domingo, 28 de fevereiro de 2021

O Brasil falante não conhece o Brasil


Artigo no Alerta Total - www.alertatotal.net

Por Percival Puggina

É fato. Há um Brasil que fala e fala muito. Fala nos microfones, diante das câmeras e nas redações dos jornais. Fala nas cátedras, nas salas de aula e em conferências. Fala nos púlpitos, nos tribunais e nos manifestos. Fala nas Lives e nas redes sociais. Falam uns aos ouvidos dos outros. Mas se algo os caracteriza é o desconhecimento tátil, olho no olho, do Brasil que não fala, parte significativa do Brasil real. Para conhecê-lo, é preciso observação persistente e continuada e poucos, pouquíssimos vão até lá. Poucos se importam. Pouquíssimos se importam! Não se importam os que, no verão, vão para a praia, os que mantêm suas festas e superlotam seus points. E falam, uns para os outros.

É fato. Há um Brasil mudo, dos brasileiros cuja única esperança é continuar sobrevivendo em meio às próprias carências, tendo a fome como companheira do desemprego.

Esse Brasil não veraneia nem festeja. Esperneia e, com sorte, toma uma cerveja.

Também sou do Brasil falante. Também falo e sou ouvido pelos que igualmente falam. Faço conferência, escrevo, assino manifestos e gravo vídeos, que são ouvidos e assistidos por outros falantes como eu. Também eu não conheço o Brasil mudo. E vice-versa.

Outro dia, enquanto era atendido por um trabalhador no Brasil falante, perguntei a ele como ficaria a situação dele a partir das novas regras impostas àquela atividade. Seu olhar foi um discurso. Um manifesto. Uma Live inteira.

Não acredito que a paralisação de tantas atividades não possa ser substituída por outras medidas menos danosas a parcela tão significativa da sociedade! Não acredito! Assim como não me convencem os que acham que está tudo bem, mesmo que as UTIs estejam superlotadas, tampouco me convence esse Brasil alto-falante, que fala quase sozinho, hegemonicamente, dizendo sempre a mesma coisa. E deixando mudo - mudo! - o outro Brasil

Não, não está tudo bem. E novamente não. A solução não pode ser necessária e exclusivamente essa que aumenta a miséria de dezenas de  milhões. Ouçam menos a si mesmos, senhores. Ouçam menos a quem só fala.

Percival Puggina (76), membro da Academia Rio-Grandense de Letras e Cidadão de Porto Alegre, é arquiteto, empresário e escritor.

Um comentário:

Anônimo disse...

Os pobres na periferia também estão mantendo suas festas. Seria um Brasil que faz sua vida descolado das decisões governamentais. Talvez sejam uma esperança de espírito independente no país.