segunda-feira, 19 de julho de 2021

Bolsonaro, a Não-Pessoa


Artigo no Alerta Total - www.alertatotal.net

Por Paulo Briguet

Pouca gente sabe, mas a prisão da Bastilha estava praticamente vazia quando uma turba ensandecida tomou a fortaleza carcerária em Paris, no dia 14 de julho de 1789. A maioria dos presos, entre eles o famoso Marquês de Sade, já havia sido transferida para outros locais. Depois de invadir a Bastilha, a multidão teve de se contentar em soltar menos de 20 presos — criminosos menores — e saquear a confortabilíssima cela de Sade, a número 6, com sua biblioteca de 600 volumes, pinturas e tapeçarias obscenas. Quem se deu mal naquele dia foi o Comandante de Launay, chefe da prisão esvaziada. Levado para o meio da Place de Gréve, ele foi assassinado pela multidão. Um assistente de cozinheiro chamado Desnot usou seu instrumento de trabalho para cortar a cabeça de Launay e cravou-a numa lança, com a qual desfilou festivamente pelas ruas da cidade.

É notável que a tão celebrada Revolução Francesa — com sua promessa de liberdade, igualdade e fraternidade — tenha começado pela celebração um assassinato. Quando o cozinheiro Desnot separou a cabeça e o corpo do Comandante de Launay, ele estava dando início ao mar de sangue das revoluções modernas, cujo símbolo máximo seria a guilhotina. Quatro anos depois, cerca de 40 mil franceses, inclusive o rei Luís XVI, teriam suas cabeças separadas do corpo durante os 10 meses do terror jacobino. Na primavera de 1793, os católicos da região da Vendéia se rebelaram contra o governo revolucionário, dando início a um conflito que deixaria quase 200 mil mortos, considerado por muitos historiadores como o primeiro genocídio moderno. Tudo em nome da Revolução.

Nos genocídios de nosso tempo — quase todos eles de natureza revolucionária — é fundamental que o inimigo seja destituído de sua condição humana. Foi assim com os kulaks na União Soviética, com os cristãos e tibetanos na China, com os judeus na Alemanha nazista, com os gusanos em Cuba, com as mulheres alemãs estupradas pelos soldados soviéticos ao fim da Segunda Guerra, com os habitantes urbanos do Camboja e com tantas outras camadas de indivíduos considerados inimigos da revolução. Se o cozinheiro Desnot assume o poder, todo inimigo se torna o Comandante de Launay, ou seja, uma não-pessoa.

O assassinato do oponente ocupa uma posição central na mentalidade política de nosso tempo. Por esse motivo, quando alguma personalidade ousa questionar os dogmas da religião civil progressista (lembrando que progressismo é apenas um nome-disfarce para comunismo/socialismo), imediatamente essa pessoa começa a ser ameaçada de morte. No caso de Jair Bolsonaro, há um salvo-conduto para que se defenda a sua execução conforme os métodos mais cruéis e dolorosos. Qualquer um é livre para desejar que Bolsonaro morra esfaqueado, enforcado, fuzilado, decapitado, asfixiado, esquartejado, queimado ou envenenado. Afinal, ele não é um ser humano; ele é uma coisa a ser exterminada sem compaixão. Da mesma forma que ninguém se sente culpado por esmagar uma barata, não há nenhum problema moral em imaginar, defender ou planejar a aniquilação do presidente. O mesmo vale para seus apoiadores; se um dia, mesmo que por um instante, você defendeu Bolsonaro ou qualquer uma de suas ideias, também merece ter a sua cabeça cortada pelo cozinheiro Desnot.

Embora eu esteja rezando pela recuperação do presidente, não é a situação dele a que considero mais preocupante hoje, mas a daqueles que o atacam. Você consegue imaginar a solidão e o desespero de uma jornalista adolesvéia cujo prazer na vida é desejar a morte de um político? Quanto vazio cabe no coração de um militante cujo trabalho consiste em manifestar seu rancor pela vida e seu ódio a Deus em meio às próprias deficiências gramaticais e insuficiências vocabulares? Qual é a extensão da misericórdia necessária para salvar a alma de alguém cuja felicidade depende da extinção de um homem que nunca lhe fez nem fará mal? Essas pessoas estão condenando a si próprias. Estão bebendo um veneno na esperança de que o inimigo imaginário morra. Estão se transformando em feridas vivas de rancor e estupidez.

