sábado, 7 de dezembro de 2019

Ensino à Distância de Matemática para pessoas com deficiência visual



Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por João Vinhosa

Na solenidade de entrega de homenagens da 11ª edição do Referendo Microfone Braille, realizada no último dia 29 de novembro, no auditório do Instituto dos Cegos ‘Antônio Pessoa de Queiroz’, localizado em Recife (PE), foi-me dada a oportunidade de falar a respeito de um inovador projeto que está sendo repleto de êxito: o ensino à distância de Matemática para pessoas com deficiência visual.

A propósito, o radialista cego Domingos Sávio, que, em 2009, criou o Referendo Microfone Braille para homenagear pessoas, instituições e serviços que se destacaram em promoções dedicadas à população com deficiência julgou importante a divulgação na solenidade da inovadora experiência: um grupo de cinco pessoas com deficiência visual se reúne semanalmente em Cascavel, no Paraná, para ter aulas de Matemática com um professor que se encontra em Recife.

A seguir, alguns trechos da apresentação feita naquela oportunidade:
O fato de já terem sido realizados dez encontros semanais de uma hora e meia cada, sem dúvida, é um forte sintoma de que a experiência está sendo bem-sucedida. Afinal, aula de Matemática é uma atividade terrivelmente insuportável para o aluno que não esteja conseguindo acompanhar a matéria.

Considerando que ensinar Matemática para uma pessoa que não domina os pré-requisitos necessários ao assunto que vai ser estudado é completamente diferente de ensinar Matemática para uma pessoa que domina tais pré-requisitos –, foi necessário fazer uma programação destinada exclusivamente ao grupo de estudos.

Devido à particularidade do caso, textos específicos para dar suporte às aulas tiveram que ser preparados.

Na programação que foi feita para o grupo, atenção especial foi dada para três coisas que são óbvias, porém são frequentemente negligenciadas:

1 – Para que o aluno despreparado entenda a matéria, é necessário que o professor desça ao nível do aluno e venha raciocinando junto com ele até o ponto desejado;

2 – O aluno despreparado, na maioria das vezes, sofre de “trauma de Matemática” – mal psicológico ocasionado pela suposta incapacidade de aprender a matéria; tal trauma, se não for adequadamente tratado, provoca o bloqueio mental e impede o aprendizado da disciplina;

3 – O aluno despreparado é, compreensivelmente, impaciente; isto obriga o professor a motivá-lo logo nos primeiros instantes de cada aula, sob pena de não conseguir a sua atenção.

É de se ressaltar que o objetivo da inovadora experiência que está sendo realizada com o grupo de Cascavel é por demais ousado. Ele consiste em levar, em tempo relativamente curto, deficientes visuais que não aprenderam Matemática quando a matéria lhes foi apresentada na escola a dominar todos os conceitos de equações de segundo grau. Em outras palavras, o objetivo da experiência é levar o aluno do nível “zero” ao entendimento total do que realmente importa no conteúdo de Álgebra do ensino fundamental.

Como não poderia deixar de ser, todo o estudo está sendo feito obedecendo – com atenção redobrada – a mais marcante característica da Matemática: a interligação entre seus diversos assuntos.

Quanto a pré-requisitos, apesar de o grupo ser preparado a partir do zero, um pré-requisito é desejável para que os estudos sejam iniciados: a familiaridade com as quatro operações fundamentais (soma, subtração, multiplicação e divisão).

Atrapalharia muito o andamento do raciocínio, se a cada hora que aparecesse contas do tipo “5 vezes 4” ou “30 dividido por 6” o aluno tivesse que recorrer a uma maquininha de calcular. Ou, para “somar 5 com 4”, o aluno tivesse que somar “nos dedos”.

Em outras palavras, uma pequena dose da hoje tão execrada tabuada é absolutamente necessária.

Naturalmente, os pré-requisitos para uma determinada aula são os assuntos dados em aulas anteriores.

Um fato da maior importância em qualquer estudo que se queira fazer de Matemática é o seguinte: Diferentemente de outras áreas do conhecimento, para que se entenda determinada parte da Matemática, é indispensável que se conheça outras partes a ela interligadas.

Por exemplo, é impossível uma pessoa entender equação de segundo grau sem entender raiz quadrada, que, por sua vez, depende do entendimento de potências.

Além disso, a interligação também existe entre os diversos níveis de uma mesma parte da Matemática. Afinal, como um aluno poderá entender que “dois terços é maior que cinco nonos”, se ele não dominar os conceitos fundamentais de frações ordinárias?

Por outro lado, tal situação não ocorre na História, onde a pessoa pode saber tudo da Segunda Guerra Mundial e nada da Primeira Guerra. Também, não ocorre na Geografia, onde a pessoa pode saber tudo da Europa e nada da Ásia.

Indiscutivelmente, a falta da aplicação de um tratamento adequado a citadas interligações – situação que ocorre com frequência em nosso ensino – é o principal motivo para que o país conviva, como convive, com um exército de despreparados em Matemática.

E, ao se fazer referência a tal exército de despreparados, deve ser enfatizado que ele é formado tanto por pessoas com algum tipo de deficiência como por pessoas sem nenhuma deficiência física.

Sabemos, também, que essa enorme dívida social que o país tem com referido exército de despreparados em Matemática tem aumentado sensivelmente ano a ano.

Um aspecto da maior importância que está sendo colocado em prática na experiência com o grupo de Cascavel é a troca da ordem de apresentação dos assuntos.

Os estudos começaram pela Álgebra, contrariamente ao que é feito na ordem tradicional, que primeiro dá a Aritmética para só depois dar a Álgebra.

A principal razão de ter começado pela Álgebra é que a finalidade do grupo é a recuperação de alunos que não aprenderam a matéria quando a mesma lhes foi dada na escola. Assim sendo, e considerando que um aluno despreparado é, normalmente, impaciente, optou-se por trocar toda a ordem de apresentação da matéria.

A alteração da ordem de apresentação tradicional dos assuntos foi feita com o objetivo de levar o aluno a raciocinar matematicamente desde o início dos estudos, prendendo sua atenção de maneira provocativa.

Falando de outra maneira, a alteração da ordem de apresentação da matéria permite que, em poucos minutos, qualquer pessoa que domine apenas as quatro operações fundamentais fique capacitada a raciocinar e a enfrentar desafios, o que desperta seu interesse pelo assunto.

E, o que é da maior importância: esse interesse afastará os bloqueios ao aprendizado com os quais convivem aqueles que se sentem incapazes de entender Matemática.

Além disso, ao sentir que está compreendendo a matéria, o aluno ficará motivado; e a motivação leva ao sucesso, que, por sua vez, traz mais motivação e, em consequência mais sucesso, formando assim um autêntico círculo virtuoso.

Uma coisa tem que ficar bem clara: é preciso convencer o aluno, logo nos primeiros minutos, que ele é capaz de entender coisas que, no seu julgamento, eram incompreensíveis. É importante convencê-lo logo nos primeiros instantes para que sua atenção seja atraída. Ou seja, o aluno despreparado tem que ser conquistado de imediato.

João Vinhosa é professor de Matemática e Raciocínio Lógico.

Nenhum comentário: