quarta-feira, 17 de outubro de 2007

A patifaria vira normalidade

Edição de Artigos de Quarta-feira do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com

Por Márcio Accioly

Dia desses, cidadão desencantado na mesmice político-administrativa da vida nacional teve sonho inquietante do qual não mais se recuperou. Cansado de inacreditáveis denúncias que permeiam o cotidiano, e de indiciamentos de autoridades das mais respeitáveis, ficou com a idéia a lhe cutucar o juízo, coisa quase obsessiva.

E teve visão em que a oposição finalmente alcançava o poder. FHC ganhara a Presidência, trazendo nova equipe e acenos de promissor futuro.

No Ministério da Educação, colocou de volta Paulo Renato, a quem os jornais do dia seguinte ao sonho acusaram (com prova), de submeter à aprovação prévia do presidente do Bradesco texto que iria publicar na Folha de S. Paulo. O mal-estar foi tão constrangedor que o próprio autor decidiu suspender a veiculação do escrito.

Na Secretaria de Assuntos Estratégicos, órgão vinculado à Presidência da República, FHC reentronizou Ronaldo Sardenberg, responsável pelo acerto da entrega da Base de Lançamento de Alcântara (MA), aos EUA, quando aconteceu grita generalizada e acharam por bem dar última forma na decisão.

Isso aí foi durante o primeiro mandato, quando se vislumbrou a hipótese de deixar certo espaço para os brasileiros que quisessem visitar àquele município, já que os norte-americanos iriam emitir crachás e autorização especial para nativos que ali quisessem circular. Tudo com hora marcada.

E Pedro Malan, Pedro Parente, Armínio Fraga, todos acusados de entreguistas pelo PT do hoje presidente Dom Luiz? Foram imediatamente convocados, aplaudidos pelo senador Cristóvam Buarque (PDT-DF), defensor incontestável dos “notáveis rumos” por eles traçados para a economia do país.

Na Defesa, segundo o sonhador, continuava Nelson Jobim, que depois de vestir farda de bombeiro em Guarulhos, e de general quatro estrelas no Haiti, havia segurado sucuri de mais de 10 metros no Amazonas, uma onça pela coleira (no mesmo estado) e andava agora metido numa fantasia de general da banda, feliz a tocar clarinete.

Constava ainda estar pronto para cavalgar um crocodilo, no rastro do australiano Steve Irwin, morto por arraia ao nadar ao lado de um daqueles peixes elasmobrânquios da ordem dos rajiformes, na Grande Barreira de Arrecifes daquele país.

Os pessimistas, ao ouvirem a história do sonho, cuidavam logo de colocá-lo no rol de pesadelos, embora os integrantes do novo governo fossem quase todos recém-chegados (velhas faces) e boa parte das dezenas de Ministérios extinguida.

Tinha gente a insistir na possibilidade de grave convulsão social, embora alguns argumentassem, com lógica, que só quem entra mesmo pelo cano são determinados setores das classes médias e que, nos extremos, banqueiros e eternos miseráveis estavam bem atendidos.

Os banqueiros, com taxas de juros sempre generosas, sacadas na riqueza produzida pelos que trabalham e se dependuram em contas infindas, enquanto os miseráveis continuavam servidos por diversos programas bolsas-esmolas, ampliados, forma de tê-los sempre submetidos. O voto tornara-se garantido.

De maneira que tudo parecia funcionar a contento, num país onde não se lê, nem se estuda e no qual apenas meia dúzia tem consciência e idéia dos ocorridos.

Cacciola havia sido trazido de volta ao Brasil, numa onda de moralidade em que se dizia que agora a coisa vai, mas dez ou quinze dias depois um habeas-corpus fez o serviço, pois, afinal, há de se respeitar o direito e os valores dentro de sistema bem elaborado e onde tudo se mostra muito melhor ainda construído.

Márcio Accioly é Jornalista.

Nenhum comentário: