sábado, 29 de setembro de 2007

São Francisco: a infausta transposição

Edição de Artigos de Sábado do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com

Por Ney Bassuino Dutra

Num desses dias o presidente Lula declarou pela imprensa que Dom Pedro II, depois outros governantes, tencionaram, em suas respectivas épocas, realizar a transposição do rio São Francisco, mas não fizeram. O presidente Lula diz que vai fazê-la, custe o que custar.
O presidente Lula está investido do poder constitucional e pode, querendo, levar avante essa transposição tão contestada, mesmo que no íntimo admita que, no futuro, venha revelar-se uma grande malfeitoria. Existe, com relação a essa transposição, uma forte oposição popular, nada indicando ser de caráter político ou ideológico. A prudência seria o recomendável.

A primeira coisa a considerar é que a transposição tem diferentes dimensões no tempo. Na época de Dom Pedro II tinha uma dimensão; hoje, já tem outra; daqui a 10, 20, 50 anos deverá ter, forçosamente, outra completamente diferente. Assim, o que hoje pode parecer bom, no porvir poderá afigurar-se nefasto. Em um ponto, entretanto, existe unanimidade: o rio São Francisco necessita, urgente, ser vitalizado, dragado, aprofundado em determinadas partes do leito para, durante as enchentes, armazenar maior quantidade de água.

Da nascente até a foz o rio São Francisco abastece as populações ribeirinhas. Consta serem 415 cidades, 800 vilarejos, num total de 15 milhões de habitantes. Importante: o Ibama garante que a água retirada nessa transposição não irá faltar às populações ribeirinhas dentro de 10, 20, 50 anos vindouros?

A licença para execução da transposição foi concedida pelo Ibama sob veemente protesto de multidões que a consideraram venal. Apontam ser o mesmo Ibama que por mais de 4 anos embarga a construção de duas importantes hidrelétricas no rio Madeira e uma outra no rio Xingu. Murmúrios existem de que alguns órgãos públicos brasileiros mantêm ligações espúrias e recebem ordens emanadas do exterior.

Aliás, não faz muito foi publicado na imprensa artigo assinado por alto dirigente de Associação Comercial denunciando ingerência de dois países do Hemisfério Norte na questão das licenças das usinas do rio Madeira. Essa indignidade está começando a exasperar o povo brasileiro.

O projeto aprovado pelo Ibama de transposição do rio São Francisco prevê a construção de dois canais: um, partindo da barragem de Itaparica, permitindo a água escorrer para Pernambuco e Paraíba; o outro em Cabrobó, com a finalidade de levar água para o Rio Grande do Norte e Ceará. Há quem afirme que os canais poderão apresentar infiltrações e absorver grande parte da água pelo caminho, antes de chegar aos destinos.

Nada obstante, não é preciso ser especialista no assunto para concluir que se trata de obra enganadora, sem condições de abastecer os 12 milhões de moradores dos estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, como consta do projeto aprovado. Até o Tribunal de Contas da União opinando declarou que a transposição não beneficiará o número de pessoas pretendido.

Uma estiagem imprevista atingindo a bacia do São Francisco poderá ocasionar transtornos para o Ibama e o governo. Nenhum país no mundo dispõe de tanta água potável quanto o Brasil. Os rios mais ao norte, Araguaia, Tocantins, Amazonas (rio mar), Xingu, Tapajós constituem fontes perenes de proporções adequadas para abastecer de água não apenas as poucas localidades pretendidas nessa infausta transposição, senão todo o interior sedento do Nordeste e do Centro-Oeste que se estende até o norte de Minas Gerais.

O governo Lula-PT poderia, pelo menos, ter iniciado a construção de uma grande obra hidráulica de infra-estrutura nonumental, redentora, captando água nos rios citados por meio de canalizações gigantes, interligadas, fazendo o transporte da água do Norte em direção ao Centro-Oeste, transformando em verdadeiros celeiros terras improdutivas.

E possibilitando a realização de reforma agrária digna, sem invasões criminosas. Só a construção de uma obra dessa importância, mesmo que não fizesse mais nada, o cidadão Lula seria saudado como o maior homem público de todos os tempos. Os entreguistas logo dirão que não temos dinheiro. Infelizes impatriotas! Exige menos recursos e é mais fácil do que erguer uma capital (Brasília).

Um dia um brasileiro, destemido, exercendo a presidência da República, concretizará essa tarefa de importância vital. Até lá, os irmãos nordestinos irão confirmar clamando por socorro!

Ney Bassuino Dutra é economista. Originalmente publicado na Tribuna da Imprensa de 22/09/2007

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