sexta-feira, 3 de abril de 2020

O Jogo do Capitão



Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Gaudêncio Torquato

A politização da pandemia era bastante previsível por esses nossos trópicos. Afinal, a tensão que alimenta as correntes pró e contra o governo Bolsonaro é detectada no radar da política desde os idos eleitorais de 2018, e o comportamento açodado do chefe do Estado, nos últimos tempos, tem funcionado como lenha na fogueira. A esta altura, não há arquitetura diplomática que consiga conciliar as duas visões que impregnam o pensamento nacional.
De um lado, a banda da intelligentzia, liderada por cientistas e especialistas, que recomenda a rígida quarentena com ênfase nas pessoas com mais de 60 anos, e, de outro, a ideia de abrir o portão travado da economia, com a volta ao trabalho daqueles que não estão na área de risco, pressupondo, ainda, a abertura das escolas e das atividades produtivas.
A primeira linha é compartilhada pelas principais lideranças mundiais, governos e instituições, a partir da Organização Mundial da Saúde; a segunda tem na vanguarda de defesa o nosso presidente Jair Bolsonaro. Que quer jogar um jogo usando suas próprias regras. Até sua fonte de inspiração e exemplo, Donald Trump, teve que recuar de sua posição inicial – de considerar passageiros os efeitos do Covid-19, e aceitar o regime de quarentena nos Estados Unidos, que agora se transformam em epicentro da pandemia.
A tese de que a economia fechada pode ser pior que fechar a população em suas casas é polêmica, mas a maior parte dos pensadores, incluindo os economistas, aponta como absoluta prioridade a luta para "salvar vidas". Deixemos a discussão para os especialistas e vejamos o que poderá ocorrer ao país na roça da política, a partir das duas correntes que continuarão a pelejar na arena da disputa político-eleitoral.
Primeiro, é fato que o presidente Bolsonaro perde razoável parcela de seu vetor de forças. Os governadores fazem um cerco a ele. Os seus 30% de votos dão sinais de arrefecimento. Já não teria hoje 57 milhões de eleitores. Seus exércitos nas redes sociais já não mostram o sentido aguerrido dos primeiros meses de governo. Segundo, fortes parcelas das classes médias, que nele votaram, se distanciam de um discurso cada vez mais assombrador. Terceiro, o Congresso, mesmo disposto a aprovar as pautas de interesse do Executivo, sob a sombra aterradora do coronavírus, tende a agir com independência. Os presidentes do Senado e da Câmara, Davi Alcolumbre e Rodrigo Maia, fizeram duros pronunciamentos sobre a manifestação presidencial tratando da crise pandêmica.
O capitão não dá sinais de que vai mudar de ação ou de expressão. Os generais que o cercam com ele se alinham, mesmo com imenso esforço para interpretar o que ele disse. O vice Mourão até tentou dizer que ele teria se comunicado mal ao ser contra a quarentena. Ora, é contra mesmo. O ministro da Saúde, Henrique Mandetta, também tentou driblar o verbo para não desdizer o chefe. O chamado gabinete do ódio, com presença dos olavistas e do filho Carlos, é quem dá o tom do discurso presidencial.
O nó está feito. Quem poderá desatá-lo? Apenas o desfecho da crise contém a resposta. Se a curva da morte continuar a subir em escala progressiva e acelerada, os defensores de rígida quarentena elevarão sua expressão. A recíproca é verdadeira. Portanto, o resguardo da imagem presidencial está a depender da evolução – negativa ou positiva – da crise.
Os governadores, unidos na guerra contra a pandemia, poderão se transformar em grandes cabos eleitorais das eleições de outubro ( se não forem adiadas sob o calor de uma luta que deixará marcas profundas no corpo nacional). A esfera política tenderá a agir com pragmatismo. Nesse caso, mais adiante, levarão para a balança os pesos a favor e contra Bolsonaro. E se este continuar a acirrar a animosidade, terá contra ele a maioria do Parlamento. Será muito difícil ao presidente subir ao pódio de 2022 caso continue a apostar no confronto com alas contrárias e a repudiar as pressões dos conjuntos parlamentares. Claro, 2021 poderá apresentar um PIB de índice mais elevado. Esta será a esperança do capitão. Que já pode inserir 2020 em seu arquivo de tempos perdidos. Mesmo com o jogo ainda no primeiro tempo, sua posição já está reservada na galeria dos líderes mais estrambóticos do planeta.
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicaçãoTwitter@gaudtorquato

6 comentários:

Mauro Moreira disse...

