domingo, 31 de maio de 2015

Muito Além de uma gripe...


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Arthur Jorge Costa Pinto

No último dia 22 de maio (sexta-feira), foi mais do que notada,a primeira ausência do ministro da Fazenda Joaquim Levy na proclamação do lendário contingenciamento de R$ 69,9 bilhões, para formalizar a tesourada nos gastos públicos. As especulações tomaram conta do mercado financeiro e da classe política, sobre o motivo pelo qual o ministro não compareceu ao anúncio, repassando a sua responsabilidade e deixando os holofotes para o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa.

Levy declarou à mídia que se encontrava bastante gripado e transpirou também a sua desconfiança de que sua presença levasse os jornalistas presentes a questioná-lo exclusivamente sobre a elevação dos impostos. Ficou evidente, nas entrelinhas da sua justificativa oficial, que há divergências que entrelaçam o PT, o Governo e o ministro da Fazenda. Entretanto, esta desarmonia vem modelando a sua desconexão com grande parte do governo e especialmente com a seita petista.

A partir daí, Levy manifestou indiretamente sua insatisfação sobre os cortes no Orçamento;também confidenciou uma possível discórdia na esfera governamental,o que trouxe de imediato uma natural dúvida ao mercado financeiro, quanto ao desejo da presidente em manter na rota o redirecionamento da atual política macroeconômica.

Os analistas políticos afirmam que as discordâncias entre Levy e Barbosa não estão apenas no montante de cortes do Orçamento que o ajuste fiscal impõe. Fontes do governo não escondem que as divergências compreendem também a desoneração da folha de pagamento das empresas e especialmente as alterações aprovadas no cálculo do fator previdenciário.

Na semana passada, outra omissão de Levy se deu igualmente em importante encontro e foi amplamente percebida. Esteve distante da reunião dos líderes com o vice-presidente Michel Temer, com as presenças de Barbosa (Planejamento) e Gabas (ministro do Trabalho). Mais uma vez, o titular da Fazenda alegou problemas médicos para não estar presente. Possivelmente, não foi a sua saúde o real motivo das coincidências para ambas as ausências.

A situação começa a encrespar, pois o PT não aprova o modelo de ajuste apresentado pelo ministro e demonstra forte resistência sobre o pacote. Cabeças coroadas do governo também caminham no mesmo sentido de um ajuste mais brando que fortalece a base, nesse sentido dificultando a sua aprovação e aumentando o clima de instabilidade.

Lembro-me de quando Dilma, no início do seu segundo desgoverno, dirigiu-se com determinação aos brasileiros, justificando o convite formulado a um homem público e reconhecido economista ortodoxo, oriundo da famosa escola de economia de Chicago para comandar a nossa deteriorada economia. Na época, ressaltou que sua intenção era organizar o seu segundo período governamental em duas etapas distintas.

Nos dois primeiros anos de ajuste, adotaria o modelo desenhado por Levy, e os dois últimos seriam dentro de uma linha que é amplamente defendida pelo economista Nelson Barbosa (ministro do Planejamento),egresso da primeira gestão inconsequente de Dilma, que é visto como um aliado das políticas desenvolvimentistas mais ao feitio da seita petista.

Atualmente, notamos o temor dos analistas econômicos e o anseio dos petistas que já iniciaram uma fase de pressões contra a nova política econômica,com o objetivo de encurtar o período inicial destinado aos ajustes recessivos e o início de uma flexibilização já no decorrer do próximo semestre.

O ministro do Planejamento defendeu um corte abaixo de 70 bilhões, não transparecendo até então, um propósito de iniciar uma perigosa “queda de braço” na área econômica. Como notamos, os dois simbolizam estilos completamente diferentes e Levy, já carimbado como um tocador de uma política de uma nota só, a do ajuste, com isso está inquietando o seu colega de equipe econômica.

Embora Levy já tenha dito que apresentará propostas para a segunda fase da política econômica mais direcionada aos investimentos, alerta, entretanto, que o País somente chegará a ela através do compromisso inicial na efetivação do dever de casa. Jáestá sendo criticado por alguns segmentos da sociedade por ainda não apresentar uma consistente saída para a crise em que estamos envolvidos.

Me dá meu boné

Embora diante das sutilezas nas discussões sobre o ajuste, Dilma ainda não transpareceu que pretende “encurtar” a gestão de Levy na Fazenda, mas este propósito já é iminente nos planos do seu criador, o ex-presidente Lula, que já se encontra plenamente conspirando a sua fritura nos bastidores da política nacional.

A sua saída será interpretada pelo mercado, como uma derrota no nascedouro de um novo modelo econômico, sustentado por ele, e que atualmente é visto até pela comunidade financeira internacional como indispensável para evitar o caos financeiro do nosso setor público.

Em alguns instantes, o seu comportamento revela estar praticamente isolado. Além da presidente, que desfruta do ápice de sua fragilidade política e sem poder de mando, somente sobressai um sombrio apoio do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini.

Caso venha a ser aprovado o ajuste fiscal como se planeja, parece que Levy terá maior desenvoltura para tocar sua estratégia de restabelecer a recuperação da confiabilidade que falta a este desgoverno petista. Não resta dúvida que enfrenta um imenso desafio; a economia brasileira encontra-se em plena desaceleração, o que deverá ser acentuado no segundo trimestre desse ano, comprimindo a arrecadação e consequentemente impedindo o cumprimento da meta de superávit primário de 1,1% do PIB (Produto Interno Bruto) ao final de 2015.

Caso essas dificuldades venham a se consolidar, breve deveremos apreciar um embate arriscado entre os atuais titulares da Fazenda e do Planejamento. No Congresso, PT e PMDB já começaram um discurso para aprovar uma emenda à LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) para o exercício de 2016, recomendando redução na meta deste ano de 1,1% para 0,80% do PIB, o que traria grande satisfação a setores governamentais. Essa possibilidade jamais agradará Levy, pois ele considera este um caminho estratégico para quem quer suavizar os cortes do orçamento.

Esses episódios mostram a grande desordem política e ideológica que dominam o País, em função do elevado grau com que Dilma contradisse suas promessas inexequíveis durante a sua última campanha eleitoral.  Além disso, a melhora da economia em 2016 e o crescimento econômico começam a ficar prejudicados. É importante aguardar os próximos passos para ver se Levy continua no governo ou se infelizmente não resistirá a outras pressões gripais.


Arthur Jorge Costa Pinto é Administrador, com MBA em Finanças pela UNIFACS (Universidade Salvador).

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