domingo, 11 de maio de 2008

Clássicos da literatura universal adaptados para cá

Edição de Artigos de Domingo do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com

Por Arlindo Montenegro


Pra começo de conversa, declaro que sou um dos muitos homens divididos entre a realidade e o sonho. Reconheço que, entre o mundo real da sobrevivência custosa e o desejo utópico de viver em paz e liberdade, há uma cratera de medos e incertezas difíceis de preencher.

Ociosamente viciado, leio jornais e blogs também viciados sem conseguir chegar a uma conclusão sobre o que querem. Todos parecem insatisfeitos com o mundo real que criticam. O mundo real segue em sua marcha natural, que parece lenta para os que discutem e se agridem sem perceber que têm mais que fazer, longe dos palanques e claques dos discursos políticos.

Falta uma Távola Redonda confiável para a negociação e comprometimento com soluções universais. O nó que nos faz sofrer está no sofrimento dos outros, daqueles bilhões de marginalizados que apenas sobrevivem, mecanicamente, repetindo as tarefas do dia a dia: arar, ordenhar, plantar, colher, medir, pesar, colocar numa caixinha, transportar e oferecer no comércio ou na feira. Os que têm como lazer a igreja, o baile, o namoro, a conversa do botequim, o repente na feira semanal e a esperança em não sei quê.

Somos todos mais sofisticados e como não pegamos na enxada, ficamos caraminholando novidades em vez de deixar que cada um descubra, escolha e conquiste o que quer. Quem sabe não seria este um comportamento mais humano e útil? Mas não! Nossa cachaça é criticar os governantes, homens nobres, honestos, que dão um duro danado, estudando, decidindo o que é melhor para todos. Eles decidem, nós executamos. Eles faturam (a credibilidade, claro!) e nós ficamos devendo (os impostos, claro!)

Quando a coisa fica muito descontrolada, nós, que tivemos o privilégio do acesso às letras, podemos torcer o nariz para “O pequeno príncipe” ou a farta literatura do mago que faz ventar e chover. E nos enfurnamos em Фёдор Миха́йлович Достое́вский, preferencialmente Crime e Castigo ou no inferno da Divina Comédia dantesca. Dormimos em paz: o que pensamos sobre a humanidade coincide com os grandes mestres.

Amanhece um novo dia e com a ajuda indispensável do Sancho Pança mental, (figurinha que tenta colocar luz em nossa confusão mental), vestimos a armadura. O elmo é a máscara do dia. Tomamos a lança, embarcamos no rocinante e vamos à luta! Vamos salvar o mundo da ignomínia.

Pra não copiar Cervantes, mudamos o nome da dama Dulcinéia Del Toboso para Democracia da Liberdade Utópica! Apenas divisamos sua face e perfil. Nunca experimentamos de fato as delícias do seio da nossa dama. E cada um a imagina com roupagens de cores diferentes, cheiros e mistérios desconhecidos.

A cada dia convidamos outros a montar no Rocinante que nosso Sancho ajazeou. Vamos sair pela vida fazendo ou deixando de fazer, votando ou deixando de votar, apoiando ou deixando de apoiar, pagando ou deixando de pagar. Vamos manifestar a indignação, escrever para o Deputado, xingar, espernear, protestar, identificar mais leseiras, adivinhar novos movimentos predatórios dos que mandam no mundo.

E quem manda no mundo? São aqueles que vivem em castelos, gastam milhões de dólares para eleger governantes e legisladores, mantêm a propaganda que possibilita a sobrevivência das emissoras de tv, rádios, jornais, revistas, campanhas, empresas de pesquisa. São proprietários de grandes bancos internacionais e empresas com negócios em cada canto do planeta. Compram os cérebros mais inquisidores e subsidiam a pesquisa de ponta. São os senhores da paz ou da guerra. São grandes jogadores e sabem blefar como ninguém. Embaralham as cartas da informação e dos fatos históricos com destreza de fazer inveja ao mais habilidoso crupiê.

Continuamos a leitura de notícias e blogs de esquerda, direita, centro, meia sola, cristãos, nazistas, mussulmanos, terroristas e dá pra concluir que cada um puxa a brasa pra sua sardinha única e verdadeira. Cada um tenta convencer o outro que bananeira dá laranja, coqueiro dá caju e menina direita dá sopa. Diante de nós o Moinho de Vento que tentamos vencer. Acabamos pendurados. Sancho nos ajuda.

Pra fim de conversa, fica o conselho do magro D. Quixote ao gordo Sancho:

“Come pouco, que a saúde de todo o corpo se forja no estômago. Sê moderado no beber, que o vinho em excesso não guarda segredos nem cumpre promessas... e não eructes diante de ninguém”.

- Isso de eructar eu não entendo, senhor!

- Eructar, Sancho, é como a gente educada chama arrotar. A delicadeza apelou para o latim e mesmo que alguns não entendam, não importa.

- Vou seguir seu conselho senhor, pois arroto muito.

- Eructar, Sancho!

- Tá bom, de hoje em diante só eructar.

Arlindo Montenegro é Apicultor e eructador.

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