sábado, 14 de dezembro de 2019

O Homem que disse não ao AI-5


Pedro Aleixo (1901-1975) foi advogado, jornalista e político. Fundador da União Democrática Nacional (UDN). Líder Civil do Movimento de 1964, também fundou a Aliança Renovadora Nacional - Arena. Entre janeiro e junho de 1966, exerceu o cargo de ministro da Educação e Cultura no governo Castelo Branco. Foi eleito vice-presidente na chapa do marechal Costa e Silva. Votou contra o AI-5, em 13 de dezembro de 1968. Acabou impedido de assumir o cargo, com o afastamento do Presidente. Os ministros militares consideraram extinto seu mandato por meio do AI-16, de outubro de 1969. Saiu da Arena e tentou organizar o Partido Democrático Republicano. Sua foto está incluída, desde 2018, na Galeria de Presidentes da República.

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Daniel Medeiros

"Acrescento, senhor presidente, que da leitura que fiz do Ato Institucional, cheguei à sincera conclusão de que o que menos se faz nele é resguardar a Constituição, que no seu artigo 1º declara-me preservada. Eu estaria faltando um dever para comigo mesmo se não emitisse, com sinceridade, esta opinião. Porque, da Constituição - que, antes de tudo, é um instrumento de garantia de direitos da pessoa humana, de garantia de direitos políticos - não sobra, nos artigos posteriores, absolutamente nada que possa ser realmente apreciável como sendo uma caracterização do regime democrático.  (…) Pelo Ato Institucional, o que me parece, adotado esse caminho, o que nós estamos é (…) instituindo um processo equivalente a uma própria ditadura.”
Era o dia 13 de dezembro de 1968, e na sala, além do presidente Costa e Silva, estavam todos os ministros e Pedro Aleixo, o vice-presidente, autor dessas palavras. Ele foi o primeiro a falar e o único a discordar e a lembrar que o que estava acontecendo era o país estava se tornando, de fato, uma ditadura. 
Mineiro, Aleixo apoiou o golpe de 1964 e depois se opôs à transformação do golpe em ditadura. Antes, o mesmo ocorrera com a sua relação com Getúlio Vargas. Aleixo foi o primeiro a lançar a candidatura de Vargas para presidente e depois apoiou a revolução, que depôs o governo Washington Luís e colocou Vargas no poder. Defendeu e participou da constituinte de 1934 e em 1937 tornou-se presidente da Câmara. Apoiou a repressão aos comunistas que tinham se sublevado, mas se afastou  do caudilho gaúcho quando ele virou ditador. Em 1943 assinou o Manifesto dos Mineiros, exigindo a volta da democracia.
Pedro Aleixo viveu dois prólogos de ditaduras acreditando firmemente que elas não ocorreriam. Apoiou Vargas e os militares na esperança de que as intervenções que considerava revolucionárias preservariam a ideia da Lei e se pautariam nela, afastados os perigos autoritários. Mas não imaginou que, ao contrário, essas iniciativas fossem justamente a semente de longos períodos de autoritarismo. 
No primeiro caso, Aleixo afastou-se de Vargas e da vida política voluntariamente até o fim do Estado Novo, quando ajudou a fundar a UDN. E então, mais uma vez, apoiou uma solução de força contra um governo eleito, acreditando que seria um mal menor diante de uma ameaça maior, o comunismo. Enganou-se mais uma vez. Quando Costa e Silva ficou doente, em agosto de 1969, os ministros militares impediram a posse do vice presidente Pedro Aleixo e estabeleceram uma Junta Militar. Aleixo era “democrático" demais para o momento. Acreditava na Constituição e defendia eleições diretas e o voto para os analfabetos. Inaceitável para os militares da linha dura. E então eles deram um golpe dentro do golpe do golpe. O avesso do avesso do avesso. 
O país é jogado nas trevas. A resistência apelando para o silêncio amargurado ou a violência inútil. Pedro Aleixo retirou-se mais uma vez de cena. Em 1970 tentou fundar um novo partido, chamado Partido Democrático Republicano. Porque acreditava nessas duas palavras, embora tenha sido personagem destacado de suas duas maiores interrupções. O momento mais amargo foi ter tido um irmão, Alberto, morto em virtude de torturas praticadas nos porões da ditadura que Pedro imaginou poder domar com a força das palavras. Resguardar a Constituição era para ele o marco civilizatório fundamental para impedir violências como a que atingiu seu irmão. Sem isso, só a barbárie. 
Constituinte de 1934, viu Vargas jogar a Constituição no lixo. Defensor da Constituição de 1967, viu os militares repetirem o gesto. Restou então a última mensagem, na coragem de ser a única autoridade do governo Costa e Silva a se opor ao famigerado AI-5, chamando-o por seu verdadeiro nome: ditadura. 
Pedro Aleixo morreu em março de 1975, sem testemunhar o assassinato covarde de Vladimir Herzog, de Manuel Fiel Filho, do massacre da Lapa, do atentado do Rio Centro, entre outras violações que marcaram os estertores do regime militar. Mas deixou o exemplo de não ter se curvado a isso. Hoje, quase não é lembrado. Fica a lembrança de seus erros, de seu ato e de sua esperança na República e na Democracia. 
Daniel Medeiros é doutor em Educação Histórica pela UFPR e professor de História no Curso Positivo.