Dias atrás, quando o presidente rezou a oração do Pai-Nosso diante de jornalistas, esse desejo homicida foi mais uma vez despertado. Sim, o desejo estava lá desde o princípio, mas a oração ensinada por Cristo reavivou-o de modo avassalador. Para o mundo de hoje, rezar o Pai-Nosso se tornou quase um ato de subversão. Frequentemente, quando alguém se propõe a repetir em público as palavras que Jesus nos ensinou, aparece algum militante do “Estado laico” para dizer que não pode. Ora, o conceito de laicismo foi criado para proteger a fé das pessoas contra a imposição dos governos humanos, e não o oposto, como se alardeia...

Por que tanta implicância com o Pai-Nosso? Desconfio que a resposta está na atordoante simplicidade de uma oração universal que atravessou dois mil anos, educou gerações após gerações e transfigurou-se em todos os idiomas da humanidade.

“Os reis não gostam dos profetas”, escreveu Otto Maria Carpeaux em memorável ensaio publicado há quase 80 anos. Por “reis”, entenda-se todo aquele se julga dono do mundo, cargo atualmente ocupado pelos justiceiros sociais. A oração do Pai-Nosso transforma cada ser humano que a pronuncia, por alguns instantes, em um pequeno profeta. E isso os donos do mundo não podem aceitar. Quem reza o Pai-Nosso não pede um “mundo melhor”. Pede um novo mundo, um outro mundo, muito além de revoluções materiais.

O Pai-Nosso é um poema politicamente incorreto: a oração que não passa para um mundo que passa. Começa por afirmar a presença de um Pai disposto a nos socorrer e consolar com sua mera presença; avança dizendo que esse Pai tem um nome, ou seja, é uma pessoa, não uma ideia ou doutrina ou produto da mente; sem o menor constrangimento, informa que esse Pai tem até um endereço, o Céu; ousa declarar que esse Pai quer alguma coisa de nós que talvez não seja exatamente o que nós imaginamos como felicidade.

O Pai-Nosso também é uma oração de agradecimento (não de reclamação ou exigência) pelo pão que foi colocado à mesa de nossa casa ou de nossa alma; do perdão que jamais existe sem a verdade e da verdade que jamais existe sem o perdão; da tentação (ou seja, do teste) que certamente virá; de uma pequena Arca de Noé que nos proteja contra o dilúvio do mal.

Meu único plano, para qualquer tempo que vier, é realizar a oração do Pai-Nosso. Sei que por isso serei visto, na melhor das hipóteses, como um carola meio tonto, e na pior, como um perigoso monstro reacionário. Quer saber? Não dou a mínima. Continuarei rezando e realizando o Pai-Nosso não apenas com palavras, mas com pensamentos e ações. Porque nada pode superar a alegria de ser filho deste Pai.

Em 1976, quando terminou a guerra do Vietnã, o governo comunista do país asiático prendeu padres católicos. Um dos “perigosos contrarrevolucionários” detidos era o Cardeal François Van Thuan (1928-2002), que passaria nove anos em isolamento e quatro anos em um “campo de reeducação”. Quando estava doente, na cela, Van Thuan só tinha forças para dizer: “Pai Nosso...” e mais algumas palavras.

Um dia, as pessoas começarão a ser presas por meramente rezar o Pai-Nosso. Quando essa hora chegar, lembre-se do cardeal prisioneiro e reze como se fosse a última vez. Não há mal que resista para sempre à oração de um profeta — mesmo um profeta miserável feito eu ou você ou o Bolsonaro.

