domingo, 28 de setembro de 2014

A Historiografia Comunista: A estrada para o terror


"A matriz leninista serviu a todos os `pequenos irmãos´. O modelo foi aplicado de forma diferente de acordo com as diferentes situações culturais. O vetor da repressão na Rússia foi a polícia política, a CHEKA-OGPU-GPU-NKVD-KGB, ao passo que na China foi o Exército de Libertação Popular e, no Camboja, os adolescentes, vindos dos campos a quem foram dados fuzis (...) O objetivo por toda a parte era reprimir os `inimigos do povo´" (Jean-Louis Margolin, O Livro Negro do Comunismo).

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Além de A Era dos Extremos, outra obra característica das reações nostálgicas à queda do comunismo, foi a de J. Arch Getty e Oleg Naumov, The Road to Terror, 1999, que trata dos expurgos preparados dentro do Partido Bolchevique em 1932 e concluídos, por meio do Grande Terror, em 1939. A documentação utilizada constitui-se, em sua maior parte, em notas estenográficas das sessões ultra-secretas do Comitê Central do PCUS, nas quais foram acusados Ienukidzé, Rykov e Bukarin, para citar apenas as figuras principais. As sessões de 4 de dezembro de 1936 e de 23 de fevereiro de 1937, que concernem a Bukarin e a Rykov, são verdadeiras sessões de tortura psicológica e de linchamento político.

Molotov, 50 anos mais tarde, assim se referiu à ausência de provas contra Bukarin e Rykov: "De que provas suplementares da culpa deles vocês precisam, quando sabíamos que eram culpados, que eram inimigos?" E acrescenta: "É claro, as exigências (de repressão) vinham de Stalin. Claro, as coisas foram longe demais, mas penso que tudo era permitido em função de uma única coisa: manter o Poder de maneira sólida".

Anotem: tudo era permitido...em função de manter o Poder...

A carta secreta do Partido Bolchevique - que somente em 1952 passou a ser denominado Partido Comunista da União Soviética - de 29 de julho de 1936, que dá partida ao Grande Terror, assinala um ponto fundamental: `A marca indiscutível de cada bolchevique na situação atual deve ser sua capacidade de reconhecer e de identificar os inimigos do partido, qualquer que seja a maneira pela qual eles consigam esconder sua natureza´.

Em The Road to Terror um dos autores, Arch Getty (professor de História da Rússia moderna na Universidade de Califórnia, Riverside), fez a revisão do revisionismo, abandonando suas afirmações de 1985, segundo as quais o Grande Terror fizera apenas `alguns milhares de mortos´, e volta à realidade: 690 mil assassinatos em 14 meses, de 1937 a 1938, o que é muito diferente! Diferente porque o número de vítimas é um dos elementos importantes da apreciação histórica. Quando se escreve que o Grande Terror fez alguns milhares de mortos e não 690 mil fuzilados, a interpretação dos fatos é muito diferente.

Contrariamente ao que afirma Getty, o expurgo não foi um fenômeno misterioso pelo qual um grupo que se apoderou do Poder seria condenado a se suicidar. Os documentos mostram, contrariamente, que Stalin e seus acólitos quiseram com o terror - o Grande Terror, quando conhecido em toda a sua extensão - eliminar, em primeiro lugar, os concorrentes potenciais e também os membros do aparelho de Estado ligados em demasia às necessidades do governo e não o suficiente à ideologia e ao projeto utópico e, por fim, as pessoas `sensíveis demais´, que não se demonstraram cruéis e impiedosas o bastante e manifestaram, aqui e ali, alguns resquícios de sentimentos humanos.

O outro objetivo era assegurar a obediência absoluta da parte sobrevivente do partido e da sociedade. Para Stalin, toda e qualquer crítica era sinal de oposição, toda oposição implicava uma conspiração, e a conspiração era uma traição que merecia a morte. Essa foi a dinâmica do regime totalitário.

