sábado, 27 de março de 2021

Sobre o Comércio Exterior Patriótico e o Itamaraty em xeque


Artigo no Alerta Total - www.alertatotal.net

Por Fábio Chazyn


Ano 2020: 25% da população economicamente ativa no Brasil está sem emprego há anos! Na maior precariedade, sobrevive vendendo o jantar para garantir o almoço. Quanto tempo mais vai durar essa insegurança angustiante?


Enquanto isso, os donos do poder vão pedindo confiança em dias melhores. O bom-senso grita que isso só pode funcionar se começarmos a construir a estrada para o Futuro. Se um dos trilhos é ‘confiança’, o outro tem que ser ‘criação de empregos’


Não há alternativa. A recuperação da economia com criação de empregos tem que ser o leitmotiv obsessivo do governante. Vai privatizar? Tem que criar empregos. Vai reduzir o déficit fiscal? Tem que criar empregos. Vai aumentar as exportações? Tem que criar empregos...


A venda de um poço de petróleo no Pré-Sal tem que ser um pretexto para obrigar o investidor a comprar o navio-plataforma made-in-Brazil. A venda de grãos pelo agribusiness tem que ser um pretexto para obrigar o comprador a fazer negócios de longo-prazo, senão não dá p’ra pensar em construir infraestrutura, como silos, ferrovia ou porto.


A saída de uma empresa montadora do Brasil que procura a lógica da melhor localização no cenário mundial, tem que ser um pretexto para compensar o País privilegiando a cadeia produtiva nacional. É preciso tomar uma atitude para compensar o nosso combalido mercado local. E fazer do limão, uma limonada!


Nessa hora, o critério da política de conteúdo local não pode ser relativizado. Criar empregos no Brasil tem que ser condição ‘sine qua non’ para se concluir negócios no comércio exterior. 


Comércio internacional não é ‘feira’. Não é venda de produtos, é venda de mercados. Mercado é “coisa-pública”. É preciso valorizar a coisa-pública para o bem-do-público.


O comércio exterior tem que ensejar oportunidades estratégicas para modernizar os produtos, a produção, os hábitos de consumo e a capacitação da logística de importação e de exportação. 


Explorar esse potencial vai depender da determinação em orientar o comércio exterior para negociações de longo-prazo. De fato, negócios ‘spot’ não têm o condão de lastrear decisões de investimentos em setores sinérgicos que exijam amortização de longo-prazo. É o modelo do “Comércio Exterior Patriótico”.


Temos muito a aprender com a política de comércio exterior estratégico adotado pelos chineses. Na China, não se consegue autorização para produzir se não trouxer vantagem estratégica para o país. As aprovações oficiais não se limitam a critérios quantitativos. Há que passar pelo crivo da qualidade, ou seja, do que não prejudica o “plano estratégico de nação”!


Guardadas as proporções com a China, que precisa incorporar 10 milhões de pessoas no mercado de trabalho todo ano, no Brasil o governo também não pode fingir que a política liberal funciona como nos países já desenvolvidos. Em países que ainda precisam incorporar populações no processo produtivo, é necessário construir escudos para se proteger de consequências negativas inerentes às trocas internacionais. É preciso ter um ôlho no Balanço-de-Pagamentos e outro ôlho na proteção de setores estratégicos.


O comércio exterior, a exemplo do disciplinamento que deve ser imposto ao investimento estrangeiro, tem que ser conduzido com solidariedade entre as empresas, que o promovem, e o interesse da Nação, pois é esta que tudo enseja. Ou seja, não basta que uma negociação internacional produza lucro para o privado, é necessário que ela seja também estratégica para o público.


Se vivemos em condições de independência política, o nosso comércio exterior tem que ser PATRIÓTICO, pois não seria patriótico permitir que nações estrangeiras o utilizem para condicionar o perfil futuro da nossa economia só para beneficiar os seus interesses momentâneos. É claro que não vamos querer que os estrangeiros determinem o que seremos no Futuro!


Quando FHC decidiu privatizar o setor energético não houve essa preocupação. Vejamos o que aconteceu com o aço brasileiro, por exemplo: 

O Brasil, um dos maiores fornecedores de minério de ferro do mundo, atende a 20% da demanda mundial. É a energia elétrica que agrega valor ao minério de ferro para ele virar aço. Quando as empresas estrangeiras compraram as concessões para explorar o setor elétrico brasileiro, o custo de energia na produção do aço representava 15% do preço de venda do aço. 18 anos depois esse custo da energia subiu para 25% do preço do aço.


O capital estrangeiro comprador das concessões do setor elétrico se deu bem. Mas o nossa exportação de aço se deu mal. No final, apesar de atender os 20% da demanda de minério de ferro do mundo, não conseguimos ter preço competitivo para suprir mais do que 2% da demanda de aço! 


