sábado, 10 de setembro de 2011

A Grande Promessa e a Grande Ameaça

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Flavio Lyra

A capacidade de prevenção dos seres humanos diante dos perigos que rondam suas vidas é normalmente reduzida, mormente quando se trata de realizar ações coletivas. Não sem razão, existe o dito popular que “só fechamos a porta depois que somos assaltados”. Muitas das catástrofes naturais que ceifam tantas vidas, certamente poderiam não ocorrer ou ter seus efeitos destrutivos minimizados se os seres humanos atuassem de forma coletiva e preventiva.

Há, porém, um tipo de ameaça, talvez muito mais grave do que os cataclismos naturais, que é ainda mais negligenciado e mesmo intencionalmente ocultado pelos interesses envolvidos, representado pelas formas de organização econômica e política adotadas pela humanidade com vistas a atender suas necessidades materiais e culturais.

Nossas sociedades atuais, como fruto do processo iniciado com a Revolução Industrial na Inglaterra por volta de 1750, foram conformadas em torno da empresa capitalista, entidade cuja essência é a propriedade do capital por indivíduos ou grupos sociais minoritários e a busca do lucro como sua finalidade precípua, a qual é a base do Estado Nacional como ente coletivo com jurisdição sobre os indivíduos que habitam um dado território.

Essa forma de organização trouxe substanciais resultados positivos para as regiões em que se desenvolveu mais intensamente, inicialmente alguns países da Europa, depois os Estados Unidos, posteriormente o Japão e mais recentemente a China. Outros países também receberam os benefícios desse tipo de organização social, porém em muito menor medida.

O avanço do conhecimento científico e de sua incorporação à atividade produtiva, com o crescente domínio das forças da natureza e o aperfeiçoamento da organização trabalho, tem permitido elevar continuamente a produtividade do trabalho, fator decisivo para o sucesso alcançado.

O tipo de desenvolvimento propiciado pela empresa capitalista revelou-se, porém, desde suas fases iniciais, altamente problemático para o bem-estar-social, desde vários pontos de vista.

Primeiro. Levou a uma alta concentração do poder econômico nas mãos da classe dominante de uma minoria de países e relegou, até os dias atuais, mais de dois terços da população mundial a condições precárias de existência.

Segundo. Mesmo nos países onde foi bem sucedido, gerou grandes desigualdades sociais. No país que se tornou a maior potência econômica do mundo, os Estados Unidos, a já elevada concentração, nos últimos 30 anos cresceu substancialmente. De acordo com estudo recente realizado por Atkinson, Picety e Saez (1), 59% do crescimento da renda ficou nas mãos do 1% mais rico da população. A situação em outros países não difere substancialmente desse percentual.

Terceiro. Conduziu a um sistema internacional altamente hierarquizado, no qual os países inicialmente melhor sucedidos, com o uso dos poderes econômico e militar, submeteram os demais povos a formas opressivas de domínio e exploração. É sabido que entre o final do Século XIX e primeiro quarto do Século XX, as grandes potências dividiram o mundo entre si criando vastos impérios, que de certa forma ainda se mantêm, embora tenha mudado a influência relativa dos centros hegemônicos. A Inglaterra foi sucedida pelos Estados Unidos, depois das duas grandes guerras mundiais

Quarto. Foi mantido um clima permanente de disputa entre as grandes potências pelo poder mundial, apoiado no desenvolvimento de uma massiva e altamente destrutiva indústria de armamentos, levando a duas grandes guerras mundiais, algumas guerras civis terríveis e várias guerras menores entre os países centrais e os periféricos, por eles dominados. Vários milhões de vidas e vasta destruição de cidades e infraestruturas decorreram dessas guerras.

As grandes potências mundiais dependem crescentemente para o atendimento de suas necessidades de energia e de matérias primas de fontes localizadas fora de seus territórios e são obrigadas a manter bases militares em várias partes do mundo (existem atualmente cerca de 600 bases militares dos Estados Unidos espalhadas pelo mundo) e imensas frotas navais circulando pelos mares, destinadas a assegurar o controle dessas fontes. A invasão dos Estados Unidos no Iraque e das forças da OTAN no Afeganistão são desdobramentos dessa situação.

Quinto. Produziu-se a devastação progressiva das condições ambientais, e dos recursos naturais, levando ao quadro atual em que a própria vida na terra acha-se ameaçada pelas mudanças climáticas derivadas do lançamento de CO2 na atmosfera, o que coloca em risco a própria sobrevivência da humanidade. A isto, acrescentem-se os riscos associados ao vasto arsenal de armas atômicas e de destruição em massa existente nas grandes potências, mas que atualmente já se difundiram para outros países, como são os casos da China, da Índia e do Paquistão e, talvez, de Israel, que já detêm artefatos atômicos de fabricação própria.

Em síntese, indiscutíveis benefícios foram trazidos à humanidade pelo desenvolvimento da produção para o atendimento das necessidades humanas, utilizando as forma de organização econômica baseada na empresa capitalista. Estes, porém, vieram acompanhados de resultados altamente perniciosos para a grande maioria dos habitantes da terra. Foram desenvolvidas potencialidades impensáveis, através da ciência e da tecnologia, mas paralelamente foram desacorrentadas forças diabólicas que concentram os benefícios nas mãos de poucos, oprimem a maioria e ameaçam destruir a vida no planeta.

Por certo, este não é um tema novo e pensadores notáveis têm dedicado esforços interpretativos da situação e propositivos de formas alternativas de organização econômica e política que preservem o lado positivo e impeçam a ação das forças destrutivas. É preciso reconhecer que os interesses ligados as formas de organização atuais impedem, através da ideologia e, quando necessário, do uso da força que, tanto a classe dominante, quanto a massa da população tornem-se conscientes da situação e se organizem para mudá-la.

Nossas sociedades foram escravizadas por uma forma de organização econômica que subordina o poder político ao poder econômico. Poder econômico este alicerçado numa concepção individualista do mundo, que aceita que atividade econômica deva ser exercida em função de objetivos privados e que, por essa mesma razão, impede a adoção de uma visão integrada dos interesses sociais. Nessa forma de organização o interesse social aparece sempre a posteriori, como resultante das ações desarticuladas entre das partes que constituem o sistema como todo. É ao mercado que cabe o papel de realizar a coordenação entre as empresas, mas que o faz precariamente, dando origem a crises econômicas devastadoras, paradoxalmente capazes de transformar a abundância em escassez.

A forma de organização econômica atual está envelhecida e desprovida da capacidade de solucionar os problemas a que ela própria deu origem. Somente o fortalecimento do poder político a partir de formas democráticas de organização assentadas na maioria da população, poderá criar as condições para o aparecimento de nova forma de organização econômica, voltada aos interesses da maioria da população.

Enquanto não for possível avançar nessa direção, a humanidade continuará sujeita a crises econômicas, a guerras, aos males produzidos pela desigualdade econômica e social e à destruição da natureza.

O grande perigo que nos ameaça consiste, portanto, na ordem econômica em que vivemos, criada pelo homem, mas que fugiu ao controle social, capaz de produzir resultados inimagináveis no domínio da ciência e no plano da produção de bens e serviços e, ao mesmo tempo, de produzir destruição e infelicidade para a maioria dos seres humanos.

O agente principal dessa ordem á a grande empresa capitalista (e as oligarquias a elas vinculadas) que, através do controle da produção estabelece a quantidade e qualidade dos bens materiais e culturais que consumimos, para o que se valem do controle dos meios de produção e de comunicação, assim como da propaganda direta e subliminar por estes veiculada.

É ela que, nos bastidores do poder, influencia os dirigentes políticos para deflagrar guerras destinadas a controlar territórios, recursos naturais e mercados, que lhes são altamente lucrativos, através da venda de armamentos e suprimentos para as forças combatentes.

É ela que determina as condições em que as pessoas podem trabalhar e obter os meios para sua sobrevivência.

É ela que financia as campanhas eleitorais que escolhem nossos representantes políticos e os controla em função de seus interesses privados.

É ela que corrompe dirigentes e funcionários públicos, como parte da guerra competitiva no ambiente empresarial em busca do lucro.

Em síntese, o grande perigo que nos ameaça está bem próximo de nós, mas não conseguimos vê-lo, nem nos organizarmos para domesticá-lo, evitando que prossiga em sua sanha destrutiva, e possibilite aproveitar seu lado positivo em favor do bem-estar social. Gastamos nossas energias protestando contra os efeitos negativos que nos afetam, mas nos faltam forças mentais e materiais para combater suas causas.

Flavio Lyra é Economista. Cursou do Doutorado de Economia na UNICAMP. Ex-técnico do IPEA.


(1) “Top Incomes in the Long Run History”

2 comentários:

Anônimo disse...

disputam interesses inconfessáveis por riquezas universais:

Will disse...

ai se tem alguem muito camarada que pensa em ajudar alguem finaceiramente com doação de dinheiro, por favor doe para mim que estou precisando muito construir uma casa pois minha casa de madeira esta quase que condenada, preciso urgentemente de doação, e depois que eu conseguir publicarei um blog no google.de agradecimentos por todos que me ajudarem com qualquer quantia de doações.
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