretextos de que precisa apoiar investimentos brasileiros, especialmente da Petrobrás, e acordos com esses países.

Foi ainda nessa postura de linha auxiliar de Washington que o presidente Luiz Inácio mandou tropas brasileiras para o Haiti, onde permanecem até hoje como parte de um intricado jogo de interesses políticos.

Lula é também o governante ideal para o projeto de paralisação social baseado em políticas compensatórias. Essa idéia é um dos pilares do “Diálogo Interamericano”, a astuta super-ong, encabeçada pelo banqueiro David Rockfeller, do Chase Manhattan Bank.

Esse projeto parte de uma leitura de Karl Marx, (quem diria?) que apontou o lumpesinato como antídoto do proletariado reivindicador no Século XIX. A reserva de mão de obra desempregada seria utilizada como ameaça aos trabalhadores que lutavam contra a jornada de 14 horas.
O sistema internacional, que joga pesado no sucateamento das Forças Armadas e na desfiguração do ensino público, fomenta uma sub-classe de dependentes da caridade oficial, fazendo dela o mais numeroso exército de eleitores fiéis ao gestores dessa ajuda.

O voto de cabresto

Pelo menos 20% dos votos de Lula vieram da rápida disseminação do boato de que só ele era a favor do programa “Bolsa-Família”, em torno do qual gravitam miseravelmente 48 milhões de brasileiros.

O apego desses eleitores ao programa compensatório não é nenhum distúrbio existencial. Do outro lado da gangorra está a redução dos empregos, a queda da renda assalariada e a inviabilização da vida nos grandes centros urbanos, o que produz um retorno traumático da mão de obra não qualificada às suas origens agrárias. Com experiência cosmopolita, grupos de sem-destino correm atrás das terras de uma prometida reforma agrária, que se arrasta e não responde a seus objetivos essenciais.

Ao mesmo tempo em que o governo Lula cumpre religiosamente a cartilha traduzida por Henrique Meireles (leia-se Bankboston) seu colega na super-ong, pela qual galgou o Banco Central, Lula foi capaz de manter uma réstia de esperança entre os mais pobres. E os pobres, como lamentava Oscar Wilde, infelizmente se conformam com muito pouco. Se não for uma cesta básica, até a promessa de uma vida eterna ao lado de Deus já basta.

Já a chamada “sociedade organizada” – leia-se sindicatos, UNE, UBES, ongs que profissionalizaram a solidariedade – foi cooptada de forma direta, participando do governo, ou indireta, através da maldita terceirização com a transferência de recursos do Estado para arapucas particulares.

O que virá daqui para frente boa coisa não será. Engana-se a esquerda delirante que votou no candidato do PT sob o pretexto de livrar-se da OPUS DEI. Engana-se, aliás, provavelmente de propósito, de olho numa sinecura qualquer, como aconteceu com certo intelectual que passou um ano falando mal do governo até que um dia refez sua avaliação.

Uma coisa é certa: o piloto é o mesmo. Não sumiu e está cheio de si, sentindo-se à vontade para dar as piruetas que quiser. Nada mais confortador do que continuar com a chave do cofre, por delegação do povo, mesmo depois de pilhado em tantas travessuras.

Portanto, a partir de hoje, apertem os cintos PORQUE O PILOTO NÃO SUMIU.

Pedro Porfírio é Jornalista. Artigo publicado na Tribuna da Imprensa de hoje.

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