8 comentários:

Anônimo disse...

Se a Democracia não consegue prever em suas Constituições mecanismos de punição dos traidores da pátria, os democratas precisam criar mecanismos que impeçam o aparelho estatal de ser tomado por bandidos. Do contrário, clamam por uma solução de força e, em seguida, exigem leveza dos militares na solução do descalabro violento criado pela incúria dos civis.


Quanto ao assassinato covarde de Vladimir Herzog:

[Um absurdo gritante na narrativa esquerdista da era militar é que, de um lado, a tortura fosse descrita como um processo complicadíssimo, que requeria a assistência de técnicos e cientistas estrangeiros (entre os quais cita-se, evidentemente sem provas, o capitão americano Charles Chandler, que sob esse pretexto viria a ser assassinado pelos comunistas); e que, de outro lado, os tais técnicos não fossem capazes nem mesmo de simular um suicídio verossímil no caso do Vladimir Herzog, deixando o morto, ao contrário, numa posição em que só faltava mesmo ele voltar à vida para informar que fora assassinado. Na época, a contradição patente entre os propalados requintes da arte da tortura e a grosseria pueril do suicídio simulado me escapou totalmente, e, tendo sido um dos primeiros a promover o abaixo-assinado que exigia a investigação do episódio, tive toda a razão em apostar na hipótese do homicídio, mas, levado pela gritaria geral que eu mesmo ajudara a fomentar, dei por pressuposto, sem exame, que se homicídio houvera seus autores só poderiam ter sido os militares. Estes, por seu lado, insistindo na tese do suicídio, caíram no ridículo e acabaram levando a culpa do ocorrido. Hoje em dia, porém, vejo que entre as duas hipóteses há uma terceira que foi rapidamente varrida para baixo do tapete e jamais investigada. Na época, o cônsul da Inglaterra em São Paulo informou ao então governador paulista Paulo Egydio Martins, que Herzog era um agente do serviço secreto inglês infiltrado entre os comunistas brasileiros. O cônsul dizia ainda ter sido um dos últimos a encontrar-se com Herzog antes da morte deste. Martins, sabe-se lá por que, em vez de mandar tirar isso a limpo preferiu guardar a informação em segredo, só a revelando muito depois no seu livro de memórias, onde ela não teve a menor repercussão e foi enterrada ainda mais fundo pelo decurso do tempo, consagrando na memória jornalística e popular a versão do homicídio praticado pelos militares contra um intelectual comunista inocente de qualquer participação em atos terroristas. Para mim, hoje, é CLARO que a declaração do cônsul inglês fornece a única explicação possível para a hipótese absurda de que os habilíssimos torturadores científicos não fossem capazes de simular um suicídio mais acreditável. Herzog não foi, obviamente, assassinado por militares treinados, mas por militantes comunistas, presos como ele, alertados pela intimidade suspeita entre o prisioneiro e o cônsul. A coisa toda não foi um "crime da ditadura", mas um dos tantos "justiçamentos" praticados pelos comunistas contra aqueles a quem consideravam traidores e espiões.] (Olavo de Carvalho)

Unknown disse...

Sempre a mesma história contada pelos mesmos, dando suas versões e tirando proveito disso, escrevendo seus livros e comentários, faturando. Vivi nesta época e posso afirmar, estávamos mais felizes e seguros do que agora, e a maioria que viveu durante o regime militar gostaria de afirmar isso, mas não tem voz.

Anônimo disse...

O seu comentário é muito interessante. Eu sabia que alguma coisa nao se encaixava no caso da morte de HERZOG. Nao poderia supor que ele fosse um agente do Serviço de Inteligencia britanico infiltrado. A sua morte é um ponto de interrogacao até hoje. Nao foi um suicidio, foi um justiçamento . Agora sim, tudo se encaixa. Muito bom !!

ALMANAKUT BRASIL disse...

2020 será o ano da AI-5mania, para que venha a tão esperada FAXINA GERAL contra os podres nos poderes, e que nunca mais deixe herança maldita para o futuro do Brasil.

Renato Bulhoes disse...

