terça-feira, 28 de agosto de 2007

Quem tem Mandato Tudo Pode

Edição de Artigos de Terça-feira do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com

Por Márcio Accioly

Uma das coisas entre tantas impressionantes, no indecente caso do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), chama particular atenção: sua capacidade de conseguir empréstimos, sem a menor dificuldade, inclusive sacando dinheiro de empresa que diz pertencer a “amigo”.

Dinheiro cujo montante supera o próprio faturamento registrado. Na locadora de veículos Costa Dourada, que tem nas suas fontes de renda alguns órgãos públicos de Alagoas, Renan efetuou 40 saques de 7 de janeiro de 2004 a 1 de julho de 2005, cada qual variando entre três mil reais e quatro mil e 800 reais.

Para se ter idéia do tamanho dessa conta, o segundo empréstimo embolsado pelo presidente do Congresso Nacional, no valor de 99 mil e 300 reais (em 2005), foi maior do que o lucro declarado da empresa naquele ano, 71 mil e 400 reais!

Dizem que o senador é o verdadeiro proprietário da Costa Dourada, registrada em nome de seu primo, Ildefonso Antônio Tito Uchôa Lopes. Esse assunto passou meio despercebido, em função do julgamento do mensalão, na excelente matéria publicada no jornal “O Globo”, assinada por Maria Lima e Jailton de Carvalho (23/08/07).

São tantos os desmandos, e em tão grande número as autoridades envolvidas em falcatruas e desvios, que não se tem condições de acompanhar com detalhes o que acontece velozmente no desmonte criminoso do país.

O que se sabe é que estamos caminhando para desenlace nada alvissareiro. Os que trabalham e pagam impostos, sustentando a escória de Estado formal, começa a gestar perigosa e crescente idéia de que Justiça mesmo só se for com as próprias mãos.

Os fatos se tornam tão banalizados que tudo passa em branco. Os jornais diários informam a liberação de emendas parlamentares e as ofertas de cargos públicos em troca de apoio político e mudança de legendas, sem que se atente para a corrupção explícita mergulhada na ocultação contraditória.

Diante da ausência de providências, vemos policiais pedindo esmolas nas ruas, apagões no setor de transporte (rodoviário e aéreo), saúde e educação, além do fato de o Brasil estar transformado no “paraíso de megatraficantes”, conforme reportagem de primeira página da Folha de S. Paulo no último domingo (26).

Os mecanismos utilizados, na salvaguarda de interesses corporativistas, já não são mais capazes de ocultar o compadrio e cumplicidade sob manto roto de hipocrisia. No circo institucional do país, as aparências não enganam.

O cotidiano da cidadania é verdadeira roleta-russa. Feliz de quem consegue sair de casa e voltar: sem sofrer seqüestro, ser atingido por bala perdida, achacado nos mínimos direitos e respeitado nos pleitos.

O caso do presidente do Senado é emblemático, num país em que não existe instituição forte o suficiente para se contrapor às pressões de crise sistemática que corrói valores e bases de sustentação.

Somos agora um problema cultural. Numa sociedade deformada por apelos consumistas e pornográficos onde nenhuma regra pode ser considerada válida, pois dependente de status social e conveniência dos poderes.

Tudo isso é lamentável e muito triste, considerando-se o enorme potencial do Brasil, dilapidado por predadores irresponsáveis sem qualquer compromisso com desenvolvimento ou grandeza.

O legado que se constrói no dia-a-dia é o da frustração e desesperança. Como se vivêssemos apenas o instante, sem nenhuma perspectiva de amanhã.

Márcio Accioly é Jornalista.

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