domingo, 14 de fevereiro de 2021

O LADRÃO E O POLÍTICO


Poesia no Alerta Total - www.alertatotal.net

Por José Augusto

 

Eu cresci numa família

Que dizia todo dia:

– Pode andar remendado,

Contudo nunca podia

Andar sujo pelos cantos

Essa era a filosofia.

 

E também dizia que:

– Tem um sujo que não sai

Nem com água com sabão,

Quarando dias não vai

Ser limpo nem esquecido

É o roubo, disse papai.

 

Disso nunca esqueci.

Como me lembro também

De Tio Chico Cachico

Que era pra nós armazém

De história pra contar

Da terra, céu e além.

 

Pois Tio Chico Cachico

Era um homem tranquilo

Nunca se preocupava

Nem com isso, nem com aquilo

E vivia viajando,

Assim posso defini-lo.

 

Uma noite ele contou

Depois do nosso jantar

Pra gente uma história

Que ouviu alguém contar

Dum ladrão e dum político

Das terras do além-mar.

 

Na capital dessa terra

Ele disse que existia

Muitos ladrões, traficantes

De toda categoria,

Mentirosos, enganadores

Em todo ponto se via.

 

Mas lá tinha um ladrão

Muito rico, poderoso,

Temido na capital,

Respeitado, rigoroso;

Quando algo dava errado

Ficava mais perigoso.

 

Ele um dia recebeu,

Uma visita surpresa

Do prefeito do lugar

Que estava na redondeza.

Querendo falar com ele

Foi a sua fortaleza.

 

– Muito bom dia nobreza

Falou o prefeito dando

Um abraço e um presente

E a mão dele apertando:

– Eu estou muito feliz

Por estarmos celebrando...

 

Esse encontro que será

Muito mais do que perfeito,

Louvável, satisfatório

Como se ganha respeito

Desse amigo que está aqui

Bem guardado no meu peito.

 

O ladrão desconfiado

Perguntou: – O que deseja?

Com esse discurso belo,

Me diga logo o que almeja,

Deixe de tanto arrodeio

Porque não sou de peleja.

 

Disse o prefeito: – Pois bem!

Estou em vossa presença

Pra solicitar apoio

De sua vontade imensa,

Um pouco de capital,

Essa é só minha pretensa.

 

Assim respondeu o ladrão:

– Eu não sou homem sabido

Do colégio fui expulso

Das letras sou um fugido,

Mas sei muito bem quem é

Ladrão, igual a mim, fingido.

 

Vou dar o que está pedindo,

Porém com uma condição:

Que você me ensine a ser

Político dessa nação.

Respondeu o prefeito: – Claro!

Veja a primeira lição!

 

Sempre, sempre diga sim.

Nunca diga “não” a alguém,

O que tem se ofereça,

Até mesmo o que não tem,

Sem poder fazer prometa,

Isso é o que nos mantém.

 

Faça discurso bonito,

Diga que ama sem amar,

Coma qualquer porcaria,

Dê com a mão sem precisar,

E sem ter graça ria...

Somente para enganar.

 

Nunca perca um só contato,

Mande santos-calendário

Desejando boas festas.

Não perca um funerário,

Sem nenhum esforço chore

Fingindo ser solidário.

 

À família dos defuntos

Dê um brilhoso caixão,

Um ramalhete de rosas,

Aperto de mão em mão,

Diga que vá procurá-lo

Pra comer de seu pirão.

 

Dê um remédio pra quem

Não tem mais nenhuma cura.

Cesta básica de arroz,

Sal, farinha e rapadura.

Litros de leite de soja

E doses de cana pura.

 

Pague pinga pra pinguço,

Decore o nome do povo,

Abrace abraço fedido,

Dê cheiro em menino novo

Diga que passou o dia

Andando só com um ovo.

 

Tenha uma legião

De babões pra defender,

Divulgar tudo que faça,

Mesmo sem verdade ser.

Mas sabe como é babão,

Gritem eles sem dever.

 

Faça mistério de tudo,

E diga que é atacado

Pelo seu adversário

Que não passa dum safado.

Esconda-se do povão

Depois dele ter votado.

 

Eu sem bater a pestana

Disse: – É mesmo que está vendo

Todos os políticos daqui.

Mas Tio Chico fazendo

Um gesto co’a sua boca

Não para a prosa dizendo:

 

– E depois de sete meses

De ensino-aprendizagem

O ladrão decide ser

Parte dessa plumagem:

Que a gente empurra, empurra...

Sem ver nenhuma vantagem.

 

E disse para o prefeito:

– Eu quero participar

Da divisa do dinheiro,

Muito fácil de pegar,

Sem utilizar revólver

Só papel para assinar.

 

Assessores indicados

Eu quero ter mais de cem,

Pra ir ao fundo do cofre

E buscar todo vintém.

Desviar verbas de tudo

E o povo dizer amém...

 

Candidata-se o ladrão

A deputado local.

Gasta muito do que tem

Como fosse um vendaval

Dando a torto e a direito

Metade do capital.

 

No final não se elegeu

Ficando irado, raivoso,

Se perguntando: – por que

Não fui eleito fogoso?

E pediu satisfação

Ao prefeito desgostoso.

 

E disse: – Passei um ano

Gastando e lição tendo,

Observando seus passos,

Discursos belos fazendo.

Andando pela nação

E milagre prometendo.

 

Por que eu não fui eleito

Um deputado vigente?

O prefeito respondeu:

– Eu dei matéria somente

Para você ser político

Não eleito pela gente.

 

Além do mais você é

Lido e visto nos jornais

Como ladrão da nação,

Traficante, capataz.

É do mal embaixador

E perseguidor da paz.

 

O ladrão disse tremendo:

– Que diacho está falando?!

Sabe você, sei também,

Que de mim está zombando,

Sendo você ladrão fino

Que do povo vem roubando.

 

Pois entre você e eu

Há bastante diferença:

Eu só roubei dos ricaços,

Empresários de nascença

Que explora o trabalhador,

Nenhum atraso dispensa.

 

Se matei foi por descuido,

Você mata todo dia,

Quando tira verbas públicas

Da base da moradia,

Quando tira o giz do quadro

Deixando o saber sem valia.

 

Você mata quando tira

O direito de curar

A doença de seu povo,

Vendo na fila minguar

A nação de ponta a ponta

Morrendo em todo lugar.

 

Quando cria leis capengas

Causadoras de injustiça,

Que tira de quem não deve

E dá pra quem reza a missa

Do catecismo do crime,

Inda diz que faz justiça.

 

Eu sei, sou um grande mal.

Mas o que furto é a sobra,

Da sobra de sua mesa.

E vocês numa manobra,

Deixa milhares famintos

Sem fé, esperança e obra.

 

De tudo cria imposto

Dizendo ser para o bem

Da saúde, educação

E segurança também.

Mas que dinheiro sabido!

Ninguém não vê nem por cem.

 

Quando Tio Chico acabou

De contar essa história

Falei sem papa na língua

O que estava na memória:

– São os governantes daqui

Que faz a gente de escória.

 

E naquela época eu

Só dizia: – Conte mais...

Hoje vejo e me pergunto:

Quem é que tem mais cartaz?

O cidadão que é roubado,

Ou os políticos de Estado

Que pouco faz pela paz.

 

José Augusto, natural de Mossoró/RN,  é poeta cordelista e editor.

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