Ainda bem que os comentários salvam a abertura desta página web, pois a postagem principal, motivo de ser da página, "velhacamente", isenta toda a trajetória de violência da esquerda àquela época e a razão de os militares terem optado permanecer no poder. Pelo povo trabalhador estariam até hoje. Veja, entregaram o poder para a esquerda, e o que temos hoje ? Um Congresso tomado por raposas e uma bolsa ditadura amoral entre muitas outras incongruências e disparidades como é natural da inconsistente e contraditória esquerda . Não é de se estranhar, que os alunos sintam tanta ojeriza pela matéria de História, pois no fundo apercebem-se, intuitivamente, que esta tem sido contada baseada em inverdades e distorções esquerdísticas. Leiam " A Verdade Sufocada" de Carlos Alberto Brilhante Ustra, de preferência comprado direto da viúva dele, que cuidava das prisioneiras de passagem como se da família dela fossem.

Renato Bulhoes disse...

HOJE É ONZE DE AGOSTO http://mariosanchezs.blogspot.com/2013/08/onze-de-agosto.html?fbclid=IwAR3yELu1eNlMpPp2EG-gKVNKExv6885PF63C9UBl6p_sUb8HFdhFGXkfFvM
FALAR LATIM, DAR NÓ DE GRAVATA E BEBER CERVEJA... QUE TEM ISSO A VER COM A MORTE DE HERZOG? Há 55 anos fui aprovado e comecei meu curso nas Arcadas. Os veteranos do Onze de Agosto diziam – Aqui você pode estudar e aprender muita coisa, mas basta falar Latim, saber dar nó em gravata e saber beber cerveja, que será diplomado e será um bom advogado... No correr do curso, além de adotar o nó de gravata que se desmancha simplesmente puxando, sem dar nó cego, deu pra entender que o bom advogado não apenas comparece de gravata ao serviço, pois sabe dar nó em processos, guardando sempre o modo de desfazer o nó... Já quanto a falar Latim, como os termos do direito romano são em Latim, a linguagem tabelioa e os termos judiciais utilizam o Latim, o advogado acompanha. Beber cerveja não nos parecia algo recomendável, mas, agir sem deixar qualquer sucesso subir à cabeça, isto é saber ser comedido nas bebidas e comidas. O tempo passou. Alguns trabalhos jurídicos aconteceram. Problemas me levaram a uma úlcera e aos 40 anos fiquei sem estômago, ameaçado de só aguentar mais 8 anos se tivesse muito cuidado com bebidas e comidas... Era começo de 1975. Tirei a gravata. Deixei de considerar-me advogado. Fiquei longe do Latim. Beber cerveja? Nem sonhar. Estava ainda em vigência o AI5. Vi nos jornais a foto de W.Herzog supostamente acusado de suicídio na prisão. Dias depois cruzo na rua com um “camarada” que não sabia que eu há muito havia abandonado os “cumpanheros” por não concordar com a violência. Após os cumprimentos e minha explicação da cirurgia, ele perguntou: “Paga uma cerveja pra mim?” Concordei. Assentamos num bar do centro de SP. Não deixei encher meu copo e fui perguntando: “Como se sente com a repressão?” Responde ele: “Não temos grandes problemas... Estamos infiltrados em toda parte...” Continuei: “Viu o Herzog? Nenhum de nós pode aceitar suicídio, após ver aquela foto...” Após mais uma cerveja ele completou:”Foi uma bênção para o Partidão essa morte.” Mais uma cerveja e ele comentou: “Foi um camarada encarregado de fazer o trabalho... Foi lá e outro camarada lhe abriu o caminho como amigo que ia consolar o jornalista... E depois, não havia registro dessa visita.” Revidei: “Mas, como isso pode aproveitar ao PC?” Com uma boa risada, após esvaziar mais um copo, completa ele:”O Wladô era judeu... Burguês, classe média. Escrevia muito bem. Porém era contra a revolução armada. Agora atiramos a culpa nos militares, ao mesmo tempo que ficamos livres de um companheiro inconveniente”. Ele já não estaria enxergando bem. Não percebeu que fiquei gelado. Eu também sabia ter ascendência dos ladinos da Espanha... Também tinha renda de classe média. Também gostava de escrever e recebi elogios pelas redações. E também havia deixado os que queriam terror... Paguei a conta e segui meu caminho, que passava pelo Largo de São Francisco. Relembrei os tempos de estudante. Monologuei: “Dar nó de gravata... Assim se foi o Wladô... Beber cerveja? Nem pensar. Falar Latim? Nem poderia contar isso a ninguém, em Latim ou em qualquer língua! Como fazer as provas?” Passei muitos anos relembrando essa noite, com um nó na garganta. Hoje é Onze de agosto. Agora posso dizer – Eu entendi nessa noite de 1975 o verdadeiro significado de “Saber o que é falar, ou calar, em Latim; saber dar nó em gravata; saber beber ou não beber cerveja”. COMENTÁRIO, DIRIA KONGFUTZÉ – A GRANDE SABEDORIA PARA A PERFEIÇÃO DE NOSSA CONVIVÊNCIA É NÃO FAZER AOS OUTROS O QUE NÃO QUEREMOS QUE NOS FAÇAM."