Valeu a pena privatizar o setor elétrico sem regras estratégicas para combinar interesses dos dois lados? Será que não tinha um jeito de combinar interesse do investidor estrangeiro com ajuda às nossas cadeias produtivas? Vale a pena exportar matéria-prima para depois importá-la de volta com valor agregado lá fora?


De que adianta mecanizar a agricultura sem propiciar alternativas de emprego e renda no setor industrial? De que adianta privatizar um poço de petróleo ou uma estatal sem o comprador se comprometer em ajudar a criação de empregos no País? 


Se vamos privatizar a coisa-pública, que seja sem perder de vista o dia de amanhã. Quando se vende empresas ou parte de empresas estatais, é preciso avaliar o impacto que a venda produz sobre a cadeia produtiva e não somente sobre o caixa produzido na venda. Fazer isso é miopia, ou seja, é ser incapaz de vislumbrar mais longe e realizar um Futuro de sucesso para o País.


O avanço do investimento chinês no Brasil é o resultado do trabalho da embaixada da China em Brasília que atua com o critério comercial estratégico para a China, enquanto as nossas embaixadas seguem sem pessoal capaz de trabalhar com um critério comercial estratégico para o Brasil.


As embaixadas brasileiras têm que funcionar como frente-de-batalha a serviço do nosso ‘‘projeto-estratégico-de-nação’’. Manter o Itamaraty e o custeio de 138 representações diplomáticas no exterior para promover B2B (‘business-to-business’) é um despropósito com consequências muito caras.


O Itamaraty está estruturado para conseguir verdadeiros benefícios para o Brasil. Falta recapacitar o seu corpo diplomático para promover o “Comércio Exterior Patriótico”. 


Itamaraty em xeque


O Mundo está atropelando o Brasil! 


Se as maiores potências do Mundo estão em guerra, então o Mundo está em guerra!


Procura-se um Mediador! Paga-se MUITO bem!


Como poderia o Brasil, um país com a 6ª maior população, com as maiores reservas minerais e o maior potencial agrícola, portanto detentor de alguns dos maiores mercados do Mundo, ver a disputa entre os dois principais países sem entrar nela ou mediar a briga? 


Será que o Brasil não tem “DNA”? É terra-de-ninguém esperando passivamente que um estrangeiro venha tomar posse dela? Ou é formado de patriotas dispostos a defendê-la e a defender os valores que lhes são caros?


Se a questão que se coloca é se o Brasil tem Futuro, então é o caso de acreditar que para construí-lo temos que defender as suas pré-condições.


O Brasil também está em guerra, lutando pelo seu Futuro!


No passado recente, para não irmos muito longe com igual exemplo, os nossos “Pracinhas” foram às terras longínquas como aliados às causas que os “outros” defendiam: os valores da Liberdade. Voltaram com as honras que celebramos até hoje. As honras da luta e as glórias da vitória!


Quando se trata de conflitos que decidirão quem serão os conquistadores e os conquistados, dominadores e subjugados, como neste embate econômico travado entre os Estados Unidos e a China, envolvendo diretamente os nossos interesses, então não temos alternativa senão lutarmos por eles. 


A Pátria nos convoca para irmos lutar nessas frentes-de-batalha!


Nossa hora chegou novamente. Se a vitória do Brasil depende da nossa “raça”, então “verás que um filho teu não foge à luta, nem teme, quem te adora, a própria morte”.


Para esconder o interesse de dominar e subjugar, que são os verdadeiros motivos da disputa, tudo virou pretexto de estopim da Terceira Guerra Mundial. É alarme atrás de alarme. Campo fértil para moderadores!


De fato, a verdadeira frente-de-batalha da guerra atual é a diplomacia. É com as armas da diplomacia que temos que vencer. Nossa tática passa pela sabedoria da mediação de conflitos; de saber bater, alternativamente, “no cravo e na ferradura, para não assustar o cavalo”. O governo Bolsonaro deu as primeiras batidas. Uma nos Estados Unidos e outra na China, para não assustar todo mundo... Marcou presença dentro das fronteiras dos dois beligerantes. 


Com passo firme, as botas do Vice-Presidente, General Mourão, deixaram pegadas no projeto “BRI - Belt & Road Initiative” - a estratégia chinesa de marcar um enorme território econômico autônomo. Protegido das represálias americanas, essa nova Rota-da-Sêda pretende cooptar 80% dos países do Mundo através da construção de um cinturão de infraestruturas. 


No ‘front’ americano, Bolsonaro bateu ainda mais forte. Decidiu fincar bandeira na capital americana transformando a Embaixada do Brasil em Washington em “campo-de-batalha”. A estratégia é transformá-la em ‘casamata’ para nos defender da hostilidade nacionalista do estilo Donald Trump.