O Pai-Nosso transforma quem o reza em uma pessoa. E é justamente isso que os cozinheiros Desnot de nosso tempo não podem aceitar: que o seu inimigo seja também uma pessoa, criada à imagem e semelhança de Deus, e com a alma imortal.

Paulo Briguet é Cronista e Editor-chefe do BSM - Brasil Sem Medo - no qual o artigo foi publicado em 17 de julho de 2021.

4 comentários:

Anônimo disse...

Se o presidente se diz católico fervoroso, deve saber que o livro bíblico Eclesiástico diz: "HONRA O MÉDICO (quer dizer, obedeça sua prescrição), PORQUE ELE É NECESSÁRIO, POIS FOI O ALTÍSSIMO QUE O CRIOU". Ele também precisa lembrar que quem se expõe conscientemente a risco desnecessário, está TENTANDO DEUS, neste caso, por não valorizar (jogar fora, como um Filho Pródigo) o talento recebido que é a saúde e a vida. Como ele espera ser exemplo do valor conservador da disciplina para jovens desregrados pela esquerda, se ele não a tem para uma simples dieta?
Com essa teimosia suicida, ele próprio realizará o desejo dos comunistas. Minha avó dizia que "Quem morre por seu gosto, se enterra para seu regalo".

aparecido disse...

Alguém precisa rezar o pai nosso para o papa vermelho...ele adora os chinos que matam cristãos...

Anônimo disse...

Não imagina o quanto católicos estão rezando para a iluminação e conversão do papa, mas Deus também pode enviar um pontífice desagregador do Catolicismo, para punir os católicos que não se posicionam firmemente contra as agendas anti-Deus aprovadas em diversos países ditos de tradição católica, como aborto, eutanásia e casamento de pessoas do mesmo sexo. São Paulo dizia "Salvai-vos dessa geração perversa", mas muitos católicos acreditam que precisam se "atualizar", se adaptar e que não há necessidade de conversão e penitência pelos pecados: o resultado é o cego guiando outros cegos para o abismo, porque a Lei de Deus é eterna.

Anônimo disse...

[Certas pessoas não entendem como problemas que são muito sutis podem ser mais graves do que problemas que são mais visíveis. (...) Gênero não é um princípio, mas uma ferramenta, uma plataforma, um instrumento político para a desconstrução da natureza humana, da identidade, da sexualidade da criança. É usado com uma linguagem própria para alavancar o que eles pretendem. (...) Sensibilizar é desconstruir, ficar incutindo novas ideias na cabeça delas; novas experiências de sexualidade para mostrar que na verdade não existem sexos, existe o gênero polissexualizado. Se amanhã um jovem disser não a essa agenda, começa uma nova fase, dizendo que este aqui está discriminando e precisa ser punido. Punição às famílias que educam os filhos contrários a essa ideologia, ampliando os projetos, porque esse foi o caminho nos países que já aprovaram gênero. Reescrevem a história a partir do ângulo de gênero; o material didático esvazia os elementos históricos, faz sociologia da História voltada para as crianças. Na internet, fazem bullying com os pais que se manifestam contra, a grande mídia aumenta a sensibilização e, caso seja aprovada legislação para puni-los, o ambiente já está pronto. O PREFEITO DE SÃO PAULO QUER elevar gênero à categoria de princípio, INSERI-LA SUTILMENTE NA EDUCAÇÃO MUNICIPAL, mesmo quando a legislação foi derrotada na Câmara Municipal de São Paulo. Esse projeto de economia solidária com o Cavalo de Troia da ideologia de gênero terá efeito dominó em outras prefeituras até alcançar todo o país. (...) A tática vence várias batalhas. (...) Geração é o termo, a linguagem que eles usam para dissolver a ideia de sexualidade com criança, idade de consenso, e sempre esconde lá no fundo a ideia da pedofilia sendo descaracterizada. O que eles querem é desconstrução geral, a natureza deve ser superada.]

A Cartada Final - Prefeito de SP e a bomba do gênero (Déia e Tiba)
https://www.youtube.com/watch?v=tB5mIV0z2iM