terça-feira, 6 de agosto de 2019

O Brasil tem futuro? - 1





Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Fábio Chazyn

Capitulo 1: Acesso do Cidadão à Modernidade

Nas palavras do saudoso Roberto Campos, “estatística é como biquíni, mostra tudo menos o essencial!”. A prudência manda acrescentar à essa máxima que, bem interpretada, a estatística pode até ser reveladora...

É notório que as estatísticas podem ser usadas para o bem e para o mal. Certos manipuladores, daqui e acolá, usam as estatísticas a seu bel-prazer para dirigir as nossas opiniões. Quando querem, colocam o Brasil no topo da lista dos mais fortes, quando não querem, nos desclassificam. Para nos enaltecerem lembram o grande mercado brasileiro com a 6ª população do mundo ou a nossa capacidade de produzir riqueza (PIB), que nos coloca no 7º lugar.

Mas quando se trata de admitir a nossa riqueza (Ativo menos Passivo) que nos credenciaria a sentar à mesa com os grandes, somos somente pirralhos na 17ª posição com apenas 0.78% da riqueza mundial, enquanto 7 países “mais ricos” dizem acumular 71,61% do total, ainda que a conta que eles fazem inclua a riqueza dos cidadãos, capital e recursos naturais. Como se os nossos ‘estoques’ em minérios, terras produtivas e recursos energéticos hídricos, eólicos, biomassa, solar, petróleo, ufa!... fossem só um detalhe e não possam ser contabilizados no nosso “Ativo”...

Sabemos que, na verdade, o Brasil tem tudo de sobra! É também verdade que, se temos tudo de bom, temos também muito de mau. Estamos atrás da 70ª posição em termos de igualdade social; 50% da população não tem água potável e esgoto, nem acesso decente à saúde ou educação. Estamos em 4º lugar em população carcerária com quase a metade dos 700 mil detentos sem julgamento.

Somos a Nação da alegoria. É fácil encontrar estatística confirmando a nossa índole alegre e festiva, enquanto “ostentamos” mais de 500 mil assassinatos nos últimos 7 anos, superando a tragédia da guerra da Síria. De fato, temos muita lição de casa p’ra fazer antes de dizer que o Brasil tem futuro.

E depois de resolver as nossas incoerências e pagar as nossas dívidas sociais, ufa!... será que seremos o país do futuro? Que nada! Lá na frente, p’ra sermos o país do futuro, vamos ter que ser um país moderno. Mas, o que é um país moderno? Bem, hoje um país moderno é aquele em que o seu cidadão tem fácil acesso à energia elétrica; a qualidade de vida está ligada ao acesso à eletricidade.

Nesse tocante, o que é que temos feito para ajudar o brasileiro ter acesso à eletricidade? Nada, ou melhor tudo. Estamos fazendo tudo p’ra atrapalhar. Como? Para ilustrar esse ponto vale a pena comparar com o que fez a China que baseou seu crescimento de 40 vezes em 40 anos na facilidade de acesso à eletricidade barata. O estudo da CPFL de 2015 aponta que o custo de geração de energia na China é 40% mais barato do que no Brasil, onde o custo de transmissão é 4,2 vezes maior e os impostos embutidos é 5,5 vezes maior no Brasil do que na China.

Definitivamente, o Brasil está na contramão da experiência chinesa e dos outros países preocupados com a modernidade. Senão vejamos:

Em primeiro lugar, vamos admitir que o Brasil tem uma renda per capita anual, ou seja “média”, de uns 15 mil dólares por ano, sem esquecer que no Brasil os 10% mais ricos ganham quase 20 vezes o que ganham os 40% na outra ponta, o que falseia completamente a dita “média”. Entretanto, para benefício da argumentação, e corroborando com ela, vamos partir dessa hipótese de renda.
Por outro lado, aquele estudo da CPFL sobre o custo da eletricidade residencial em vários países permite concluir que o Brasil ocupa, de longe, o 1º lugar no ranking do maior custo de energia elétrica para o cidadão consumidor!

Verdade? Sim, pois ainda que, por exemplo, a Alemanha tenha o maior preço da eletricidade residencial e embuta também o maior imposto, atingindo 2,4 vezes o preço praticado no Brasil, tem-se que considerar que o alemão “médio” conta com uma renda 3,3 vezes maior do que o brasileiro “médio”. Com poder aquisitivo maior, infere-se que o alemão “médio” tenha que dispor de 27% a menos de sua renda do que o brasileiro “médio” tem que dispor da sua para adquirir o mesmo elétron. Analogamente, o cidadão no Brasil tem que dispor de quase 3 vezes mais do que um chinês; 4,3 vezes mais do que um americano da Califórnia; quase 5 vezes mais do que um russo; 7,2 vezes mais do que um canadense!...

E como a realidade do brasileiro “real” é de uma renda bem abaixo da que consideramos “média”, o acesso do brasileiro ao elétron é na realidade ainda muito pior.

Será que continuar determinando o custo de energia no Brasil através dos leilões de energia, imperativamente privilegiando a remuneração do capital, seria a melhor forma de trabalhar para construir um país moderno?

Fabio Chazyn, Empresário, é Autor do livro “Consumo Já!” – Por um novo Itamaraty.

Um comentário:

Anônimo disse...

Nesse exato momento na TV cultura, esta passando um programa "financiado" pela CPFL (não é uma companhia elétrica ?); parece desrespeito (provocação) o nome do programa; hoje eles estão dando um "café" filosófico para o FHC. O FHC, está explicando como funciona a politica; só que ele esta (preso no passado) falando de 2 séculos atrás. https://www.youtube.com/watch?v=7bpQLCnHxL0