Nada, nada! Uma só palavra sobre os milhões se esvaindo pelos ralos do Congresso, do Judiciários, enquanto bilhões clamam por uma simples máscara, por uma estratégia de garantia do pão de cada dia na mesa de seus lares. Nada sobre os bilhões de reais gastos em Olimpíada e em campos de futebol majestosos para Copa do Mundo, até mesmo em lugares que o futebol sequer possui times profissionais ou onde os campeonatos são deficitários, como de resto, creio que são todos. Nada sobre um fundo eleitoral bilionário para eleger velhos conhecidos da política imunda praticada no nosso país, enquanto milhões, milhões de seres humanos são tratados como animais em corredores de hospitais sem a mínima condição de higiene, que só sobrevivem pela dedicação de seu corpo de profissionais, que são mal remunerados enquanto deputados gastam 77 milhões por ano para pagar seus "aspones", quase 50 ou mais para cada de deputado. Quantos enfermeiros trabalham em um hospital público para cada paciente? Quantos médicos? Nada sobre um STF que gasta quase ou mais de 2,5 milhões para comprar caviar, vinho finos, whisky "blue label". Nada, absolutamente nada, sobre o que realmente nos mergulha nesse charco em que transformaram nosso país, e não nos dão a mínima possibilidade de dele sairmos, porque enquanto chafurdamos nesse charco, eles vivem nababescamente em suas mansões,fazendas, voando em seus jatinhos ou nos nosso, da FAB. Nada, absolutamente nada sobre a mediocridade dos presidentes da Câmara, do Senado e do STF. Nada sobre um Congresso que legisla em causa própria, um STF que só faz soltar bandidos e decidir sobre assuntos pertinentes ao Executivo afrontando a Constituição que deveriam respeitar, impedindo o presidente de governar, em quase tudo em conluio com o Congresso. Nada sobre governadores tentando fazer da tragédia que ora nos aflige trampolim político. e agindo de maneira afoita, sem medir as consequências danosas de suas decisões. Enfim, assim será até o fim - se é que terá um fim - desse holocausto provocado pelo regime chinês tão admirado e incensado pela esquerda psicopata.

sergio soares disse...

Gaudêncio Torquato,TU ÉS UM EXCROTO.

Silvio Friederichs disse...

Pois é Sr. Mauro Moreira. Esperar o que de um "jornalista" e "professor da USP" ???

Chauke Stephan Filho disse...

Gaudêncio Torquato? Anódino!

Mas por quê?

Porque o mal do Brasil não tem cura. Quando a doença não tem cura, o melhor é esquecê-la, paliar, falar de coisas mais amenas, entreter o doente com a ilusão da normalidade (institucional). O que é só mais um sintoma da doença (social). Não, o Brasil não pode se curar, não no "Estado democrático de direito" da OAB, do Congresso, do STF.

O jornalista Gaudêncio Torquato só quer ser feliz nas condições de que depende para exercer sua profissão. É como um animalzinho em seu hábita, que não pode transgredir as leis da natureza. Como falar de coisas irrelevantes para o mercado? Como manchar sua imagem tão prestigiosa no estabilismo? Não, ele não pode alienar dele a própria clientela. Ele é um consultor "político", não pode ser muito polêmico, muito "estrambotico". Isso só pode acontecer com o louco que fala o que pensa, como o extravagante Bolsonaro.

Torquato não segue Platão. Platão dizia "Ousa falar o que pensas!".

Mas Bolsonaro segue.

Percebe-se aí a diferença entre um "consultor politico" e um agente político. O primeiro atende ao interesse de seu cliente, quer levar vantagem, lucrar, busca o "sucesso", sempre parecendo "respeitável". O que fala é assim como um passeio sem nenhum tipo de sobressalto. Ele tem o rabo preso. Isso é política? Não! Isso é a antipolítica. Isso nem é jornalismo. Torquato não é um jornalista, é só um "midiador".

O agente político, por sua vez, é quem representa sem deixar de se apresentar. Ele não finge, ele não foge aos problemas, ao contrário: o "problema" pode ser ele mesmo. Porque é autêntico, o verdadeiro político não teme desafiar a ditadura politicamente correta. Ele percebe que o animal político jamais será domesticado, sabe que a guerra nunca deixará de ser a continuação da política por outros meios.

Quanta diferença! O pseudopolítico quer ganhar a próxima eleição, enquanto os sinceros e radicais dispõem-se a abraçar o martírio por sua gente, sua causa. No campo do conflito social, o político legítimo deve ser o general... ou o capitão. Rendição, covardia, traição, corrupção? Nunca!

Na guerra, importa identificar e localizar o inimigo. Mas na falsa e podre política, todos são "amigos". Militares trocam chumbo, "politicos" trocam favores. Truculência, violência, de um lado, paz e diálogo de outro? Ledo engano: há mais paz num quartel do que numa praça.

Eis a verdade que a "jornalistas" como Gaudêncio Torquato não interessa publicar.

Anônimo disse...

Torquato....de quatro.

Anônimo disse...

Na balança do Torquato 2020 foi um ano perdido pelo Bolsonaro! Em oposto ao que disse Torquato, ano ganho é ANO ROUBADO, tem que se um ano com muitos roubos! (quem disse isso foi o Torquato). Logo, não roubar para Torquato é caso grave, gravíssimo, é tempo perdido!
Politicamente dá para antever quem são os politicos que Torquato admira, são aqueles que
GANHAM O ANO APÓS ANO ROUBANDO, SEM PERDER TEMPO!