segunda-feira, 29 de junho de 2020

Idade-fobia: pandemia escancara preconceito da sociedade com idosos


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Juliana Contaifer
Desde o início da crise sanitária, as pessoas com mais de 60 anos precisam escutar que a Covid-19 mata “apenas” velhos, como se eles fossem descartáveis.
“Quando um idoso morre, uma biblioteca se incendeia”. O ditado, sem origem conhecida, mostra o prejuízo sofrido por uma sociedade que perde uma geração que já viveu (e sobreviveu) a todo tipo de provação. O conhecimento, a história, a força do exemplo viram cinza e fumaça.
A pandemia do novo coronavírus, além de colocar a vida da população em risco, escancarou o preconceito com os mais vividos. Grupo de risco da Covid-19, os maiores de 60 anos entraram em isolamento social rapidamente e acompanharam, pela tela da televisão ou do celular, o caminho do vírus que foi matando 4.648 pessoas na China, 34.708 na Itália, 28.338 na Espanha, 124.161 nos Estados Unidos e 57.070 no Brasil. Sem dó, o Sars-Cov-2 levava, principalmente, os mais velhos. Em alguns países, era preciso escolher quem ia viver: o idoso ou o jovem.
Depois, veio o desrespeito. Eles precisaram escutar que a doença mataria “apenas” idosos, como se fossem descartáveis. Que eram teimosos e ingênuos e que precisavam ser tratados como criança para obedecer o isolamento. Que era “só” separar os mais velhos e liberar os jovens para fazer a economia girar, ignorando a dependência de muitas famílias sobre a renda dos aposentados.
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido), contrariando especialistas internacionais, defende o isolamento apenas dos “mais idosos, quem tem doenças e é fraco”. A economista Solange Vieira, da Superintendência de Seguros Privados (Susep), autarquia vinculada ao Ministério da Economia, chegou a afirmar que era “bom” as mortes se concentrarem entre os aposentados. “Isso melhorará o desempenho econômico, pois reduzirá nosso déficit previdenciário”, disse.
Enquanto o turbilhão de informações e emoções ia tomando conta do noticiário, a patrulha da população não se furtou em humilhar quem saía às ruas desprotegido. Nossos velhos se esconderam. Aqueles que entendem melhor a tecnologia, conseguiram manter a comunicação com a família e amigos por chamadas de vídeo. Outros, sem muita intimidade com o celular, acabaram se isolando ainda mais.
Sem poder sair para as suas atividades sociais, ir ao banco, à igreja, ao mercado, ao banquinho da praça, a saúde mental dos idosos vai se deteriorando. Muitos também abandonaram os exercícios físicos e precisam se desequipar para enfrentar o mundo pós-pandemia.
Mas, em contrapartida, há quem tenha encontrado conforto e segurança na nova rotina diária. Eles sentem falta dos abraços dos familiares, mas aceitaram que o momento é de introspecção. Para saber como os idosos estão se sentindo durante a pandemia, o Metrópoles foi atrás deles. Usando as redes sociais, perguntamos como está sendo o isolamento.
Recebemos 50 relatos. Algumas pessoas estão aproveitando o tempo livre para construir uma nova parte da casa, outros decidiram rever os armários e as roupas que não servem mais. Muitos se redescobriram na cozinha, aprenderam a assistir a filmes nas plataformas de streaming ou se engajaram em um novo hobbie. Há também quem esteja com medo, paralisado pelo receio de ser inútil e pela proximidade da morte, com saudade da família e só pedindo, todos os dias, que a ciência derrote o novo coronavírus e a vida volte logo ao normal.

Juliana Contaifer é jornalista formada pela Universidade de Brasília (UnB) e desde 2017, trabalha no Metrópoles. Venceu o Prêmio Bradesco Longevidade e o 25º Prêmio CNT de Jornalismo na categoria Internet.

Um comentário:

Anônimo disse...



"Desde o início da crise sanitária, as pessoas com mais de 60 anos precisam escutar que a Covid-19 mata “apenas” velhos, como se eles fossem descartáveis."



Desculpe-me discordar da introdução do artigo.

Não é bem assim que particularmente escutamos. Escutamos que a Doença mata mais pessoas idosas PORTADORAS de OUTROS PROBLEMAS de SAÚDE e as pessoas mais jovens que morrem, TAMBÉM são PORTADORAS de OUTROS PROBLEMAS de SAÚDE.
E também, não é porque eles são descartáveis, mas sim pelo fato de que podem estar com outros problemas de saúde e estarem debilitados. Todo mundo sabe que as pessoas com mais idade são propensas há problemas de saúde. Isso é fato.
Esse virus foi propagado propositalmente e há sim um preconceito contra os idosos. Pensamos que os responsáveis por esse virus querem muito se livrarem dos idosos, mas não por eles serem um peso, mas pelos seus grandes conhecimentos, por seus costumes, pelos valores judaico cristão enraizados desde criança.