quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Entraves e Desencantos

Edição de Artigos de Quarta-feira do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com

Por Márcio Accioly

Nesta terça-feira, foi aprovada pela CPI Aérea do Senado a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico de Denise Abreu, diretora da desmoralizada Anac. Além desse, foram quebrados também os sigilos de mais oito pessoas envolvidas no caos aéreo que parece não ter fim.

A gota d’água na decisão foi o fato de ter-se descoberto que a Anac havia colocado na internet um documento que proibia as companhias aéreas de pousarem nos aeroportos cujas pistas estivessem molhadas, sem que os reversos das turbinas estivessem funcionando “na mais perfeita ordem”.

Esse documento, levado para a juíza federal Cecília Marcondes (pela diretora da Anac), serviu para fundamentar despacho exarado pela magistrada, no qual ficou liberado o pouso na pista de Congonhas (SP). O aeroporto, até então, estava fechado para determinados aviões.

Acontece que Denise Abreu, em depoimento prestado à CPI, afirmou que o documento era apenas para “apreciação interna” e que não “traduzia a verdade”. Ou seja, como diria o presidente Dom Luiz Inácio (PT-SP), nunca antes neste país havia sido constatado fato semelhante.

Uma representante de órgão oficial, utilizando-se de perigosa artimanha para liberar a pista de um aeroporto, na apresentação de “estudo” não oficial. E 199 pessoas morreram na “brincadeira”. O dito pelo não dito.

Se a proibição do pouso de aviões com problemas iguais ao do Airbus da TAM tivesse continuado em vigor, aquele desastre teria sido evitado. Como explicar isso aos parentes das vítimas? Como esclarecer ação tão degradante para os milhares de turistas estrangeiros que visitam o país?

Pagam-se altos salários às autoridades para que desdenhem do respeitável público. Colocam-se pessoas despreparadas nas funções, apenas por apadrinhamento e compadrio. Não se tem respeito a nada, nem à vida de quem quer que seja.

As instituições funcionam ao deus-dará. Apanhados com a mão na botija, mandatários e representantes do poder público não dão a mínima. Sabem que o risco de serem responsabilizados ou punidos é quase nenhum. O desrespeito é geral.

O Ministério Público de São Paulo já pediu investigação na Anac por “improbidade administrativa e falsidade ideológica”. E os que se arriscam diariamente, nos aviões do país, aguardam com ansiedade o rumo das investigações.

Enquanto isso, o usineiro João Lyra mandou dizer, através de seus advogados, que irá se submeter a uma acareação com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), caso solicitado.

Descobre-se, aos poucos e aos montes, que o Brasil não possui instituições capazes de enfrentar crises em que se vê mergulhado, sem cair na galhofa. Vivemos no mesmo Estado patrimonialista herdado de Portugal.

Já se tentou tudo: presidentes sábios e outros analfabetos, mas o resultado tem sido desastroso. A sociedade vê-se obrigada a pagar conta altíssima, sem que se promova devida retribuição.

Além do mais, a questão da corrupção vai se transformando ou já se transformou em questão cultural de dificílima reversão. E nada se tem feito em direção contrária. Insiste-se na permanência de cenário catastrófico.

Como as pessoas supostamente no comando não têm o menor apreço ou respeito à sociedade, só nos resta esperar e aguardar o desenlace. Que não é promissor.

Márcio Accioly é Jornalista.

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