terça-feira, 6 de agosto de 2019

O Brasil tem futuro? - 2


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Fábio Chazyn

Capitulo II: Consumir ou Ser Consumido

Já falávamos sobre o crescimento da população carcerária no Brasil. Cresceu 4 vezes desde 2012. Nessa toada daqui a pouco a sociedade inteira vai p’ra cadeia. Só vão ficar de fora aqueles que realmente deveriam estar lá. É uma tristeza ver esse povo maravilhoso e alegre tão triste.

O que é que estamos precisando p’ra virar o jogo? Futuro é claro!

Futuro com qualidade de vida.

Uma vez perguntaram para o ator, músico e diretor de cinema Woody Allen: “Você acha que dinheiro traz felicidade?” Ele então respondeu: ”Acho que não, mas traz uma sensação tão parecida com felicidade que precisa ser um expert p’ra saber a diferença!”

O americano médio tem mais dinheiro que o brasileiro médio. E por isso ele é mais feliz do que o brasileiro? Não necessariamente. Mas, é inegável que se o brasileiro médio tivesse o dinheiro que o americano médio tem, ele teria mais qualidade de vida. Se é assim, cabe a pergunta: E por que não tem?

Explicação das hostes no poder: “Porque o Brasil é subdesenvolvido e tem um caminho a percorrer até chegar no futuro”.

Mesmo se conformando com isso, por que não procurar saber se o Brasil está percorrendo esse caminho com a velocidade que ele poderia? Será que está com o freio de mão puxado?

Não se tem que ser economista p’ra entender que uma economia cresce quando ela gira: investimento–produção–consumo. Quanto mais rápido, melhor.

Vamos comparar a nossa vida de brasileiros com a vida dos americanos: a renda do americano médio é 7 vezes maior que a renda  do  brasileiro médio, mas só paga 4 vezes mais impostos do que o brasileiro. A diferença é usada para consumir e investir para garantir o seu futuro.

E porque consome mais, a produção per capita dos Estados Unidos é muito maior, 11 vezes maior. Por cada cidadão. No Brasil o processo está invertido: quem produz no Brasil, ao invés de produzir e girar rapidamente, ganhando pouco por unidade, prefere vender pouco e girar lentamente. Como um míope, vê somente o benefício da larga margem de lucro. Nas palavras do Sindipeças, o sindicato dos fabricantes de peças para a indústria automobilística, o lucro das montadoras no Brasil é 4 vezes maior do que nos Estados Unidos e os impostos também, 4 vezes maior. Em 2018, as vendas de veículos nos Estados Unidos foi 7 vezes maior do que no Brasil, mas geraram lá somente 1,5 vezes mais lucro do que aqui, à custa da inibição do consumo.

Do lado do crédito, a situação do Brasil é inacreditável: com uma inflação comparável, aqui e nos Estados Unidos, os juros do cartão de crédito são 20 vezes maiores para o consumidor brasileiro
Tudo isso p’ra inibir o consumo, pois, dizem os economistas iluminados: “senão a inflação dispara e o tomador não paga”. Esse papo lembra a história do cara que tentou diminuir a sua dieta diária e, quando conseguiu, morreu. É burrice ou má-fé?

Inibir o consumo é manter o país na pobreza.

O Brasil não tem política de consumo. Tem política de especulação. É de se perguntar: De quem é este país? Nosso orçamento federal, que é aprovado pelo Congresso Nacional sob os mais variados pretextos há anos tem destinado três vezes mais recursos aos bancos do que para a saúde e educação juntas (?!).

De quem é o país onde os únicos que crescem são os bancos? Não há dúvida que andando com o freio de mão puxado não podemos sair do tal “subdesenvolvimento”.

Mesmo pagando metade dos impostos, o americano desfruta de um orçamento público per capita 50% maior do que o cidadão brasileiro. Qual é o segrêdo? Dois: O primeiro é o estímulo ao consumo, que é efeito de programas de incentivo à criação de empregos e de renda. Mas a  ferramenta mais importante é o crédito ao consumo. Quanto menores os juros, mais estímulo ao consumo.

Penalizar a importação também é política míope já mais do que provada. Protege os produtores ineficientes e sacrifica o consumidor. A liberalização de importados, respeitando o equilíbrio da balança comercial, alivia a pressão inflacionária e fomenta o esforço do produtor brasileiro pela competitividade e o leva a investir, se os juros forem decentes. Quem ganha com isso? Todos, menos os bancos especuladores de juros escorchantes que seguram o giro da economia. A tributação também não é matéria para vilões ou burros. Imposto não é atividade-fim, é atividade-meio. Um exemplo caricatural é o caso de alta taxação sobre o consumo de cigarros e sobre as bebidas que, de tão altos, o govêrno não pode mais viver sem eles, e acaba tendo uma relação promíscua e simbiótica com os algozes do cidadão.

E qual é o segundo segrêdo para o cidadão brasileiro ter tanto dinheiro quanto o cidadão americano, ou pelo menos evitar que o dinheiro público vá parar no lugar errado? Ter um sistema de escolha dos representantes baseado no voto distrital, pois quando o cidadão conhece em quem vota e quando o votado sabe porque foi eleito pelos eleitores que o conhecem, ele é um representante de verdade. Eleito por voto obtido no distrito onde vive, o eleito estará exposto à sua vizinhança e não vai poder se prostituir por aí atrás da “vida fácil”. E o cidadão, tutelando-se a si próprio, sem esperar que algum aventureiro lhe convença do “deixa comigo”, toma para si o exercício da sua própria cidadania.

Com o voto distrital, o cidadão brasileiro, assim como fazem os americanos, tomará o seu País nas suas próprias mãos, defenderá o seu quinhão e cumprirá a sua responsabilidade de construir o seu futuro.

Próximo Capítulo da Série “O Brasil tem Futuro?” – Cap. III: Por uma Nova Constituição

Fabio Chazyn, empresário, engenheiro, cientista político, mestre em história econômica e escultor. Autor do livro: “Consumo Já!” – Por um Novo Itamaraty.

Nenhum comentário: