terça-feira, 26 de agosto de 2014

Quanto vale uma medalha


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Paulo Roberto Gotaç

Apesar das atividades esportivas de alto nível constituírem fatores importantes de projeção e prestígio para os países aos quais os atletas pertencem e onde são formados, um aspecto nunca deve ser negligenciado, e é razoável supor que não o seja na maior parte dos casos, pelos fisiologistas e treinadores encarregados de administrar a performance de seus atletas: o de que a natureza possui algumas regras pétreas que não devem ser atropeladas com o fim de desenvolver em jovens potencialmente excepcionais, atributos capazes de conquistar marcas e recordes, mesmo contando com a sofisticada tecnologia esportiva disponível. 

É verdade que a grande maioria das modalidades só permite que os melhores índices sejam alcançados após completados os mais importantes desenvolvimentos naturais, a partir dos quais o corpo adquire uma maturidade mínima capaz de levá-lo aos desempenhos almejados, num ápice que reúne, em doses ideais para a prática física correspondente, a força, a destreza, o entusiasmo e a robustez psicológica. 

Existe, no entanto, uma modalidade, a ginástica, com seu alto nível de exigência atlética e precisão plástica, envolvendo agilidade com sincronia de movimentos e mesmo motivações estéticas, que sugere ao leigo o fato de que a natureza, de certa forma, pode estar a ser desrespeitada no seu ritmo básico. 

Com o recebimento da notícia dando conta que uma menina brasileira de 14 anos acaba de ganhar medalha de ouro nos jogos da juventude de Nanquim, na categoria solo, e prata na trave, e com informações semelhantes relacionadas com a mesma faixa etária na atividade, relatadas por vários centros de treinamento em outros países ansiosos por conquista de medalhas, surge a interrogação: será saudável submeter uma menina em fase tumultuada para a sua formação como mulher, a condições fortes de treinamento para competições de alto nível, condições muito distantes da atividade esportiva com fins puramente educacionais, que, ao contrário, deve ser incentivada? 

É possível, por partir de alguém não pertencente à comunidade profissional dedicada ao esporte, que tal raciocínio seja completamente equivocado e, portanto, improcedente. 

De qualquer modo, seria de todo aconselhável que entidades internacionais direcionadas ao bem estar das crianças e jovens mundo afora e ao seu desenvolvimento educacional - UNICEF e UNESCO - organizassem fóruns de estudos no sentido de situar a questão e orientar as autoridades esportivas sugerindo-lhes, se for o caso, moderar o apetite por premiações sem respeitar a marcha fundamental da natureza.  


Paulo Roberto Gotaç é Capitão de mar e Guerra, reformado.

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