quarta-feira, 5 de março de 2008

Hugo Chávez nunca será Simon Bolivar

Edição de Artigos de Quarta-feira do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com

Por Maria Lucia Barbosa

Novamente o astuto Hugo Chávez conquistou manchetes de primeira página nos principais jornais do país. O Estado de S.Paulo (03/03/2008) destacou: “Chávez mobiliza tropas na fronteira com a Colômbia”. E a Folha de S. Paulo, na mesma data, repetiu a notícia em letras garrafais: “Chávez mobiliza tropas contra a Colômbia”.

O motivo do ímpeto bélico do ditador de fato da Venezuela, que está armado até os dentes, foi a morte de Raúl Reys, numero dois na escala do comando dos bestiais narcoguerrilheiros das Farc que mantêm, com requintes de campo de concentração, prisioneiros políticos e pessoas indefesas. As torturas e humilhações são feitas em nome do povo e justificadas pela causa.

Reys foi morto com outros companheiros em um acampamento no Equador, e é de se perguntar o que estariam fazendo esses bandidos travestidos de salvadores da pátria em outro país. De todo modo, o presidente equatoriano, Rafael Correa, um dos seguidores de Chávez, se apressou como este a fechar sua embaixada em Bogotá.

Chávez é um falastrão e com sua retórica teatral e esperta conquista mentes e corações. Seu comportamento é populista. Sua alma é a de um caudilho. Suas ações são ditatoriais. Sem dúvida, elementos que fazem sucesso na América Latina. Acostumado a jogos de cena usou a libertação de reféns das Farc como golpe internacional de marketing para que aparecesse como líder benevolente. Mas, ao mesmo tempo, pediu que aos seus queridos companheiros facínoras fosse retirada a denominação de terroristas.

Diga-se de passagem, que o presidente Lula da Silva certa vez recusou ao presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, tal denominação para os angelicais malfeitores, atitude, sem dúvida, ligada à solidariedade existente entre companheiros do Foro de S.Paulo, entidade de esquerda da qual Lula foi um dos fundadores.

Hugo Chávez, que vem se perpetuando no poder através de sucessivas eleições, que de legalidade só têm a aparência, pois derivam das manobras do caudilho, se apresenta como a reencarnação de Simon Bolívar sem a envergadura do marcante líder latino-americano, nascido em Caracas em 24 de julho de 1783.

Bolívar era de uma família rica, dona de muitas terras. Aos 14 anos teve iniciação militar chegando a subtenente e mais tarde a coronel. Sua educação foi feita em Caracas, mas ele ampliou sua visão de mundo em viagens a vários países da Europa, tendo estado em particular na Espanha. Bolívar apreciava as atividades de ordem intelectual e a leitura, mas se destacou como líder político e militar tendo participado ativamente da difícil luta da independência da Venezuela do domínio espanhol, o que lhe valeu o título de Libertador. Em 5 de julho de 1811 a independência da Venezuela foi formalizada sem unanimidade na adesão das províncias.

Representante da “elite crioula”, Simon Bolívar idealizou, primeiramente em moldes liberais, uma grande nação latino-americana. Seu sonho era o de formar pelo menos uma confederação de grandes Estados que servissem de contrapeso ao poder dos Estados Unidos.

De início essa confederação seria formada pela Nova Granada, Venezuela, Equador (unidades que constituíam a Colômbia), Peru e Bolívia, e esses Estados teriam um governo comum. Mas as dificuldades para manter a unidade da confederação foram intransponíveis e no final de 1829 eclodiu na Venezuela o movimento separatista que posteriormente se estendeu aos outros Estados.

Bolívar acabou derrotado pela doença e pela tristeza de ter seus sonhos desfeitos. Longas e difíceis lutas o tornaram prematuramente envelhecido aos 47 anos de idade e veio a falecer em 17 de dezembro de 1830.

Bolívar, de início liberal, acabou se tornando um ditador, mas nunca foi socialista e Hugo Chávez jamais alcançará sua trajetória. Em 1830, ano de sua morte, afirmou o Libertador externando toda sua desilusão: “A América Latina é, para nós, ingovernável”. “Se acontecesse que uma parte do mundo voltasse ao caos primitivo. Isso seria a última metamorfose da América Latina”.

Se numa hipótese Hugo Chávez invadisse a Colômbia, o Brasil o acompanharia? Acredito que pela vontade e gosto de Marco Aurélio Garcia, o chanceler de fato, isso se daria. Mas a profunda amizade de Lula da Silva pelo companheiro da boina vermelha já não parece a mesma, apesar do líder petista ter seguido de certa forma os passos de Chávez na senda do autoritarismo. E quando o presidente da República hostiliza de forma vulgar e brutal os outros Poderes, como fez agora com o Judiciário, parece se exercitar no estilo chavista, o que levanta a suspeita de que partirá para o terceiro mandato.

De todo modo, percebe-se a competição dos egos descomunais de Lula e Chávez e o apoio brasileiro ao vezo hitlerista do venezuelano não está definido. A menos que Chávez esteja apostando na vitória de Barack Obama, mulçumano com fortes ligações com a esquerda radical, como denunciam a bandeira de Cuba e a foto de Che Guevara em seu escritório oficial de campanha, em Houston. Se Obama vencer, possivelmente a política mundial dará uma volta e tanto. Então, Chávez seguirá tranqüilamente em seus intentos e Lula irá atrás.

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.

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