domingo, 2 de março de 2008

Bom filho da Ética

Edição de Artigos de Domingo do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com

Por Márcio Accioly

Como se sabe, a imprensa é de fato culpada pela maioria dos males existentes no mundo. Se nada de ruim fosse noticiado, viveríamos muito melhor, sem aborrecimentos desnecessários e estaríamos todos mergulhados em indestrutível clima de otimismo.

Poder-se-ia estabelecer um pacto, deixando a mídia de veicular por determinado período os crimes de morte, seqüestros e mutilações por balas perdidas, criando, quem sabe, ambiente de paz, confraternização e amor.

O problema é que, depois do satélite, internet, celular e outros apetrechos trazidos pela tecnologia, a informação passou a ser disseminada em tal velocidade que não se tem mais como estancar a sangria. Tudo que é desgraça cai diretamente no nosso colo, tão logo aconteça.

Nos últimos dias, o ministro do Trabalho, Carlos Lupi (PDT-RJ), vem sendo encostado no canto da parede com denúncias de todos os naipes a respeito de convênios sobre os quais se levantam suspeitas. Mas sua excelência não dá o braço a torcer.

Declarou de imediato estar “profundamente magoado” e esclareceu não ter preocupação com a ética, porque nasceu na ética. Disse-o e fez muito bem, embora setores da imprensa não se conformem e continuem a procurar chifres em cabeça de cavalo.

Pois foi esse ministro, “nascido na ética”, quem decidiu, depois de cutucado pela feroz imprensa, cancelar convênios suspeitos com as entidades Grupo Mulher Maravilha (PE), Associação São Vicente de Paula (interior de São Paulo) e Instituto Data Brasil, na Capital paulista. A informação foi destacada no blog do Josias de Souza.

Apesar de defender a probidade, inteireza e incorruptibilidade, esse filho da ética, a quem o presidente Dom Luiz Inácio (PT-SP), classificou de “o mais republicano de seus ministros”, tem encontrado dificuldades crescentes.

No sábado (1), o jornal O Globo grafou na primeira página que “Lupi deu R$ 10 milhões a ONG que Marina rejeitou”. Matéria na página 4, assinada por Maiá Menezes, Tatiana Farah e Vítor Machado, relatou que o PDT de São Gonçalo (RJ), exige título de eleitor no cadastramento do programa Juventude Cidadã.

O programa, com recursos provenientes do Ministério do Trabalho, destina-se à capacitação profissional do jovem. O presidente do PDT daquele município, Henrique Porto, explicou que a exigência do título eleitoral é somente para atestar o endereço residencial. Ah, tá!

Carlos Lupi estava na Serra Gaúcha quando foi alcançado pela reportagem de O Globo para falar sobre o assunto. Como todo bom filho da ética, lançou dardos em todas as direções, desafiando tribunal, investigação, procuradoria, TV, rádio e jornal “a encontrar um desvio de recurso”.

Com tanta veemência, certamente sua excelência está mais do que coberto e garantido. Não é a toda hora que autoridade brasileira jura de pés juntos ter contas limpas e passado exemplar que serve de modelo a seguidores e apaniguados.

Quem será capaz de acreditar que o dinheiro público é utilizado em programas de cunho meramente eleitoreiro, dentro de velha prática franciscana do é dando que se recebe? Será que ainda existe a indústria de compra de votos?

Tem razão Carlos Lupi, ao desafiar a tudo e a todos, exigindo provas concretas nas acusações. E apesar de não ter voto e ter perdido todas as eleições (segundo Hélio Fernandes, na Tribuna da Imprensa), o ministro tem lutado com unhas e dentes e rebatido com ferrenho vigor, agindo, sempre, como um bom filho da ética.

Márcio Accioly é Jornalista.

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