segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Democracia e fragmentos da realidade


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net

Por André Luís Vieira

Num desses contos que circulam pelas redes sociais, recebi um que dizia assim: “Triálogo problemático entre o psicótico, o psicopata e o neurótico: O psicótico afirma: “2 e 2 são 3!”. O psicopata retruca: “2 e 2 são 3, se eu devo algo a você, 2 e 2 são 7, se você deve algo a mim!”. O neurótico, inconformado, arremata: “Pessoal, não é nada disso! 2 e 2 não são 3, e muito menos são 7! 2 e 2 são 4, mas é isso que me angustia!”. Moral da história: o psicótico e o psicopata vivem ambos fora da realidade, mas o psicopata sempre quer tirar vantagem de tudo. O neurótico vive na realidade, mas esta causa-lhe profunda irritação e angústia”.

Diante dessa história, entre indivíduos psicopatas, psicóticos e neuróticos, por onde andará a verdade em nosso país? Quais são os impactos da guerra de narrativas e de diferentes percepções da realidade em nossa democracia?

Fato é que vivemos numa era em que o povo, sempre o povo, se tornou mero espectador dos acontecimentos. Acontecimentos esses que mais parecem uma obra de ficção surreal, uma novela das oito de mau gosto e que a cada dia nos traz um episódio de descaso e abandono da sociedade à própria sorte. Na prática, é o alargamento do sentido de absurdo, que transforma nossa realidade caótica numa subcidadania banalizada.

A imagem que refletimos é de um país ingovernável, descompromissado com a ordem e o progresso e fadado ao permanente fracasso histórico, satisfeito em ser o eterno “país do futuro”.

Se por um lado assistimos à proliferação de notícias falsas que comprometem as bases de nossa democracia, de outro a desinformação e até a sistematicidade da negação de informação igualmente não colabora com um processo verdadeiramente democrático. E assim, o que assistimos é ao show de retóricas vazias e narrativas incoerentes, onde a verdade fica relegada ao papel secundário.

As redes sociais se transformaram numa praça de guerra, onde se ofende gratuitamente a quem se discorda, pelo simples fato de se discordar. Não há mais reputações inidôneas ou biografias sólidas, tudo é rotulado e caracterizado conforme o compromisso com a ideologia que se professa.

Apenas à título de exemplo, cito o vídeo em que um militante “humanista” se apresenta como veementemente contrário à pena de morte, cabendo uma única exceção, qual seja, o fuzilamento de “fascistas contrarrevolucionários”.

É a ideologização de tudo! É a politização de tudo!

Tem radicalismos para todos os gostos e narrativas falaciosas de todos os matizes. No fundo, no fundo, trata-se de um autêntico “nós contra eles”, dignos de “FlaFlu”, “BaVi” ou “Grenal”.

O debate que se impõe é pelo repensar dessa lógica cega e acrítica de posicionamentos antagônicos extremados, que, em realidade, são a mesma coisa, só que dotados de sinais trocados. Trata-se de verdade universal e insofismável que os extremos se tocam, se tangenciam. É a fatídica soma zero!!!

A necessidade urgente é fazer valer o diálogo verdadeiramente democrático, para não permitir que aquela máxima de Millôr Fernandes, “democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim”, continue a prosperar no nosso país.

O povo, sempre ele, é quem continuará pagando pelas consequências. Este é vítima e algoz, ao mesmo tempo. É vítima dos algozes que cria, alimenta, fortalece e elege.

Enquanto debates acalorados e infrutíferos persistem, nossa democracia continua sob o imenso risco de captura pelo narcoterrorismo, pelo crime organizado e pela corrupção sistêmica.

Será que já não passou da hora de se reavaliar profundamente o impacto do poder econômico dessas organizações criminosas e corruptas na proliferação e na eleição de representantes ilegítimos, em nossa combalida democracia?

O grande paradoxo da democracia é que nela residem, concomitantemente, os genes de sua preservação e de sua destruição. Este último, resta evidente quando se vale de mecanismos democráticos para se atingir o poder e de lá atacar a própria democracia que o legitimou. O risco da autocracia se dá em todos os matizes ideológicos!!!

Se não acordamos para esses aspectos, nossa democracia estará fadada a permanecer no status de democracia meramente retórica e na soma zero da subcidadania.

André Luís Vieira é Advogado.

4 comentários:

Mauro Moreira disse...

Excelente análise, doutor. Que tal começar a mudança pela própria OAB, eliminando seus privilégios, sua excessiva influência nas decisões do Judiciário. Punição rigorosa de advogados desonestos e criminosos. Fim do privilégio do tal Quinto Constitucional, verdadeira excrescência. Urgentemente, desaparelhar a OAB, começando pelo presidente comunistas que a preside no momento.

Anônimo disse...

Mistério: por que toda a classe jurídica continua emprestando protagonismo à esquerdista OAB se ela não tem existência jurídica?

Anônimo disse...

Prezado Anônimo, creio que haja um equívoco em sua afirmação. Em hipótese alguma toda classe jurídica apoia a postura ideológica da OAB.
Existe, inclusive, um movimento crescente na advocacia que afirma a não representatividade da OAB à classe.
No meu caso, em particular, entendo também que a OAB deve se ater à garantia das defesas de prerrogativas da advocacia. Tanto é que já publiquei um artigo intitulado "Advocacia sim, ideologismo não..."

Anônimo disse...

Caro Mauro Moreira, o ideologismo presente na OAB não representa toda a classe da advocacia.
Existe, inclusive, um movimento crescente na advocacia que afirma a não representatividade da OAB à classe.
No meu caso, em particular, entendo também que a OAB deve se ater à garantia das defesas de prerrogativas da advocacia. Tanto é que já publiquei um artigo intitulado "Advocacia sim, ideologismo não...", onde questiono a total falta de transparência institucional da OAB para com a sociedade e para com os próprios advogados.
Portanto, não me parece justo julgar o todo pela mínima parte, que são aqueles abarcados em seus pertinentes comentários.