segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Triste realidade

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Roberto da Matta

Quando o hígido Michel Temer vira poeta e Renan Calheiros - acusado pela Procuradoria Geral da República de peculato, falsidade ideológica e uso de documento falso - é apossado (com voto secreto - o voto da covardia) na Presidência do Senado Federal no posto número 3 da sucessão republicana e entra no papel dando uma aula de ética e com apoio do PSDB, um lado meu pergunta ao outro se não estaria na hora de sumir do Brasil.

Se não seria o momento de pegar o meu chapéu e deixar de escrever, abandonar o ensino das antropologias, desistir do trabalho honesto, beber fel, tornar-me um descrente, aloprar-me, abandonar a academia (de ginástica, é claro), deixar-me tomar pela depressão, desistir de sonhar, aniquilar-me, andar de joelhos, dar um tiro no pé, filiar-me a uma seita de suicidas, mijar sentado, avagabundar-me, virar puxa-saco, fazer da mentira a minha voz; e - eis o sentimento mais triste - deixar de amar, de imaginar, de ambicionar e de acreditar. Abandonar-me a esse apavorante cinismo profissional que toma conta do País - esse inimigo da inocência -, porque minha cota de ingenuidade tem sido destroçada por esses eventos. Eu não posso aceitar viver num país que legaliza a ilegalidade, tornando-a um valor. Eu não posso aceitar um conluio de engravatados que vivem como barões à custa do meu árduo trabalho.

"A ética não é um objetivo em si mesmo. O objetivo em si mesmo é o Brasil, é o interesse nacional. A ética é obrigação de todos nós e é dever deste Senado", professa Renan Calheiros, na sua preleção de po(s)se.

Para ele, a ética, o Brasil, o dever, o interesse e as obrigações são coisas externas. Algo como a gravata italiana que chega de fora para dentro e pode ou não ser usada. Façamos uma lei que torne todo mundo ético e, pronto!, resolvemos o problema da cena política brasileira - esse teatro de calhordices.

A ética não é a lei. A lei está escrita no bronze ou no papel, mas a ética está inscrita na consciência ou no coração - quando há coração... Por isso, ela não precisa de denúncias de jornais, nem de sermões, nem de demagogia, nem da polícia! A lei precisa da polícia, o moralismo religioso carece dos santarrões e as normas, de fiscais. A ética, porém, requer o senso de limites que obriga à mais dura das coragens: a de dizer não a si mesmo e, no caso deste Brasil impaludado de lulopetisto, a de negar o favor absurdo ou criminoso à namorada, ao compadre, ao companheiro, ao irmão, ao amigo.

"O Zé é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo!", eis a cínica palavra de ordem de um sistema totalmente aparelhado e dominado pelo poder feito para enriquecer a quem o usa, sem compostura, o toma lá dá cá com tonalidades pseudoideológicas, emporcalhando a ideologia.

Quem é que pode acreditar na possibilidade de construir um mundo mais justo e igualitário no qual a esfera pública, tocada com honestidade, é um ideal, com tais atores? Justiça social, honestidade, retidão de propósito são valores que formam parte da minha ideologia; são desígnios que acredito e quero para o Brasil. Ver essa agenda ser destruída em nome dos que tentaram comprar apoio político e hoje se dizem vítimas de um complô fascista, embrulha o meu estômago. Isso reduz a pó qualquer agenda democrática para o Brasil.

O cínico - responde meu outro lado - precisa (e muito) de polícia; o ético tem dentro de si o sentido da suficiência moral. Ela ou ele sabem que em certas situações somente o sujeito pode dizer sim (ou não!) a si mesmo. Isso eu não faço, isso eu não aceito, nisso eu não entro. É simples assim. A camaradagem fica fora da ética, cujo centro é o povo como figura central da democracia.