Para Trump, dominar o cyber-espaço não é só uma questão de honra. É “Estratégia de Segurança Nacional”, conforme ele tem insistido sem disfarçar. Não esconde que, se não segurar a Huawei e sua nova geração de equipamentos acoplados na tecnologia 5G, a hegemonia do sistema Android da Google ficará em perigo. Alguns vão ainda mais longe e temem também pelo futuro do Facebook, Microsoft, Apple, IBM, Amazon, da mesma forma como foi sucateado o IBM 360, base da linha Univac, também superada no tempo, apesar da façanha de levar o homem à Lua...  


Um país como o Brasil, representando a quarta “frota” mundial de celulares, perdendo somente para a China, a Índia e os Estados Unidos, tem a ‘autoridade-comercial’ para ser um ‘player’ nesta questão.


E o que dizer de outras questões quando lembramos a nossa capacidade de alimentar o Mundo inteiro, os nossos recursos naturais e o nosso enorme mercado sedento de investimentos e de consumo?


Sem esquecer das instituições multilaterais, como o Banco Mundial, FMI, OMC, que ficaram combalidas pela investidura Trumpista. Foram abertas as vagas para quem se qualificar para ocupar o ‘vácuo-político’.


A OCDE já se apresentou para ocupar o lugar do FMI, estabelecendo critérios de “agenda-positiva” para os países interessados em obter “graus-de-investimentos” para credenciá-los aos capitais supranacionais.


Será que o nosso “complexo-de-vira-lata” vai nos impedir, de novo, de nos candidatarmos a algum papel de vanguarda? Vamos perder as oportunidades abertas por esta re-arrumação do cenário mundial? 


A China fincou a sua bandeira com a tática de cooptação-e-avanço. A estratégia chinesa, centrada na construção de alianças estratégicas, é clara sobre como pretende conseguir apoios de terceiras nações para concluir a construção do cinturão de influência da nova Rota-da-Sêda. 


Do lado americano, Trump segue aliando os seus já aliados. Os países alinhados com os Estados Unidos não tem alternativa fácil. Para eles, decidir diferentemente seria como se a Terra decidisse deixar de orbitar o Sol, tal é a dependência que criaram do maior mercado de consumo do Mundo.  


E nós? Vamos seguir os ditames da nova cartilha alienígena ou vamos seguir uma estratégia nacional? A nossa opção é de seguir uma ‘grande estratégia’ passando pela formação de uma ‘cidadela diplomática’ com as nossas embaixadas alinhadas e articuladas para blindar a nossa ‘casamata’ em Washington e irradiar, a partir dela, o nosso avanço sobre novos ‘territórios’.


Para isso ser possível vamos ter que contar com os diplomatas do Itamaraty. 


Não podemos minorar o fato de que a idéia da globalização-das-economias forjou uma cultura que impregnou na atual geração dos quadros da diplomacia brasileira, já desorientada pela pressão da longeva administração do PT e seu projeto, completamente anacrônico, de integração da América Latina pela via da criação da Ursal - União das Repúblicas Socialistas da América latina.


O Itamaraty e a Apex – Agência de Promoção de Exportações, por décadas, se limitaram a promover feiras e facilidades para encontros de negócios. Foi a vez da doutrina do ‘B2B – Business to Business’.


Agora é a vez do ‘Comércio Exterior Patriótico’. Este novo modelo implica a re-capacitação do quadro de diplomatas do Itamaraty.


Essa reciclagem exige mais do que conhecimento de ferramentas de marketing. Exige o resgate do sentimento de patriotismo e o alinhamento dos quadros do Itamaraty com a nova proposta de colocar o “Brasil Acima de Tudo”.


É preciso, sim, continuar promovendo superávits da Balança Comercial. Mas além de produzir lucro para o setor privado, será necessário que as negociações internacionais contemplem também o setor público. 


Negócios pontuais têm que dar lugar a negócios estratégicos de longo-prazo, sem os quais não dá p’ra pensar em construir infraestrutura, silos, ferrovia, entroncamentos, portos, etc, etc.... 


Neste particular, os chineses têm lições a nos dar. Não se consegue negociar com a China sem passar pelo crivo do seu “plano estratégico de nação”.


Nós também precisamos entender que privatizar ou exportar não é somente vender ativos ou produtos. É vender mercados! E mercado é “coisa-pública”. A monetização de produtos e de mercados tem que ser diferenciada. Quem quer o privilégio de explorar os mercados de uma nação, seja de venda como de compra, tem que ajudar a capacitá-la a cumprir os desafios inerentes. 


Internamente, nessa hora da luta para fincarmos a nossa bandeira nos novos ‘fronts’, só unidos é que podemos afirmar os nossos interesses. 