Getty insiste no fato de que muitos daqueles bolcheviques, ex-conspiradores, tinham um espírito formado no que os russos chamam de konspiratzia - o trabalho conspirador - baseado na fidelidade e na confiança, com seus corolários, a suspeita e a traição, o que nos faz remontar o fenômeno ao inventor e ao chefe dessa konspiratzia: Lenin. Essa prática conspirativa desenvolvia de forma inconteste uma paranóia levada a seu paroxismo com Stalin, mas também revelava um cálculo racional no líder de um partido-Estado ideocrático, cujos contornos ainda não foram de todo avaliados.

Mesmo não se considerando sua dimensão criminosa e contrariamente à vulgata trotskista que o apresenta como um apparatchik medíocre, Stalin foi o homem de poder mais eficaz do Século XX. Durante mais de 35 anos ele levou à frente a administração dos bolcheviques com mão de mestre. Ele foi o mais capaz de ajustar seus meios a seus fins políticos. Tudo agora passa a demonstrar que por trás da lenda `vermelha´ do `pequeno pai dos povos´ e da lenda `negra´ de burocrata festivo, bêbado e cinéfilo, escondia-se um homem de vontade inflexível, de argúcia política excepcional, cujo profissionalismo foi, e muito, superior ao do diletante Hitler.

Se Getty afirma acertadamente que o Grande Terror foi `uma das maiores tragédias humanas e pessoais dos tempos modernos´, ele se esquece de precisar que ela tocou as elites do poder apenas marginalmente, e nem uma palavra sequer foi dita acerca dos milhões de vítimas das camadas populares.

Assiste-se a uma curiosa defesa da memória dos privilegiados que asseguraram suas promoções fulgurantes com a crueldade da repressão praticada. Zinoviev, Bukharin, Iagoda, Iejov, Tukhatchevski e outros, que também caíram na máquina de moer stalinista eram, desde 1918, eminentes carrascos dos povos da URSS, assim como Kruschev que, 20 anos depois, tentaria se inocentar acusando o homem – Stalin - ao qual obedecera de maneira servil.

Getty fala longamente sobre a crítica e a autocrítica, apresentada como um ritual dos militantes do partido. Mas ele nada diz acerca da natureza desse ritual, que facilitava o condicionamento psíquico, a submissão e a fidelidade. A crítica implica seu autor no assassinato - político, simbólico ou psíquico -. A autocrítica é o sinal da aceitação, por seu autor, de seu próprio assassinato pelos demais membros do partido, pois no sistema leninista e stalinista as palavras e os rituais não são apenas simbólicos, mas induzem necessariamente os atos. Nesse sistema, as palavras são balas que matam. Em uma carta datada de dezembro de 1935, um certo Assev, quando acusado, preferiu suicidar-se: `Por que vocês me destruíram? (...) Não posso viver fora do partido. Para mim, o partido é tão indispensável quanto o ar´, escreveu ele. Ser excluído do partido significava ser atirado nas trevas; perder o trabalho, alojamento, alimentação, para si e para a família, antes de perder a liberdade e - eventualmente - a vida.

Annie Kriegel, no Grandes Processos nos Sistemas Comunistas (Paris, 1972) já havia interpretado o sistema de expurgos e do dispositivo crítica/autocrítica como uma `pedagogia infernal´. E em seu Catecismo do Revolucionário (que apareceu na Rússia em meados do Século XIX) Netchaiev escreveu: `O revolucionário é um homem perdido. Existe apenas a Causa; fora dela não há nada´.

O mais surpreendente é a observação de Getty em seu livro, explicando porque não deu resposta à pergunta: `Quais as causas do terror?´, sob o pretexto de que se recusa a trazer `respostas fáceis a uma pergunta extremamente complexa´. No entanto, ele se atreve a esboçar uma resposta tímida e convencional: o atraso do Estado russo e o medo dos comunistas em face da sociedade... De fato, os comunistas tinham apenas um medo: o medo de perder o poder. Na verdade, a cultura bolchevique inicial feita de paixão revolucionária e cientificismo - reforçada pela prática dos anos 1917-1922 -, o papel fundamental de Lenin - do qual Stalin era, na época, um dos principais auxiliares -, o projeto utópico inaugurado no comunismo de guerra e reposto como ordem do dia a partir de 1928. Foi esse conjunto do projeto bolchevique que, por oposição formal a toda idéia de autonomia das forças sociais, econômicas e intelectuais, implicou o terror como único meio de assegurar sua implementação.

Num artigo mais recente - em março de 2000 -, Getty se pronuncia, simultaneamente, acerca do Passado de uma Ilusão (livro de François Furet) e do Livro Negro do Comunismo, mantendo uma linguagem bem mais crua. Contradizendo a afirmação de Furet, segundo a qual o comunismo foi uma espécie de parêntesis no Século, não deixando qualquer herança nem nenhum aspecto positivo, ele levanta a tese do mal necessário: a existência do comunismo teria, em particular, `mudado o desenvolvimento social no Ocidente de maneira fundamental (...), pois tornou difícil a vida para o Poder estabelecido no Ocidente, e é duvidoso que as reformas tivessem acontecido do lado ocidental se a URSS não tivesse existido. Enfim, se a democracia e a economia de mercado triunfam, deve-se agradecer ao sistema comunista´. É a mesma argumentação utilizada por Eric Hobsbawn na Era dos Extremos...

Getty não pára por aí. Ele reivindica as aquisições do socialismo na URSS: a alfabetização generalizada e um dos melhores sistemas de educação tecnológica, o primeiro homem no espaço e, finalmente, a educação e a saúde gratuitas e a previdência para a velhice. Ora, pesquisas recentes mostram que a alfabetização já estava bastante avançada em 1917; que os progressos tecnológicos soviéticos - por exemplo, na área nuclear - deveram-se de fato ao saque das tecnologias ocidentais; e que o sistema foi incapaz de se adaptar à revolução da Informática. Enfim, a derrocada da URSS revelou a situação catastrófica dos serviços de saúde e do regime de aposentadorias num sistema corroído pela ineficácia e pela corrupção. Vê-se, portanto, a que ponto alguns meios acadêmicos permanecem submissos à propaganda comunista mais banal - de um Estado que não existe mais -, perpetuando uma cegueira que compromete a abordagem científica.

Mas, tem mais: referindo-se à fome ucraniana de 1932-1933, Getty escreveu que uma ampla maioria dos pesquisadores que trabalham com os novos arquivos soviéticos, pensa que essa terrível fome (...) foi o resultado da incompetência e da rigidez de Stalin, e não que se tratou de um plano genocida. Getty se omitiu em citar os nomes dessa ampla maioria de pesquisadores que consideraram incompetência e rigidez de Stalin a fome que matou seis milhões de pessoas. E foi mais longe, estimando que mais da metade dos 100 milhões de mortos pelo comunismo - número que ele não contesta em momento algum - foi o resultado da `estupidez e da incompetência´ dos regimes comunistas. Ora, o fato de que um político seja estúpido e seu governo incompetente não lhe tira a responsabilidade quanto ao seu caráter criminoso!

Getty conclui sua argumentação afirmando que uma enorme quantidade de vítimas atribuídas aos regimes comunistas refere-se à categoria chamada de `sobremortalidade´, óbitos prematuros que ultrapassam a taxa normal de mortalidade na população. E acrescenta: "Os que foram executados, exilados na Sibéria ou conduzidos à força aos campos do Gulag, nos quais a alimentação e as condições de vida eram medíocres, poderiam entrar nessa categoria". E, fazendo uma evidente alusão ao extermínio de judeus pelos nazistas, ele conclui que`a sobremortalidade não é idêntica à das mortes programadas´. Nesse raciocínio ele esqueceu e passou por cima das cotas de fuzilados, das populações inteiras deportadas, das requisições de alimentos que causaram mortes em massa. Nada disso é sobremortalidade, termo que remete a um eufemismo típico do negacionismo.

Concluindo, recorde-se que J. Arch Getty é um dos professores universitários norte-americanos mais em evidência em matéria de História da URSS, responsável pela publicação dos arquivos do comunismo na Universidade de Yale! 
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O texto acima é um resumo das páginas 98 a 105 do Livro Cortar o Mal pela Raiz! História e Memória do Comunismo na Europa, diversos autores sob a direção de Stéphane Courtois, editora Bertrand do Brasil, 2006.


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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