O que vemos está longe disso. Um eleito condenado pelo STF é empossado deputado, Maluf - de volta ao proscênio - sorri altaneiro para os fotógrafos, um outro companheiro com um passado desabonado por acusações vai ser eleito presidente da Câmara; a presidente age como a rainha Vitória. E o Direito: o correto e o honesto viram "direita". Entrementes, a "esquerda" tenta desmoralizar a Justiça porque não aceita limites nem admite abdicar de sua onipotência. Articula-se objetivamente, com uma desfaçatez alarmante, uma crise entre poderes exatamente pela mais absoluta falta de ética, esse espírito de limite ausente dos donos do poder neste Brasil de conchavos vergonhosos e inaceitáveis. Você, leitor pode aceitar e até considerar normal. Eu não aceito!

Roberto da Matta é Antropólogo. Originalmente publicado nos jornais O Globo e Estadão de 6 de Fevereiro de 2013.

4 comentários:

Anônimo disse...

“Você, leitor pode aceitar e até considerar normal. Eu não aceito!” Não meu caro, o povo, a maioria pelo menos e a maioria é o que conta, não aceita. Estamos apenas impotentes, como você. Não temos mais ninguém do nosso lado. Só guerra agora,... mas para isso precisamos de uma F.As que também não temos. Tchau...

Anônimo disse...

O Brasil atual fede.

José Antonio disse...

Senado.
Sai um pilantra velho e entra um velho pilantra.
Não é por acaso que o Estado do Maranhão, terra de José Sarney, ex-presidente do Senado, que é dominado pela sua família nos últimos 46 anos, possui o 2º pior IDH do Brasil e o Estado de Alagoas, de onde vem o atual presidente do Senado, Renan Calheiros, apresenta o menor IDH do Brasil (0,677), equivalente ao IDH do Gabão, 119º do mundo.
Pelo que parece, para ser presidente do Senado o pré-requisito é ter em seu Estado o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, obtido com muito "esforço" em benefício próprio, com a completa desatenção aos eleitores e não eleitores acabrestados das suas respectivas terras natais. Infelizmente, o "coronelismo", resquício da escravidão, ainda vigora no Brasil do Século XXI.
Outra "coincidência" é o fato de que Sarney, do Maranhão, e Fernando Collor, de Alagoas, foram presidentes do país, alias, péssimos presidentes. O primeiro gerou uma inflação estratosférica e o outro roubou o dinheiro dos poupadores e da União e acabou o mandato em impeachment.
O acabrestamento de eleitores, ao invés de acabar, tomou dimensão nacional com os bolsas "disso e daquilo", que são concedidos sem cobrança e fiscalização para que não se perpetuem. Logo, na cabeça de nossos governantes não existe interesse nenhum de que se melhore a educação, haja vista que se o eleitor descobrir os seus direitos e em quem tem votado, eles correm o risco de não se elegerem nunca mais, pois a consciência política só frutifica com o adubo da educação.
É triste dizer, mas nossa tenra democracia teve pouquíssimos momentos de verdadeiras realizações, sendo os mais importantes, ao meu ver, a campanha das diretas já, a manifestação nacional dos caras pintadas, a criação do Real e, recentemente, as deliberações que nós pudemos acompanhar dos debates entre os Ministros do Supremo Tribunal Federal, quando nos foi possível avaliar o comportamento de cada um deles e nos fez pensar que a maneira que são nomeados é totalmente anti-democrática e irreal, não resultando na isenção que se espera da alta casa da justiça, apesar do resultado do julgamento do mensalão, que, com certeza, demorará para ser cumprido, se o for.

Anônimo disse...

http://safreire.blogspot.com/2012/03/eleicoes-simepe-nota-publica.html acesso no dia 13-03-2012

http://secao1.blogspot.com.br/2012/03/superintendente-do-imip-pe-pode-ser.html

Uma “organização social” (OS) privada, das maiores do Brasil, que hoje tem contrato bilionário com o governo de Pernambuco e se expande por outros estados. Será que ela quer substituir o SUS?

Parece que estamos diante de mais um capítulo da história da privatização na saúde.