Renato Bulhoes disse...

Ricardo Nascimento no Facebook do Olavo de Carvalho:
O caso do Herzog é provavelmente o único caso de simulação de suicídio por suspensão incompleta que se tem notícia na história. Além dessa afirmação do Paulo Egydio, outro detalhe importante sobre o caso Herzog que virou tabu é o estado que ele se encontrava quando foi preso e a posterior patrulha da esquerda sobre o médico dele, o neuropsiquiatra Pedro Paulo Manzano Uzeda Moreira.
Aqui um comentário escrito por Sylvia Manzano no Novae em 2007 (hoje indisponível):
"Achei muito estranho o depoimento da Clarice. quando o Vlado morreu, eu fazia psicodrama em grupo com o Dr. Uzeda Moreira. O Vlado também fazia psicodrama com ele, embora fosse de outro grupo. Todos nós, porém, sabíamos que a Clarice tinha se separado dele, já estava com novo amor, ele estava muito deprimidido, inclusive tomando medicamentos e fazia 3 sessões que ele era o protagonista no tablado, antes de sua prisão. Aqui, ela não faz nenhuma menção dessa separação e eu penso que o tempo apaga certas coisas da memória das pessoas, mas de outras, não. Eu vi, estava lá, fui testemunha dos fatos." (Fonte: http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo...)
Aqui um comentário escrito por Denise Macedo no blog do Favre em 2008 (hoje indisponível):
"Existe uma história que eu não esqueço jamais. Eu fazia psicodrama como Dr. Pedro Paulo Uzeda Moreira e o Vlado também. Ele era de um grupo anterior ao meu e todos nós sabíamos que tinha sido abandonado pela Clarice, que já estava morando com outro, que estava muito deprimido, que tinha sido protagonista há quatro semanas e que estava tomando anti-depressivos e não apresentava nenhuma melhora. Logo depois foi preso e morto no Doi-Codi. A Clarice imediatamente entrou no papel de viúva inconsolável e queria que o Dr. Uzeda desse um atestado para os jornais dizendo que o Vlado estava muito bem antes de ser preso. O Dr. Uzeda dizia que a medicina era um sacerdócio e ele não costumava dizer o que se passava nas sessões que ele dirigia. Seria uma mentira dizer que o Vlado estava muito bem, mas não foi isso que impediu que o Uzeda não desse o atestado, é que ele realmente acreditava que não devia falar de nada que acontecia nas sessões e era exatamente por essa razão que confiávamos tanto nele, que o respeitávamos tanto e o amávamos, por que não dizer. Clarice foi aos jornais, disse que ele não quis dar o atestado, ele sofreu uma tremenda patrulha dos intelectuais de esquerda da época e morreu precocemente de um ataque cardíaco, alguns anos depois. Nós bem percebemos o quanto foi difícil para ele, a pessoa que trouxe o psicodrama da Argentina para o Brasil, um profissional de ilibada reputação ver seu nome praticamente denegrido na época. Até hoje, quando leio notícias do Vlado, me surge uma revolta muito grande por ver que a história comete injustiças de todos os lados, não só do lado da ditadura, mas também do lado daqueles que se julgavam os defensores da liberdade. Até hoje considero a atitude do Dr. Uzeda de muita coragem e dignidade e até hoje sofro a sua morte, prematura e precoce demais para o meu gosto."(Fonte: http://blogdofavre.ig.com.br/.../indenizacoes-e-historia.../)
Trecho do livro "MASP 1970 - O psicodrama":
"Segundo seu filho, Fernando, Uzeda sempre foi um homem de esquerda, e entre seus clientes estava o jornalista Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura militar em 1975. Fernando continua: 'o posicionamento que meu pai tomou diante da morte de Herzog, alegando sigilo profissional, foi decisivo para que fosse execrado pelos grupos de esquerda, que nunca o perdoaram por não ter se aproveitado da morte politicamente'."(MASP 1970 - O psicodrama; páginas 147-148)

Renato Bulhoes disse...

Renato Araujo Ramos em comentário no Facebook: "Lembrando que Herzog trabalhou na BBC, na Inglaterra, de 1965 à 1968. " https://www.facebook.com/carvalho.olavo/posts/1162353127250093/