domingo, 9 de junho de 2019

Dá para sair do atoleiro?



Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net

Por Paulo Rabello de Castro

Quem enfrenta as terríveis estradas do interior do Mato Grosso tem que ser bom de sair de atoleiro. O atual governador de lá - Mauro Mendes - guardem esse nome, um dos mais promissores da nova safra de gestores públicos que temos - foi ele quem me deu uma curta aula sobre desatolar carro preso no lamaçal.

Primeiro: não dá pra fazer sozinho; todos devem desembarcar do carro e ajudar. Dois: o motorista mais experiente na arte de acelerar pra fora da lama deve pegar no volante. Três: tem que ter um plano de calçar os pneus e dar um "leve" onde menos peso for requerido.

Mauro me disse que usou a imagem do atoleiro muitas vezes para comunicar com plateias no interior do Estado. Comparava o Mato Grosso a uma economia de grande futuro, mas atolada. Precisava de empurrão inteligente, mas também de trocar de motorista. Foi o que o eleitor fez e não está arrependido. O Mato Grosso será dos primeiros estados a emergir do atoleiro geral.

Mas aí veio a pergunta dele para mim: e o atoleiro do Brasil, preso como está num barro pegajoso que o impede de aproveitar o momento de uma população 100% motivada a trabalhar, consumir, estudar e investir.

Minha resposta começou com um voto de fé: a saída do atoleiro existe e pode ser aplicada. Não é dessas situações impossíveis. Longe disso. Mas como lembrava ele próprio, algum conhecimento e estratégia são essenciais. E bom motorista ao volante. Vou só avaliar a estratégia, ou a falta dela. O governo de Brasília, que nos lidera para nos tirar do atoleiro, se concentrou na traseira do carro, que parece ser o lado mais agarrado no barro - a previdência social.

A equipe econômica insiste que tudo depende da tal previdência, cujas contas e problemas - vamos reconhecer -  quase ninguém em Brasília, ou fora dela, conhece bem. Fato é que concentrar o esforço de sair do atoleiro da economia apenas  na aprovação da reforma da previdência é como esperar o fim das chuvas para a lama da estrada secar e aí empurrar o carro.

Previdência nenhuma dará resposta antes de 4 ou 5 anos. E o déficit a ser enfrentado é já. Déficit fiscal, na previdência em especial, é decorrente da queda da atividade. Com muito desemprego a arrecadação geral despenca e a do INSS mais ainda.  Logo, a traseira do carro só vai se mexer quando a tração dianteira colaborar. Isso requer urgente retomada dos investimentos Brasil afora.

Não dá para esperar aprovação nenhuma no Congresso. Tampouco vai ajudar um empurrãozinho meia boca, como esse da renegociação de mutuários endividados na Caixa, liberação de FGTS e PIS. Todas essas medidas haverão de colaborar sim, mas não resolvem o impasse da crise recessiva atual. As poucas estratégias do governo começam a ficar com a cara de Temer e Dilma. Desculpem a sinceridade…

Investimento é a palavra mágica esquecida. A falta de infraestrutura do País inteiro pede isso. Então, o super cheque especial que o governo federal está pedindo ao Congresso, de 250 bi, teria que ser 100% aplicado em projetos de investimentos apresentados por todos os governadores de Estados. Claro que sob condições bem negociadas e supervisão rigorosa. Mas nunca condicionando os projetos a uma nota de crédito A ou B, pois os Estados não são alunos na escolinha do Prof. Raimundo.

Por falar no presidente, ele ao lançar a hipótese de uma moeda única na região sul-americana, é como um chefe de excursão mencionando que tem churrasco rodízio num restaurante distante 100 km de onde estamos todos presos no atoleiro. Churrasco é bom, mas se for para provocar gente passando fome na estrada, a ideia da carne farta vai soar como ofensa.

Estratégia é condição essencial. Quem não a tem, faz o grupo inteiro perder tempo.

Antevejo a necessidade urgente de um plano nacional de infraestrutura, ligado à repactuação federativa. Algo bem diferente do que o governo pretende com seu pedido de cheque especial ao Congresso. A desculpa de que vai faltar dinheiro justamente para os programa dos pobres só pode ser brincadeira.

Concluí a visita a Mauro Mendes parabenizando-o pelo que ele já fez política e financeiramente em tão pouco tempo. Pessoas de boa vontade e com elevado espírito público podem fazer quase milagres. Pessoas que, além disso, reúnam estudo (ele é um engenheiro e homem de boa leitura geral) vivência (como empresário e líder industrial) sofrimento (ralou para pagar as contas da empresa que criou do zero) e liderança de equipe, esse é o perfil requerido para fazer o País se desgarrar do barro que o prende e saltar de novo à frente de muitos países, mostrando um desempenho muito superior ao que meus colegas economistas costumam prever.

Mas isso é história para contar outra hora. Agora o "causo" é juntarmos forças e inteligência para nos despregarmos do lamaçal. E todos os governadores têm grande responsabilidade nesta ação de emergência.

Paulo Rabello de Castro é economista e propõe um novo arranjo federativo baseado num "investiduto" de grandes projetos regionais.

3 comentários:

jomabastos disse...

Ótimo texto que nos faz pensar no atoleiro em que estamos atualmente. Há que sair o mais rápido possível deste atoleiro.

Anônimo disse...

O Bolsonaro disse em alto e bom som: "A reforma da previdência, tem que ser o PRIMEIRO passo (nem assim ela está saindo rápido)." Imagine se tiver outras "frentes" para desviar a atenção. PS: Eu só acho que faltou incluir o articulista no carro atolado; ele seria aquela criança que os adultos mandam ficar dentro do carro (pois só iria se sujar, não ajudaria em nada, e provavelmente iria atrapalhar).

Anônimo disse...

Para quem pegou um carro como o BNDES numa ladeira, onde era só engatar uma terceira marcha que o carro pegava lançante abaixo sozinho mostrando os seus problemas e nem assim conseguiu ou até escondeu seus defeitos, Paulo que teve sua chance e jogou no lixo vem agora dar pitacos sobre assuntos que deveras são muita areia para o seu desacreditado caminhãozinho.