É como Patriotas que vamos conseguir garantir as condições prévias de um Futuro que seja auspicioso.


Defender o Brasil é ato de Patriotismo.


É hora do sentimento de patriotismo sair dos quartéis onde ficou confinado tanto tempo. O nosso Vice-Presidente da República, General Hamilton Mourão, já saiu!


Sem prejuízo às importantes e complementares competências administrativas do titular do Ministério de Relações Exteriores, uma Força-Tarefa encabeçada pelo General Mourão e apoiada pelo Itamaraty deverá ser a nossa “ponta-de-lança”.


Temos quem precisamos para encarnar a autoridade, o conhecimento, a experiência e a liderança exigidos nesse grande desafio de reposicionar o Itamaraty com estas novas bases. 


Afora suas qualidades pessoais, o credenciamento do voto e do suporte da 6ª maior população do Mundo reveste o Vice-Presidente com a autoridade-moral para mediar conflitos políticos não só aqui, mas também em terras estrangeiras.


De fato, o momento atual de realinhamento mundial em torno das cadeias-de-valor, ora em formação, implicará, como já podemos entrever, muitas disputas internacionais e oferecer ao General Mourão, apoiado pelo Itamaraty, muitas oportunidades de mediação.


Negociador-inato, ele já provou que sabe tirar proveito da temperança e da humildade. Também no ‘front’ externo, o General Mourão não nos privará de suas qualidades e saberá trazer para o Brasil as vantagens consequentes. Campeão de mediação, o Barão do Rio Branco, que o diria, se pudesse. 


O ‘campo-de-batalha’ do século 21 exige armamento mais ousado do que o simples ‘B2B’. Não podemos desperdiçar as 138 representações diplomáticas que mantemos a duras penas nos quatro-cantos-do-mundo. Precisamos tirar proveito dessa presença e fazê-las valer a pena.


A promoção do ‘Comércio Exterior Patriótico’ vai catapultar o Brasil ao lugar que merece e será a alavanca para reequipar a nossa economia. 


A hora da conquista é agora. Agora é a hora de mostrar que somos bons no “deixa-disso” e ao mesmo tempo conseguir “puxar-a-sardinha-p’ro-nosso-lado”, seguindo os passos do Barão do Rio Branco.


É a hora da luta intransferível dos nossos compatriotas-diplomatas nos ‘fronts’ do Mundo. A vitória deles é a nossa glória!


Para o bem do Futuro do Brasil!


Fabio Chazyn, engenheiro, cientista político, empresário e autor dos livros “Consumo Já! Projeto Vale-Consumo” – 2ª edição (2020) https://clubedeautores.com.br/livro/consumo-ja e “O Brasil Tem Futuro? Projeto A.N.O.R. – Inteligência Artificial Coletiva” (2020)   https://clubedeautores.com.br/livro/o-brasil-tem-futuro

Um comentário:

aparecido disse...

vivemos tempos de incerteza... e incerteza é probabilidade...os chinos começaram a fechar contratos de vachinas em set/19... até o calcinha apertada fez seu contrato em set/19...3 meses antes da doença surgir na China e cinco meses antes de surgir no ocidente...como vender uma vacina de uma doença que não existia ????.. O Bill Gates em out/19 disse que uma apidemia de coronga estava prestes a acontecer...todo mundo sabia do coronga alguns meses antes dele surgir... e todos os acontecimentos desde então , que já se fazem 18 meses, ocorreram favorecendo um unico pais... e este pais vende ao mundo, de maneira bem agressiva, que todos estes acontecimentos são obra do acaso, do destino, nada que acontecesse seria obra da inteligencia humana...é um acontecimento "probabilistico" que acontece sempre numa unica direção...E o pior é que todos acreditam no ocidente nesses acontecimentos como aleatórios...parece que a inteligencia ocidental travou.. não funciona mais...os chefes de estado europeus estão em estado catatônico, sem conseguir entender nada da realidade circundante...O bichinho surgiu em Whuan e em fev/20 um Resort em Insbruck na Austria teve 200 de seus 280 hoapedes contaminados em apenas uma semana.., a dez mil km da cidade de Whuam...e tudo isso vendido como obra do acaso.... vejam a Cepa de Manaus, que esta matando agora no Brasil...... Manaus recebe dezenas de Vóos cargueiros da China todos os dias... exatamente ali surgiu a nova cepa.. tudo obra do acaso.....claro....não consigo entender isto como obra do acaso...sempre estudei probabilidade e estatistica e qualquer um sabe que eventos aleatorios acontecem dos dois lados.. aventos que sempre acontecem de um lado só não são aleatórios...e fico estupefato porque ninguém esta vendo isso no Ocidente..ninguém